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Quotidianos

A propósito de «Um Discurso Escondido» no BarreiroUma leitura num tempo de calor e tanto «alfredismo» a marcar a conflitualidade política local

Acabei de ler o livro «Um Discurso Escondido – Alfredo da Silva e as Greves na CUF durante a Primeira República 1910-1919», de Vanessa de Almeida, Licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e com uma pós-graduação em Antropologia dos Movimentos Sociais pela Faculdade de ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Esta obra foi editada em 2009, pela Bizâncio com a colaboração da Câmara Municipal do Barreiro.

Neste tempo de Verão, com os ânimos tão quentes em torno de Alfredo da Silva, aqui fica, pois, uma sugestão de leitura, que pode ajudar a reflectir, com alguma serenidade e contribuir para arrefecer os ânimos ou ajudar a conter os «preconceitos ideológicos».

6 min de leitura
A propósito de «Um Discurso Escondido» no Barreiro Uma leitura num tempo de calor e tanto «alfredismo» a marcar a conflitualidade política local

Por Jornal Rostos

Já agora, quero acrescentar que defendo, sempre defendi, que o Barreiro deveria trazer a si o «acervo histórico» de Alfredo da Silva, da CUF e da Quimigal, porque, toda esta realidade, é de maior importância para pensar, estudar e reflectir sobre Portugal dos séculos XIX, XX e XXI que, agora, está a começar…
Várias vezes sugeri a criação de um «Centro Documental de Interesse e Investigação sobre Alfredo da Silva e a CUF», de forma que o Barreiro fosse capaz de se transformar a terra de referência de investigação, em torno da temática – A Fábrica e a Cidadania.
Tenho esperança que, mais tarde ou mais cedo, a criação deste Centro possa vir a tornar-se uma realidade..talvez, noutras gerações , depois de fazermos a «catarse» e sentirmos como, ainda hoje, Alfredo da Silva podia ser um elemento de promoção económica, sendo o motor de valorização de uma "vertente turistica" sobre as “memórias da indústria».
Fala-se em «turismo rural». Imaginem algumas das casas do Bairro Operário geridas numa óptica de «turismo urbano industrial».

Mas, voltemos ao livro. Quando acabei de ler este livro de Vanessa de Almeida retirei três ideias centrais – primeira que, independentemente do valor empreendedor do industrial Alfredo da Silva, esta obra permite-nos compreender a estratégia da sua «obra social» e, de facto, ter uma visão daquilo que, certamente, transportado para os tempos actuais, ninguém que seja defensor - mesmo de um modelo de vida assente na social democracia – deseja que esta seja a realidade que se afirme na vivência da cidadania, na concepção de democracia ou, até, como modelo de «patronato», como sendo aquele, que defende como necessário para o sucesso da sua empresa, debelar a organização dos trabalhadores e exigir no seu funcionamento, apenas, trabalhadores que seja pessoal «diligente, disciplinado e respeitador».

A segunda ideia que retirei é que a «cultura dominante», no pós República, também, no pós 25 de Abril, com a influência dos comunistas na vida sindical e social, e, obviamente, o seu papel na resistência antifascista, contribuiu para centrar as referências a Alfredo da Silva e à CUF, como se todo o processo histórico se tratasse de um confronto entre o PCP e o Alfredo da Silva ou «os capitalistas da CUF».
Um conflito entre os «bons» os comunistas e os «maus» os «Afredistas».
Este «estigma» Alfredo da Silva versus «comunistas» foi, de alguma forma cultivado, como forma de expurgar da memória outras correntes de pensamento e centrar nos comunistas o protagonismo das lutas operárias.
Esta obra de Vanessa de Almeida contribui, na realidade, para repor a verdade histórica.
Ainda não existia PCP em Portugal e as lutas contra o modelo de exploração capitalista, atingiu níveis que mobilizaram o Barreiro, e, na verdade, colocaram o Barreiro como uma terra que nunca baixava os braços em luta por melhores condições de vida.
Pergunta e muito bem Vanessa de Almeida, o que justifica – «O total esquecimento das greves entre 1910-1919?»

Outra e última ideia que retirei da leitura desta obra, tem a ver com «os oriundos de fora» e «os segmentos operários» da vila Camarra.
Esta, também uma matéria, que emerge nesta leitura e, um tema que sempre me «tocou o pensamento» nestes anos de vivência e integração na vida barreirense.
Os autóctones e os não autóctones. O ser do Barreiro e o não ser do Barreiro.
Neste caso, pelo que entendi da obra de Vanessa de Almeida, a história foi «apagada» porque, os «oriundos de fora» foram purgados do Barreiro.
Esse, era outro assunto que merecia alguma investigação histórica – as memórias dos ratinhos fura greves – aqueles que chegam e se integram, os que chegam e são sempre olhados como «os outros».
Uma certa cultura xenófoba que, muitas vezes, emerge, mas que, na realidade, tem sido esbatida, quanto mais se reconhece, como escrevi em 1977 - «O Barreiro terra de muitas gentes, vindas de muitos lados».

Enfim, neste tempo de calor e tanto «alfredismo» a marcar a conflitualidade política local, fica pois esta sugestão de leitura e de reflexão.
Pode ser que esta leitura ajude a «encontrar» mais pistas para «uma identificação correcta» da «placa identificadora de Alfredo da Silva».

Mas, já agora, por favor, iluminem a Estátua.
Aquele espaço central do Barreiro merece mais luz e dá mais vida à noite barreirense.

Bom, quanto à Placa, talvez criar uma Comissão – incluindo historiadores, sociólogos, filósofos, operários, engenheiros, GNR’s, políticos, etc. – para que se possa chegar a um consenso abrangente.
É que, na realidade, esta coisa dos «preconceitos ideológicos» parece que não é somente dos comunistas, está um pouco espalhada por diversas famílias politicas.
Esta cultura que define como sendo «bons barreirenses» aqueles que defendem Alfredo da Silva e, por outro lado, são «maus barreirenses» - ingratos - aqueles que criticam Alfredo da Silva, neste tempo, tantos anos após o 25 de Abril, é mesmo um «fait divers».

Nesta «guerrilha urbana», o PSD ao colocar-se no Barreiro como a voz do patronato, fazendo de Alfredo da Silva, um leit motiv, para separar as águas do PCP, até se percebe.
É assim com o quem diz ( sem preconceitos ideológicos, claro! )- “Vamos lá irritar os comunas!”.
O PCP, por outro lado, ( também, sem preconceitos ideológicos, claro !), reconhece a figura de Alfredo da Silva, mas, de forma alguma está disponível para renegar a história, e, muito menos, os mitos criados pela «cultura dominante» de «classe contra classe».
O BE lançou o fogo para a fogueira, quando cultivou o «monumento ao operário»- ( sem preconceitos ideológicos, claro! ) - , ou, também, quando lançou o debate histórico sobre os 100 anos da CUF, empurrando o PCP para o confronto com as suas memórias.
Agora está calado. Isto é uma guerra deles – do PCP e dos outros.

O PS, enfim, sem agenda politica, encontrou, nesta «guerrilha urbana» lançada pelo PSD, uma boa matéria para «atiçar» os «ódios assinalados», colocando-se como o «bom samaritano» ( sem preconceitos ideológicos, claro! ).

Enfim, cá vamos, neste nosso burgo, divertidos, e, talvez, por este andar, qualquer dia, para fazer uma «ruptura histórica», o melhor é mudar o nome do Barreiro para - CIDADE ALFREDO DA SILVA.

António Sousa Pereira

Nota - O livro pode ser adquirido durante as Festas do Barreiro no Mercado das Exposições

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