PAULO RANGEL LANÇA LIVRO DE "REFLEXÃO POLÍTICA""UMA DEMOCRACIA SUSTENTÁVEL" TEM PREFÁCIO DE ANTÓNIO BARRETO
Por Jornal Rostos
Excerto do prefácio de António Barreto
"Paulo Rangel traz à política algo que muita falta nos faz: cultura. Não o vejo limitar-se ao raciocínio táctico ou à maledicência partidária, muito menos à exibição satisfeita da sua vaidade. Escreve sem clichés nem lugares comuns, bateria obrigatória da maior parte das intervenções públicas dos nossos políticos. Fala sem recorrer a frases feitas e a fórmulas inventadas para a televisão, ingredientes indispensáveis para a expressão dos políticos medíocres que abundam em Portugal e na Europa. Ora, o problema não é só de estilo ou de “letras”. Quem assim fala e escreve é porque pensa assim. A experiência académica de Rangel é visível no modo como argumenta e discute. Noto até, suprema raridade, a revelação de dúvidas, mesmo quando defende as suas causas. Sabemos que a tradição política é a da afirmação, mas também é conhecido que essa está ao alcance de todos, enquanto a exibição da dúvida não. Pensar faz tanta falta à política como a qualquer outra actividade. E Rangel gosta de o fazer."
Excerto das notas de abertura de Paulo Rangel
"O duríssimo transe por que passa Portugal torna mais aceitável e atractiva a ideia que perpassa pelas linhas e, mais ainda, pelas entrelinhas do livro: tal como as finanças públicas e tal como o ambiente, os regimes políticos também carecem de fundamentos de sustentação. De algum modo, e em vários passos, a sucessão de textos e a sua localização no tempo documentam a erosão progressiva e deslizante da qualidade da democracia portuguesa. Um país que não tira partido das virtualidades “idiossincráticas” do seu sistema de governo; um país que não percebe a “capilaridade” do sentimento da intermitência da justiça; um país que vive do “ilusionismo social”, reproduzindo e amplificando a sua classe aristocrática; um país que não arrisca a reinvenção de um conceito estratégico nacional à luz da equação europeia; um país que recusa veementemente, e todos os dias, a construção da coesão territorial; um país que não interiorizou a mudança do contexto internacional; um país que não cultiva quotidianamente as virtudes da dimensão pública da cidadania; um país que não reconhece a discreta excelência dos seus melhores. Um regime democrático – este concreto regime democrático – num país com estes estrangulamentos e disfunções caminha, ao ritmo de passadas longas e largas, para as paragens da insustentabilidade. (...) A questão portuguesa é, portanto, de validade ou de legitimidade e não, como a muitos parece, uma “mera” questão de eficácia ou de gestão. Gerou-se, portanto, um fosso de legitimidade, seja do título, seja do exercício. De legitimidade do título – isto é, de natureza institucional –, como pode ver-se nos capítulos em é proposta a leitura mais presidencial do sistema de governo, justificada a refundação das relações entre a justiça e a política, advogada a resolução constitucional e estratégica do enquadramento europeu de Portugal ou explicada a “internalização” da ordem global fundada no 11 de Setembro. Mas também de legitimidade do exercício – isto é, de jaez substancial ou substantivo –, como pode aferir-se na ideia da redefinição do valor da igualdade nas políticas públicas, no imperativo da assunção da equidade territorial no concerto político ou na identificação da virtude cívica na vida pública."














