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Quotidianos

Carlos Bondoso “COR PÚRPURA”Por Fernando A. Almeida Reis
Barreiro

O poeta Carlos Bondoso é ileso no tempo, como praticamente são todas as coisas que ele canta – como é o amor que diviniza – neste livro, porque reais, apesar de simbólicas. O tempo é o seu espaço, a cidade e o mar o seu lugar, o amor o seu principado, como esperança, em que esta é a sua casa.

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Carlos Bondoso “COR PÚRPURA” Por Fernando A. Almeida Reis Barreiro

Por Jornal Rostos

Carlos Bondoso “COR PÚRPURA”

(chancela CHIADO EDITORA)
– Opinião Literária©
(não escrevo segundo as regras do acordo ortográfico)

A obra de Carlos Bondoso define-se por uma busca constante, quase sem remédio, dum amor perdido no seu imaginário de poeta. No percurso da sua obra, o objecto do desejo é, sempre, a mulher amada: “vejo-te em todo o lado / na selva da pradaria nos campos na maresia / onde o amor corre livre”, num amor sem fronteiras nem limites: “quero-te selvagem nos campos à minha imagem”.
Este poeta beirão que fez do Montijo a sua terra, perde-se e encontra-se nos devaneios poéticos da sua obra “COR PÚRPURA”, que ganha consistência especial por uma firme certeza de si, sem cadeias a forças estranhas a si, estruturada pela marcação do ritmo: “sou livre de ideias / sou vagabundo / sou atleta andarilho / corredor de fundo / sou descobridor / navegador explorador / amante de ilusões / e novas sensações”, em que o despertar, nele, de sensações, é constante no seu imaginário poético. Ganha consistência pela abertura de imagens múltiplas “vi ondas onde não existe mar”, para noutro poema nos dizer, com o mesmo recurso imagético com que recheia a sua obra, que “nas horas de solidão / o mar a lua e o luar / desaguam na (sua) praia / ondas bravas de revolta // (que) trazem na crista / o olhar e o fogo / que arde / nas fúria das labaredas da paixão”. Note-se que toda a sua obra é isenta de pontuação como que, também para si, a poesia fosse (seja) um caminho a explorar sem fronteiras nem limites. Este traçado metafórico não é, seguramente, nem ocasional nem aleatório. Atente-se no seu poema “Um Louco na Cidade” onde se aventura em “silêncios” nos “voos rasantes no vácuo / da (sua) insanidade”. Sempre a incidência em torno do imaginário: ama “o impossível” e alcança “o clímax / em aventuras / utópicas de imaginação”.

É uma poesia do amor que corre livre, na forma e no ritmo, e existe “no meio da multidão / (…) pelas ruas fechadas / à criação”. Mas o poeta Carlos Bondoso, mesmo assim, cria, não apenas cavalgando as nuvens do céu ou as ondas do mar, mas, também, calcorreando as ruas da “cidade nua” onde “a selva é de cimento” e “a cidade é a prisão / onde a futilidade / se pavoneia”. Ele é “um louco (mas um louco de sã loucura) que se encontra / nos nichos de uma grande cidade”. É a fuga ao bulício da civilização como refúgio para os seus versos. Para encontrar a paz, sólida, abandona-se no refúgio da solidão, expectante, ao mesmo tempo, dos seus poemas. É uma poesia do amor onde parece estar sempre presente a ausência de algo, que marcou tempo e lugar na alma do poeta.

Há uma preocupação constante em dar beleza e força à sua poesia do amor, sem cair em repetições cansativas, mesmo quando algo parece ser obstáculo e o transtorna, aliando a poesia às coisas da natureza: “vi ondas onde não existe mar / vi o sal e os sinais a divagar / vi rios que me deixam a pensar”. Em si, a audácia estrófica é uma constante irregular mas, o que importa, para definir estados de alma do poeta, é o que lhe sai de dentro, numa evasão constante de si, que também se sabe reconhecer “nu e cru” na sua forma de amar. É, digamos, toda a sua obra, uma doçura nua e crua num imaginário de loucura (de sã loucura) quando faz com que a “solidão da noite” em que escreve ilumine o seu “silêncio”. E, nu e cru faz discorrer, também, nos seus versos, a desgraça dos desgraçados com quem chora mas alimenta, ao mesmo tempo, o seu ego no altar-mor do amor da mulher que idolatra. Ela é o seu ópio puro que lhe alenta a vida e alimenta o viver. Se, por um lado, é a desgraça na vida, por outro, é, a esperança depositada no amor e na vontade persistente de amar. Por isso recorre ao belo-imaginário da mulher que inventa e idealiza. Atente-se, no seu poema “Lágrimas Perdidas”, onde se dissocia, por momentos, que não são únicos no livro, do seu principal objecto poético – a mulher – para sofrer com os que “não têm alimento” e chorar, com eles, “lágrimas perdidas” pelas “mãos feridas de trabalho / (…) sem esperança (…)” nas “ruas cidades avenidas (…) / onde “não há leito” para “os filhos que dormem” ao relento.

Incidências felizes, na poesia de Carlos Bondoso, em torno do imaginário, que se manifesta por uma ausência de lirismo lamechas (e ainda bem que há tal ausência!) a lembrar o fadinho chorado, mais faduncho que outra coisa, tão evidente hoje em alguns dos nossos poetas de cordel. Nada disto está presente na poética de Carlos Bondoso. O seu português, nos seus versos em que o trocadilho quase não existe, é feito de palavras simples num português vernáculo, em que a mancha do erro gramatical está ausente. Há o mar e a desgraça (nas cidades), há o azul de S. Tomé como linhas de força definidoras que nos transportam para lá do imaginário poético. É quando se nota que usa a sua escrita na veia da razão a envolver o corpo, e a fazer mergulhar os sentidos num almejado e latente erotismo.

É o autor que nos impõe aos seus poemas, roteiros imprevistos, sem se deixar iludir e influenciar por caminhos já percorridos, como aqueloutros que atribuem os seus devaneios poéticos a influências estranhas e perturbadoras, provenientes dum reino passado. Aqui é o poeta que marca, que define, que impõe, porque inova, a cada instante, a cada passo poético que dá, a cada verso que cria, ainda que recorrente no mesmo tema – o amor – a linguagem imperante dos sentidos. Feliz a sua poesia que nos põe em evidência um poeta diferente, na forma, em nada obscura, simples e actual, sempre actual, com que nos canta o amor. Fértil em imagens e metáforas, de entendimento fácil na leitura e interpretação de seus versos, tornam-no, por causa disso, também, num poeta místico, cujo valor poético não deve limitar, apenas, ao cantar do amor. Divinizá-lo, sim, cantá-lo, também, mas não o escravizar escravizando-se, nele, em versos. De repetitivo, no tema, pode passar do banal ao vulgar. E, o amor, não deve ser vulgarizado. Antes, divinizado. Com palavras sábias e certas, e no tempo próprio e exacto.

O poeta Carlos Bondoso é ileso no tempo, como praticamente são todas as coisas que ele canta – como é o amor que diviniza – neste livro, porque reais, apesar de simbólicas. O tempo é o seu espaço, a cidade e o mar o seu lugar, o amor o seu principado, como esperança, em que esta é a sua casa. O fogo do amor e o mar dão identidade à sua obra. Desta classe de poesia, como um hino ao amor, raros são os poetas actuais, dos que o cantam, que se lhe aproximam. Evocativo e profético, capta-se dele e nele os ecos da voz – da sua voz – em busca do eterno feminino.
“Quero chegar e acordar / Num grito / O silêncio que trago / Dentro de mim” – é a expressão poética, mais alta, deste poeta de sensações evasivas.

Fernando A. Almeida Reis

© copyright 2012 Fernando A. Almeida Reis, ortónimo de Alvaro Giesta e de Miguel Faia, todos os direitos reservados para o Autor e Jornal Rostos. Não pode ser dado qualquer uso comercial ao texto, sem a devida permissão do autor.

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