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Quotidianos

Vagueando sobre o «Jogo de Janelas» de Francisco CeiaPor António Sousa Pereira

Um livro que dá a cada um dos leitores aquilo que ele quiser e conseguir sentir, porque pode, e deve ser continuado nessa relação do autor com o leitor.

São imagens de lugares, são textos e contextos, são leituras que ficam por trás da própria leitura, porque emergem das experiências próprias de cada leitor – é no nosso interior que reside a força deste jogo de janelas.

4 min de leitura
Vagueando sobre o «Jogo de Janelas» de Francisco Ceia Por António Sousa Pereira

Por Jornal Rostos

No princípio era o poema, a palavra feita de sentimentos, vividos e sentidos, ali, naquele lugar onde “a lua tímida, espreita nos cerros dos frios” e os “cães danados, dos rótulos e das gavetas”, são “incapazes de sentir o verbo dos poetas”.

O poeta que abre uma janela, canta e denuncia:

Come e cala, palhaço! E se não tiveres tacto,
Não tarda, vais pagar, uma taxa de olfacto,
E, se verificarmos que com ela embirras,
Aplicaremos outra, sempre que espirras

O poeta que, de janela aberta, faz sentir a vida e a natureza:

Da alfazema da hortelã, do trigo e do poejo,
Do prazer no instante que antecede o beijo!
O valor mais que perfeito, de um abraço leal,
E em Agosto, entrar pelas casas…o Natal!

O poeta “chegado a esta costa, perdido sem amarras” que encontra “de novo o canto das cigarras”, porque sabe que “do convés do coração”, brota um rio, ele, homem, que viu nos pés, o pó dos caminhos que andou, ele que desvendou “o segredo dos pontos cardeias” e sentiu as “marcas dos dentes dos cães”…
Chegou aqui, aterrou “na areia com medo de a pisar”, encheu o peito de ar, ergueu “junto ao peito o silêncio das flores”, e, por fim, descobriu que “o tempo absoluto é táctil e vivido agora!”

Abriu janelas, que são histórias, histórias vividas por dentro do nosso país, que são olhares sobre paisagens e lugares, que são mergulhos por dentro da linguagem do quotidiano, que são quadros da vida real.
Cada uma das XXI janelas do «Jogo de janelas» é um acto de uma peça de teatro, uma tela de ternura, uma fotografia, um registo de cores e dores, deste país que nós somos, desta Ibéria onde estamos geminados, desta Europa, que funde a nossa matriz cultural e deste momento – este tempo que todos vivemos, onde sofremos, sorrimos e sonhamos.
Francisco Ceia começa o seu livro com poesia, como quem quer retroceder às origens, aos cancioneiros das cantigas de amigo, de escárnio e mal dizer.
Uma primeira janela que procura espelhar uma realidade sócio cultural – do nosso cristianismo, ao nosso anticlericalismo; do fado do futebol, das elites intelectuais – que já Eça Queirós, retratava em «Os Maias.
A primeira janela introduz os alicerces de todas as histórias que se seguem, que nos transportam à Guerra Colonial, ao eterno confronto com nuestros hermanos, à presença de Portugal no mundo, e às vivências reais de amor e paixão pela natureza e um profundo conhecimento das relações humanas.

O livro de Francisco Ceia não é para ler de uma vez só, não é um romance, nem é uma telenovela, sendo tudo isso, não é nada disso – é um livro que desassossega, que nos obriga a pensar por dentro das palavras e sentir a força das palavras.

É um texto que cresce, em ritmo e suavidade, com originalidade, que demonstra um caminho pessoal e único na forma de escrever e sentir a memória e a história.
É um livro para “degustar”, para “saborear”, da poesia à prosa poética, onde cada palavra dá sentido ao todo.

Um livro que é sempre necessário voltar atrás, ler e reler, para sentir.
É um livro que pode ser musicado, teatralizado ou pintado.
Um livro que dá a cada um dos leitores aquilo que ele quiser e conseguir sentir, porque pode, e deve ser continuado nessa relação do autor com o leitor.

São imagens de lugares, são textos e contextos, são leituras que ficam por trás da própria leitura, porque emergem das experiências próprias de cada leitor – é no nosso interior que reside a força deste jogo de janelas.

Por isso, convido-os a ler, a pensar e sentir…o jogo de janelas, porque, ali, certamente, cada um de nós encontrará uma janela onde um dia…espreitou e sentiu a vida.

António Sousa Pereira

Foto - Marta Sousa Pereira

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