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Quotidianos

à janela do comboioPor Rosalina Carmona
Barreiro

a mãe silenciosa, a viagem aborrecida e longa. por fim, o barreiro e aquele cheiro e o nevoeiro que picava os olhos e fazia tosse.
à saída do barco, lá estava a tia chica, a dar pressa. senão não chegamos a horas da visita! recordava-se vagamente de passar por um jardim, onde queria apanhar flores, mas puxavam-na, sem tempo.

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à janela do comboio Por Rosalina Carmona Barreiro

Por Jornal Rostos

outra vez de comboio! os dois irmãos protestaram, revoltados, só ela é que andava de comboio! mas a mãe não podia deixá-la, era a mais nova. recordava-se ainda da última viagem, com a tia benta, quando o comboio passou junto à trincheira na rua do castelo, a mãe a acenar. agora não havia ninguém a fazer adeus. a mãe ia ali a seu lado, sentada, envolta no xaile preto. iam visitar o pai, que estava a trabalhar muito longe, responderam-lhe quando perguntou onde estava…
que saudades dos lírios do campo! que sempre lhe trazia na alcofa, à noite quando chegava a casa, tão belos!
estava à sua espera, há tantos dias, e ele que não chegava.
o comboio deslizava veloz, deixando um rasto de fumo que cobria tudo. ninguém para lhe explicar que terra era esta ,ou que estação era aquela. mas reconheceu a casa enflorada, quando ouviu o revisor anunciar: “casa branca”.
a mãe silenciosa, a viagem aborrecida e longa. por fim, o barreiro e aquele cheiro e o nevoeiro que picava os olhos e fazia tosse.
à saída do barco, lá estava a tia chica, a dar pressa. senão não chegamos a horas da visita! recordava-se vagamente de passar por um jardim, onde queria apanhar flores, mas puxavam-na, sem tempo.
vamos não queres ver o pai? quero.
chegaram a um portão alto e escuro, um guarda de cada lado. deteve-se assustada. não vou, tenho medo. e o choro, alto, soltou-se.
lá seguiram, a puxá-la por um corredor escuro e sem fim. quando se deu conta estavam junto do pai, mas não podia subir para o seu colo. com os braços, tentava afastar as grades para passar por entre os ferros, como lhe dissera um dos irmãos, quando fora ver o pai a serpa.
mas não conseguia.
já não se recorda como terminou o passeio, a caxias. apenas sabe que foi triste. no regresso, quando chegou ao pé dos irmãos contou-lhes que tinham passado ao tejo, ao ribatejo e ao alentejo.

rosalina carmona

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