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Quotidianos

Um cravo inesperado (conto)Por Jorge Fagundes
Barreiro

À noite, no velório, escassamente concorrido, Jacinto, lágrimas nos olhos, exclamou: “Coitado do meu Pai! Tão democrata que foi durante toda a vida, não resistiu à alegria de ver Portugal libertado!”
E, perante a surpresa geral, colocou nas mãos do cadáver um viçoso cravo vermelho.

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Um cravo inesperado (conto) Por Jorge Fagundes Barreiro

Por Jornal Rostos

No dia 25 de Abril de 1974, regressado a casa após o seu dia de trabalho, Asdrubal, encarregado numa pequena fábrica no Barreiro, durante o jantar e depois deste, vendo a televisão e ouvindo a rádio, sentiu-se perturbado e inquieto.
Muito emocionado, passou em revista os trinta anos que levava como fiel apoiante do chamado Estado Novo, bem como de zeloso legionário.
Morreu, serenamente, durante o sono.
Na manhã seguinte, Jacinto, único filho, sentiu-se na obrigação de tomar várias providências.
Assim, várias fotografias do falecido, fardado a preceito, e de Oliveira Salazar e de Américo Tomás, todas elas em lugar de destaque na sala principal, foram cuidadosamente reduzidas a cinzas no pequeno quintal situado nas traseiras da residência paterna. Igual destino foi dado, pouco depois, à velha, mas bem conservada, farda da legião portuguesa.
À noite, no velório, escassamente concorrido, Jacinto, lágrimas nos olhos, exclamou: “Coitado do meu Pai! Tão democrata que foi durante toda a vida, não resistiu à alegria de ver Portugal libertado!”
E, perante a surpresa geral, colocou nas mãos do cadáver um viçoso cravo vermelho.

Jorge Fagundes

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