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Quotidianos

A Lembrança de Edgar Allan PoePor Manuela Fonseca
Barreiro

Com as barbaridades já efectuadas e outras prometidas, o medo instilado e instalado, muitos portugueses cada vez mais desapossados e infelizes devido ao que lhes é sonegado, ambas sabem que a população está cada vez mais dependentes do acaso, numa região da União Europeia que, em vários contextos, parece recuar na História...

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A Lembrança de Edgar Allan Poe Por Manuela Fonseca Barreiro

Por Jornal Rostos

Clara comenta com Margarida, sua colega de décadas, a situação de um Governo (?) que, quatro décadas depois das esperanças de Abril, encerra parte do País com medidas que tornam os pobres mais pobres e as classes médias exauridas. Que, em cada dia, faz mais mal à população. Basta ler, ouvir e ver noticiários para se ficar estupefacto com o encerramento de tribunais, serviços e unidades hospitalares, centros de saúde. Basta observar-se o desmazelo com a segurança, o ensino.
Com as barbaridades já efectuadas e outras prometidas, o medo instilado e instalado, muitos portugueses cada vez mais desapossados e infelizes devido ao que lhes é sonegado, ambas sabem que a população está cada vez mais dependentes do acaso, numa região da União Europeia que, em vários contextos, parece recuar na História – apesar das mentiras oficiais e oficiosas dos que usurparam o poder num Portugal vergado ao peso de injustiças cometidas pelos que deviam dar exemplos de dedicação e atenção ao bem-estar dos que tinham a obrigação de servir.
Preparam-se para deixar o simpático café onde são sempre muito bem acolhidas:
– Senhor Quintas, quanto devemos, por favor?
Pagam o lanche e vão dar um pequeno passeio, compatível com alguma dificuldade que Clara tem em andar – ela tenta que não seja visível. Referem os desígnios de Abril, que consideram perenes, alguns programas de âmbito cultural que certos canais televisivos, felizmente, (man)têm.
Margarida pormenoriza a última Exposição que viu, em Lisboa, e admira-se com a beleza do Museu do Futebol Clube do Porto – às vezes vai à Invicta. Até há poucos anos, Clara acompanhava-a nesse percurso. Agora ouve a narrativa: Margarida passou, também, por Campanhã, a Foz (maravilha-se sempre com o Castelo do Queijo), as Fundações Engenheiro António de Almeida e de Serralves.
A nora de Clara passeia com a bebé, a menina dos olhos da família. Vão ao Parque ver os patos; há bocadinhos de pão que serão para eles, a pequenina e outras crianças que o pedirão. Margarida fica satisfeita por conhecer a criança que só tinha visto em fotografias e exclama para a amiga quando a jovem e a criança seguem o seu caminho:
– Abril também está nelas! Venham as eleições! Remediarão o que puderem!
O telemóvel de Clara toca. Atende. Avisam-na de que a sessão de tratamento que teria na próxima hora está adiado para a noite devido a uma avaria que impede o cumprimento do horário. Num lapso, Clara, entra em pânico e visualiza a parte exterior do sítio que, no hospital, recolhe pessoas falecidas, junto ao que a acolherá. A memória literária leva-a até Edgar Allan Poe e a um dos clássicos do ilustre escritor americano, “Os Crimes da Rua da Morgue”. Teme a noite e alguma surpresa desagradável e irreversível que o conto evoca e solicita, delicadamente, que a sessão seja apenas no dia seguinte…

Manuela Fonseca

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