A QUEIMA DO JUDASPor Armando Teixeira
Barreiro
- Porque batiam no Judas? Ele fez mal?!
- Foi um traidor e o povo não gosta de traidores!

Por Jornal Rostos
- Avô! O que era a queima do Judas?
O mais interessante daquelas tardes era as histórias que o avô contava quando estava bem-disposto, sentando o miúdo vivo e curioso no banquinho ao seu lado e falando calma e compassadamente.
- A queima do Judas era um festejo muito antigo, organizado pelos barcos da pesca da tartaranha, que já se fazia quando eu era miúdo, na altura da Páscoa.
- Quem era o Judas, avô?
- Era um companheiro de Jesus Cristo que o denunciou por sete dinheiros.
- E quem era Jesus Cristo?
- Bem!… Dizem que era um homem bom, que protegia os mais pobres e fracos e por isso os mais ricos e poderosos queriam matá-lo! Tal como fazem hoje!
- Hoje também há um Jesus Cristo?
- Há muitos e não há nenhum! Mas queres ouvir a história ou não queres?
- Tá bem, avô, conta!
Quatro, cinco, seis anos, a idade do petiz, num tempo em que a infinita paciência do avô conseguia despertar a infinita curiosidade do neto.
- O Judas vinha pendurado no mastro grande dos barcos da muleta, feito de palha enchendo umas roupas velhas cozidas com linha de pesca.
- Era um espantalho?
- Sim, pois!... No sábado de Páscoa, no dia de aleluia, a moçada aguardava na praia com varapaus e corria por estas ruas da vila velha, malhando no boneco, puxado por uma corda pelos pescadores.
- Porque batiam no Judas? Ele fez mal?!
- Foi um traidor e o povo não gosta de traidores!
O velhote continuava com entusiasmo redobrado:
- A pancada nos bonecos era porque não se podia dar em quem a merecia! Quase os desfazíamos, gritando e cantando: ”Judas traidor, porrada no estupor!”
- Tu também cantavas, avô?
- Claro, embora nunca fosse grande cantor! Gostava mais de assobiar!
- Assim avô?! Fiuu! Fiuu!...Não consigo! Ah! Ah! Ah!
- Fuii! Fuii!...Também não! Ah! Ah! Ah!
Riam divertidos o ancião e o petiz, numa comunhão memorável que ficaria gravada para o resto da vida.
- E depois avô?
- Quando acabava a volta pelas ruas, os restos dos bonecos eram espetados num pau na areia da praia, deitavam-lhes fogo para queimar o traidor e todos batiam palmas!
Um estremecimento percorreu o corpo do catraio, balançando hesitante nas pernas do avô onde acabara por se instalar. A imaginação de uma fogueira a queimar o Judas, despertou um medo recôndito, certamente guardado na herança humana de milénios, das chamas crepitantes e devoradoras que aterravam os antepassados e ficara gravado nos cromossomas. Uma lágrima rolou pela face do petiz.
- Mas as queimaduras … doem muito!
A emoção colocou um soluço na garganta juvenil, prestes a romper em choro, com as faces congestionadas e o beicinho contraído.
- Pois doem! É preciso ter cuidado com o fogo! Mas neste caso tratava-se de um boneco de palha e os bonecos não sentem nada.
- Tá bem, avô! E o Judas verdadeiro?
- Esse já morreu há muito tempo, embora outros tenham nascido entretanto! Agora não te esqueças que com o fogo não se brinca, porque quem brinca com o fogo…
- Faz xixi na cama! Ah! Ah! Ah!
A gargalhada comum assinalava o fim da história, um episódio da tradição pagã em tempo de religiosidades. A boa disposição e a sageza do homem velho conseguira dar a volta no momento certo, apaziguando o miúdo que ria satisfeito, numa unidade familiar e temporal que atravessava muitas décadas. Tecia-se a cumplicidade intergeracional e afectiva, em que a transmissão da experiência vivida e a aprendizagem da vida se fazia de forma sensível e imorredoira.
Armando Teixeira














