O gato ciumento (conto)Por Jorge Fagundes
Barreiro
Na muralha da Praia Norte há sempre ratinhos e, sendo um exímio caçador, fome não passou. Mas estava desgostoso, farto de dormir ao relento e com saudades da sua casinha.

Por Jornal Rostos
A D. Madalena, simpática velhinha a morar na zona da Senhora do Rosário, há anos que tem um gato, amarelo , com riscas castanhas e olhos esverdeados, de seu nome o Betinho.
É um gato especialista na apanha de ratos e habituado a comer de tudo o que sobra das refeições da dona, que isto de comidinhas enlatadas está fora das disponibilidades financeiras da D. Madalena, a viver de uma modesta pensão correspondente a muitos e muitos anos de trabalho numa já extinta alfaiataria local, onde foi uma verdadeira mestra na feitura de calças para homens.
O Betinho é um gato atrevidote, daqueles que nem esperam pelos luares de Janeiro pra fazer as suas conquistas e, por isso, tem filhotes espalhados por muitas das casas de vizinhas da dona.
Mas, além dos seus predicados, tem uma ternura especial pela D. Madalena, sempre pronto a dormitar na manta da cama dela ou, de preferência, a saltar para o seu colinho.
E, ao longo dos anos, ciente dos mimos que lhe são dispensados, nunca admitiu a presença de mais nenhum felino na casa que defende como se dele o seja.
Ora, há umas semanas atrás, uma cadelinha, pertença de uma vizinha da D. Madalena, teve uma linda ninhada de quatro cachorrinhos, dois machos e duas fêmeas.
“Vizinha, não quer ficar com um canito? Além do seu gato a fazer-lhe companhia, quando maior for dará um belo animal de guarda, o que, nestes tempos com tanta malandragem à solta, até será um bom motivo de sossego para si.”
E a D. Madalena logo se enamorou de um dos machos, preto como carvão e com a ponta da cauda branca como neve.
“Vizinha, muito obrigado! Como é tão escurinho vou-lhe por o nome de Chocolate!”
E uma ou duas semanas depois o Chocolate ficou a viver na casa da D. Madalena, a seguir os passos daquela com a cauda sempre a abanar.
Quem não gostou da nova aquisição foi o gato Betinho, desconfiando que os mimos de que desfrutava, em exclusivo, passariam a ser repartidos por ele e pelo Chocolate.
Sem que a dona desse por isso passou a fazer a vida negra ao cachorro, dando-lhe patadas nada meigas, escondendo-lhe o osso de brincar e entornando-lhe o prato da comida.
O que irritava a D. Madalena ao ver a comida espalhada pela casa e por isso ralhava com o Chocolate.
Só que um certo dia, quando regressava das compras no Mercado, apanhou o Betinho em flagrante delito, a dar patadas com aquelas unhas tão afiadas no Chocolate, que já sangrava.
Pela primeira vez na vida D. Madalena pegou num chinelo e o Betinho ficou com o lombo a arder e saiu esbaforido porta fora.
E durante vários dias desapareceu, e por mais que a D. Madalena o chamasse, não deu parte de fraco.
Na muralha da Praia Norte há sempre ratinhos e, sendo um exímio caçador, fome não passou. Mas estava desgostoso, farto de dormir ao relento e com saudades da sua casinha.
Como hábito mantido ao longo dos anos, a D. Madalena, na ausência do Betinho, armou o Presépio, com figuras muito antigas talvez dos tempos dos seus avós.
Como habitualmente, no passado Domingo foi à missa das onze na Igreja da Senhora do Rosário.
Ao voltar a casa teve uma enorme e agradável surpresa.
Nas palhinhas do Presépio estavam deitados, lado a lado, o Betinho e o Chocolate, como se amigos de longa data o fossem!
“Vizinha, vizinha, venha cá ver isto. Até parece um milagre!”
Milagre ou não, o certo é que o Betinho e o Chocolate passaram a andar sempre juntos, sem zaragatas e a repartir a comida no mesmo prato!!!
Jorge Fagundes














