HISTÓRIA DE NATAL E HOMENAGEMPor Armando de Sousa Teixeira
Barreiro

Por Jornal Rostos
HISTÓRIA DE NATAL E HOMENAGEM
- Então “Paizinho”, como vão esses ossos?
- “Tá-se” bem! Ontem fomos a Lisboa comprar roupa aos “Porfírios”! À maneira!...
- É assim mesmo, é Natal! O que compraste? – o “Professor” disfarçava com bonomia a frustração por não ter orçamento para tais aventuras.
- Acabei por não comprar nada, não tinham nada de jeito!...
- Estão a falar dos “Porfírios”? O “Cobiça” queria gamar uns peúgos e tirou um número de criança! Ah! Ah! Ah! – o “Fininho” fazia uma entrada triunfal logo à saída de casa, mesmo à esquina do Largo do Casal.
- Não foi nada disso, pá! Vai à merda! O “Pitchirilo” é que ao descer para a cave foi contra o espelho e pediu desculpa à própria imagem! Oh! Oh! Oh!
- “Tás” a gozar “barriga de toucinho”, mas também não compraste nada! – replicava agastado o jovem baixote.
- É tudo uma cambada de tesos! Ninguém tem cheta no bolso e vão “fazer figura” para Lisboa! – o “Caldeirada” também não tinha mas “gozava o prato”.
- “Atão”, é Natal! Fomos ver as luzes! – a candura do “Rodinhas” despertou uma gargalhada geral apaziguadora.
Afinal ninguém comprara nada, a indigência económica era generalizada, as famílias operárias tinham o orçamento esticado ao limite, insuficiente para as necessidades básicas quanto mais para “luxos”. Roupa haveria no Natal, mas não dos “Porfírios”, seria comprada a prestações ao senhor “Luís da Loja”.
*
- Bora jogar às cartas nos “Penicheiros”!?
- Bora, é de borla!
Assim acabavam as altercações que nunca passavam de “jogos florais”, mais ou menos intensos e vernáculos.
Vivência associativa todos tinham pela frequência das colectividades do bairro, alguns tinham mesmo experiência “directiva” nos pequenos clubes que se faziam e desfaziam em função das épocas e da vontade dos carolas.
Na pequena sala única, cedida pelo senhor “Artur das Mobílias”, que já funcionara como quarto-casa de gente humilde, os “corpos gerentes” sentavam-se em bancos corridos que ladeavam a tosca mesa de madeira.
O convite partira do António “Barbeiro” que era o presidente do Casalense e grande animador do pequeno clube de bairro, nascido do desejo gregário de fazer em conjunto o que dificilmente se conseguia isoladamente.
- Sabemos que és um rapaz interessado, gostávamos que viesses colaborar connosco! – dissera o António “Coxo”, o barbeiro do quarteirão, com uma simplicidade cativante num convite simpático, como poucos teria pela vida fora.
A agenda da reunião era modesta: quotizações, novos sócios, rifas. A discussão foi breve.
- Então não há iniciativas culturais e desportivas para animarem o bairro?!
A sugestão provocou o espanto dos circunstantes, como se tivessem acabado de assistir à descoberta da pólvora.
- A gente não tem dinheiro para essas coisas! – sentenciava o tesoureiro, ciente da importância da função. Fora ele que conseguira o espaço-sede junto do progenitor.
- Mas não é necessário muito dinheiro! Basta a imaginação para conceber e a vontade de realizar.
- Deixem lá o rapaz falar! Tem boas ideias!
O António sorria com um semblante de menino e a espontaneidade de um adolescente que há muito deixara de ser.
O Casalense preparou a sua destacada participação nos Jogos Juvenis do Barreiro, com dezenas de miúdos-praticantes em várias modalidades, dezenas de taças, medalhas e prémios nos Jogos Florais, menos lembrados. A zona do casco antigo animou-se durante alguns anos com os pequenos clubes como o Casalense.
P.S.: Adaptado do livro: “Juventude Desinquieta, o Despertar da Malta”, em publicação.
Homenagem na hora da despedida a António Marcelino da Costa, o António “Coxo”, barbeiro do bairro e ex-presidente do Casalense.
Barreiro, 24/12/2016
Armando de Sousa Teixeira














