Conto do derbyPor Rute Pio Lopes
. Foi inevitável recordar o meu pai!

Por Jornal Rostos
Conto do derby
A propósito da vitoria do SCP, ontem celebrada em merecida euforia por todos os adeptos, foi inevitável recordar o meu pai!
O Sr. Fernando seria também um homem muito feliz pela conquista do campeonato do seu clube do coração e eu não pude conter o aperto de saudade que a efeméride me provocou e pelas recordações de certos momentos que com ele vivi, no mundo do futebol.
Dentro do imenso baú das memórias relativas ao meu pai tenho um episódio que me provoca risadas.
Antes de continuar e situar-me na época própria preciso acrescentar os personagens que comigo viveram esta crónica. Então… além de nós dois, estava presente o meu irmão, igualmente sportinguista como o progenitor e o nosso vizinho e amigo de toda a vida, o Sr. Carlos Pires outro adepto de igual dimensão da do meu pai. Mas falta ainda um importantíssimo pormenor, é que eu sou benfiquista e a única “encarnada” daquele grupo.
Ora muito bem, recuemos a 1987, mais concretamente ao início do mês de junho e especificamente ao dia do jogo da final da taça de Portugal.
Há algum tempo que eu e o meu irmão tínhamos pedido ao nosso pai para nos levar a ver um jogo de futebol dos “grandes” e de preferência entre os clubes mais importantes e da nossa eleição, claro.
Creio que, com os resultados da meia final anunciados e, por conseguinte, apurados os finalistas, o meu pai não teve dúvidas em aceder ao nosso pedido e comprou bilhetes para a final a realizar-se no mítico estádio do Jamor, nesta operação surpresa foi apoiado pelo Sr. Carlos.
~
Foi uma alegria imensa naquela casa quando o meu pai nos contou que íamos ver a final da taça e ainda por cima colocaria frente a frente os clubes Sporting e o Benfica.
Ao início da tarde do dia 7 de junho, lá fomos os quatro à aventura a “bordo” da Renault 4L branquinha que o meu pai conduzia na altura.
Convém referir que eu bati o pé e não larguei por nada a bandeira grande e vistosa do “meu” Benfica! “Ahhh pois, vou, mas tenho que levar a minha bandeira!!” Bom… O meu pai não achou muita graça à ideia andar com um objeto do clube opositor, tentou e voltou a tentar demover-me, mas infrutiferamente…
Pois bem, chegados ao estádio, que aos olhos da jovem Rute estava maravilhoso, cheio de gente, um ambiente fantástico. Sentámo-nos do lado da bancada em que predominava a cor verde, como devem calcular… O meu pai sentou-me a seu lado e ao ouvido recomendou-me que não levantasse a bandeira de forma alguma. Com uma careta de temor assenti ao seu pedido. Mas interiormente estava absolutamente contrariada por estar no meio dos “lagartos”, ora que chatice, já me tinham estragado o divertimento, aliás tínhamos feito uma apostas brincalhonas durante a viagem em que eu insisti, sozinha contra os três que quem venceria só poderia ser o meu Benfica.
O emocionante jogo começou, e às tantas o Benfica marcou um golo… dei por mim com os braços no ar e a gritar, mas senti um braço ao lado do meu a puxa-los para baixo e de repente lembrei-me que tinha que ser moderada na reação…okok, tudo bem, pensei… o que importa é que estamos no comando…
Na segunda parte o SLB volta a marcar e são 2-0, o estádio explodiu de alegria e só se via uma mancha vermelha… e pronto… não consegui conter o regozijo e num impulso levantei-me do cimento da bancada com a minha bandeira orgulhosamente empunhada.
Mas o tempo que a levei a erguer foi quase o mesmo que tive para voltar ao lugar… pois, como devem calcular essa fração de segundo foi o suficiente para ouvir uns palavrões e um inesquecível “baixa essa merda”.
O meu pobre pai ia tendo uma síncope e com um forte puxão obrigou-me a sentar e esconder a bandeira. Acho que o seu rosto estava mais preocupado do que enfurecido pois não fosse a sua pronta intervenção acho que na certa tinha apanhado umas pancadas valentes e os ferimentos seriam verdes eheheh. “Estás maluca ou quê”, disse-me depois quando o jogo retomou a normalidade, “Eu sabia, eu sabia. Não devia ter autorizado essa bandeira, etc, etc”…
Bem sei que o Sr. Fernando tinha razão, muita mesmo, eu tive medo quando ouvi na fila de cima o ralhete e o meu pai ainda mais, acredito que sim! Mas eu esqueci por completo onde estava e o conselho do meu pai, nada mais importou ao ver que o golo confirmava a vitoria e foi tão instantânea como inocente a minha reação.
O Sporting ainda marcou o golo de honra e foi devidamente comemorado, pelos meus companheiros e toda a bancada evidentemente, eu eheheh dei por mim a fazer “uuuuuuuu” mas baixinho, entre o ruído provocado pelos gritos ao redor, para não arranjar mais celeuma
Este incidente foi depois comentado entre nós e famílias e ainda recordo o olhar bonacheirão e divertido do Sr. Carlos e do meu pai. E revivo este episódio com um sorriso no rosto, apesar de tudo…
Aos meus dois especiais amigos Fernando e Carlos que a vida madrasta precocemente me levou, um abracinho apertado. A vitoria de ontem, onde quer que ambos estejam, é-lhes muito querida com toda a certeza!
Rute Pio Lopes














