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Quotidianos

Um conto de NatalPor António Neves
Barreiro

Havia três dias que o Luís não ia à escola.
Já se tinha dado pela sua falta,
mas duas ou três ausências acabam por considerar-se normais em tempos de constipações, como são a época natalícia.

4 min de leitura
Um conto de Natal Por António Neves Barreiro

Por Jornal Rostos

Ao quarto dia, porém, a ausência do Luís começou a preocupar professores e colegas, alguns dos quais foram partilhando observações algo estranhas do comportamento do Luís nos últimos dias: que andava algo triste, que se esquivava às brincadeiras no recreio, que as roupas que vestia lhes pareciam pouco limpas, e que o notavam mal nutrido.
Estas observações eram um sinal de que algo não estaria bem e era preciso averiguar.
Após alguma reflexão sobre como proceder, ficou acordado que o chefe de turma mais dois colegas passariam, no fim das aulas, pela "casa" do Luís, no sentido de averiguarem o que estaria a acontecer na sua família.

Foi preciso insistir com várias batidas na porta da barraca do Luís e com várias repetições dos nomes dos colegas para que ele viesse abrir-lhes a porta entre choro e assustadoras tossidelas.
Atrás dele veio a mãe, arrastando-se, envolvida num pequeno cobertor.
Fez-se um longo silêncio, só interrompido por um súbito ataque de tosse de mãe e filho.
" O Luís não tem ido à escola porque não me quer deixar sózinha no estado em que eu tenho estado. Não tenho mais ninguém que olhe por mim, que me leve um copo de água à cama ou me vá pedir algo para comermos a uma vizinha, que há uma semana que mal consigo levantar-me da cama para fazer seja o que for."
Os três colegas do Luís nem sabiam o que dizer à pobre da sua mãe.
"Não fique preocupada com as faltas do Luís à escola. Nós vamos dizer à senhora professora o que estamos a ver, e vamos pensar em que mais poderemos ajudar" - disse o porta voz dos colegas do Luís.

E, voltando-se para ele, prometeram que falariam com a professora a ver o que poderia ser feito para fazer desaparecer aquelas tosses e poderem, também eles, ter Natal.
Despediram-se da pobre família e, antes de se separarem cada um para sua casa, foram refletindo sobre o que cada um podia fazer, de imediato, antes mesmo do que a escola viesse a decidir.

Um deles iria pedir a sua mãe que lhes preparasse uma refeição para o jantar desse dia.
Outro prometeu que pediria a sua irmã, enfermeira, que no dia seguinte fosse visitá-los, levando-lhes medicação e algo para comerem. O terceiro pediria aos pais que, por uns dias, mandassem a empregada doméstica prestar os mínimos cuidados a esta pobre família enquanto estivesse naquele débil estado de saúde.
A mãe do Luís era uma mãe solteira muito admirada pela vizinhança, que o que dela sabia era que prestava serviços domésticos para duas ou três famílias, mas conseguira sempre assegurar ao filho o mínimo de recursos para que não se sentisse marginalizado no meio escolar e social.

No dia seguinte toda a turma aguardava pelas notícias dos três colegas encarregados da visita ao Luís.
Um a um descreveram o triste quadro com que se tinham deparado e as primeiras medidas que tinham decidido tomar para fazer face aquela emergência.
Toda a classe louvou e aplaudiu o que acabava de ouvir.
A professora, não querendo perder o ambiente que estava criado para uma reflexão mais aprofundada sobre a grave situação desta família, perguntou à turma se achavam bem dedicar a manhã a uma reflexão exaustiva sobre a situação do Luís e de muitas outras famílias que vivem situações idênticas ou ainda piores.

Perante a concordância de toda a turma, e depois de informados das medidas que os três enviados tinham decidido tomar para os dias imediatos, procuraram garantir a continuação de assistência familiar até que o Luís e a sua mãe estivessem recuperados e pudessem retomar a vida normal.
A professora conseguiu que a escola assegurasse as refeições diárias para o Luís e para a mãe, e fizeram uma escala semanal para que três alunos por dia fossem visitá-los e levar-lhes as refeições.

Duas auxiliares da escola prontificaram-se igualmente a irem, em dias alternados, "dar um jeito à casa" daquela família.
Com estes procedimentos assegurados, um dos alunos sugeriu que, na festa de Natal que estavam a preparar, se criasse uma canção ou uma poesia dedicada à família do Luís e a todos os que contribuíram para que ela estivesse recuperada e a participar na festa de Natal.

A sugestão foi aceite com um caloroso e unânime aplauso.
Graças a este dar-de-mãos coletivo e solidário, o Luís e sua mãe, recuperados, puderam assistir à festa de Natal mais criativa e solidária que alguma vez se fizera naquela escola.

António Neves

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