O PASSEIO DO AVÔPor António Neves
Barreiro
- Já passa um quarto de hora, homem, mas não te esqueças que o Rui, hoje, só vem às três e meia.

Por Jornal Rostos
Era assim todos os dias, a esta hora. O Rui tinha escola de manhã, e depois do almoço, oferecera-se para ir com o avô até ao parque, onde se juntava com uma meia dúzia de idosos que ali marcavam presença diária.
Além do avô Alberto, mais dois ou três idosos faziam-se acompanhar dos netos. Mal os avós acertavam o jogo de cartas do dia e as respetivas equipas, os netos combinavam entre si como iam ocupar as duas ou três horas em que tinham de esperar pelos avós.
No fim da jogatana, os netos aproximavam-se e, antes do regresso a casa, iam até à esplanada do jardim e eram presenteados com um lanche à sua escolha.
Naquela tarde, o avô Alberto, ao pedir o lanche para si e para o Rui, segredou à empregada: “traga-me também um SG Ventil, se faz favor”.
- Avô, não prometeste à avó que não voltavas a comprar tabaco?
- Mas quem te disse que eu estou a comprar tabaco?
- Eu bem te ouvi a pedir um SG Ventil, avô. Isso não é justo, avô. Eu vou ter de contar à avó, se ela me perguntar o que fizemos.
- Tu não vais contar nada, Rui. Eu só vou fumar um cigarro.
- Isso é mentir, avô. São dois males: um para a saúde, e outro por mentir. Se compras tabaco eu não quero lanchar.
Entretanto chegou a menina com os croissants, os galões, e o maço de tabaco.
O Avô Alberto olhou para o pequeno Rui e para o SG Ventil e, embaraçado, gracejou com a empregada - Temos aqui um problema, menina: o meu neto diz que se eu compro tabaco ele recusa-se a lanchar. Veja lá se o convence a lanchar e a deixar-me fumar.
- Nem pense, menina – adiantou-se o miúdo – O meu avô prometeu à minha avó que nunca mais comprava tabaco. Está a enganá-la, e eu não posso colaborar em mentiras. Ou leva o tabaco para trás, ou leva o meu lanche.
A empregada admirou-se com a atitude do Rui, mas, vendo a tristeza do avô, que não tirava os olhos do maço de tabaco, voltou-se para o pequeno:
- Olha lá Rui. Eu acho que tu estás a comportar-te muito bem e a mostrar ao teu avô que devemos ser verdadeiros e cumprir o que prometemos. Mas olha para o teu avô: é-lhe difícil passar sem um cigarro, neste momento. Vamos combinar uma coisa: eu levo para trás o maço de tabaco, mas peço ao meu patrão que lhe ofereça um cigarro. Assim, o teu avô cumpre a promessa de não comprar tabaco, e tu ajuda-lo a desabituar-se de fumar sem um grande sofrimento e desgosto, estás de acordo?
- Estou – disse prontamente o neto, ao mesmo tempo que se encantava com o brilhar de olhos do avô, perante a solução proposta pela empregada.
Avô e neto sorviam o último gole do galão quando a empregada, juntamente com a conta, trazia, numa pequena bandeja, um cigarro que o Rui, com muito amor e compreensão, foi vendo o seu avô fumar, de consciência tranquila, porque não faltava à promessa de não comprar mais tabaco.
Pelo caminho, avô e neto, combinaram que, se a avó perguntasse como correu a tarde, o Rui podia contar-lhe a história da empregada da esplanada.
António Neves














