AlbufeiraPor Manuela Fonseca
BARREIRO

Por Jornal Rostos
A notícia da derrocada de parte de um rochedo, na Praia da Maria Luísa, deixou Portugal aturdido, num Agosto à porta de duas campanhas eleitorais para a população e os políticos cumprirem deveres cívicos, também espécie de alívio de consciências pelo que poderiam ter feito e ainda esperava por melhores dias.
Maria Miguel, certamente como todos a quem chegaram ecos e imagens de um dia tão infeliz para os veraneantes atingidos, emocionou-se até às lágrimas com a nefasta consequência deixada pela queda do arenito; e ela ali tão bem, umas horas depois, junto ao imponente Peneco, o que dava nome à mais conhecida das praias de Albufeira – para ela animizado, um velhote conhecido. Que mais nenhum rocha caísse.
A primeira chegada à hoje mundana cidade de Verão fora há dezenas de anos, terra que os pais e as duas primas, jovens adultas, acharam muito bonita, mal o autocarro – dito, então, camioneta de carreira –, proveniente da estação dos caminhos-de-ferro chegou, curvas vencidas, à baixa da vila piscatória, rodeada por cerros.
O pediatra, filho de um homem que deixara a região para trabalhar no Barreiro, na CP, conhecedor das regalias que o transporte ferroviário proporcionava aos que operavam nessa empresa, recomendara-lhes a ida para que a menina melhorasse de problemas ligeiros de saúde; a vila e a praia eram sossegadas, as águas e o sol fariam bem à miúda e todos descansariam; que fossem para lá.
Helionora Fernanda, a rapariga que, sentada numa esteira, à porta de casa, fora interpelada pela família com a parca bagagem, à procura de alojamento, arranjou-o bem perto, na Rua Nova, dois quartos com serventia de cozinha para albergar aquelas pessoas.
Morena, de feições delicadas, não chegara ainda aos vinte anos, mãos bonitas e cansadas, a actividade doméstica e a costura, noite adentro, na ajuda ao sustento de várias bocas que os poucos escudos que o pai, pescador, levava para casa, não davam para tudo. Simpatizou com aquelas pessoas e faria logo amizade com os pais de Maria Miguel. Ainda hoje as duas mulheres mantinham laços e recordavam como a vida só passara a ser menos sacrificada para a algarvia, para ambas, depois do 25 de Abril.
Enquanto a mãe arrumava as coisas, Maria Miguel fora com as primas à praia, a curta distância do alojamento, o acesso por um túnel, escavado na rocha, que atravessou aos saltos e em corrida curta, movimento que repetiria, alegremente, ao longo dos anos.
Lembrava-se, no regresso a casa, das rudimentares instalações sanitárias, no terraço, partilhadas com duas senhoras de Vila Viçosa que também descansavam ali – não voltaria a encontrá-las –, bem como a cozinha, no rés-do-chão. As coisas correram bem entre todos.
Alguns dias depois seria retratada em duas das melhores fotografias que lhe fizeram; o senhor Quintela, artista de Lisboa, tirara-as junto à escada do lado poente: magra, os cabelos ainda aloirados, um vestidinho azul enfeitado a grega branca – as madrinhas, habilidosas, tinham visto o modelo numa loja na moda em Lisboa –, uma bola de praia, pertença do artista, entre as mãos.
O estabelecimento comercial dava jeito porque era perto da estação fluvial do Terreiro do Paço: de vez em quando metiam-se no vapor e iam do Barreiro à capital; olhavam, deliciadas e intrigadas com as palavras que não entendiam, para o Arco da Rua Augusta; observavam o comércio que a vila de gente remediada não podia ter.
Antónia e Beatriz lanchavam numa das leitarias e admiravam-se por ver lá senhoras elegantes, de chapéu, algo de impensável para elas, provenientes do meio operário. O tempo passou, mudaram de situação social e de hábitos mas tiveram sempre presente a difícil caminhada para uma vida de conforto.
Maria Miguel visualizava as primas, já com idade considerável, às quais se juntara, no Natal, a segunda geração preocupada com a situação económica a atingi-la, já crescidos os netos mas ainda longe do problema.
Distraída, nem dera pela aproximação de Inês, amiga íntima e tia adoptiva dos filhos:
– Nem me vias, Vou ao quiosque buscar gelados para nós e trago-te outro. E também um para o João Miguel?
– Não; o João Miguel anda nas voltas dele. E a seguir vai à Galeria de Arte; está lá um técnico atencioso que entra em diálogo com ele e o ajuda a observar as obras expostas.
Inês regressou logo, os refrescos para os três.
– Obrigada. Olha, pensava em Albufeira e no azar das pobres pessoas.
Inês acrescentou:
– Coitadas, e nós que passámos tantas vezes por essas rochas, felizmente bem.
As duas e Guilherme recordaram os passeios, em grupo, costa fora, até aos Olhos de Água, no fim dos anos sessenta; Maria Miguel e o casal tinham-se conhecido num deles, elas terminavam a adolescência e Guilherme Neves, um pouco mais velho, iniciava a carreira profissional como oficial da Marinha Mercante e escrevia poesia, anos depois reconhecida e premiada.
Os papéis tinham-se trocado e Maria Miguel acompanhava a madrinha há mais de dez anos – os pais iam até ao Baixo Alentejo, convidados pelos primos. Depois do casamento e do nascimento da filha, a iniciativa de uma casa alugada na vila, em Agosto, era de Augusta e a afilhada colaborava nas tarefas referentes aos miúdos (também chegaria um rapazinho à nova família). Nunca queriam deixar a água e, após o lanche, brincavam, como ela já o fizera, no Jardim da Meia-Laranja. Antes da sesta e do sono da noite contava-lhes histórias. Que, um dia, seriam parte da sua vida profissional.
– Inês, ainda te lembras como os pequenos-almoços eram bem cedo para a Augusta poder comprar comida, não abundante na altura? Até o pão era difícil de obter.
E chegara António Cabrita, conterrâneo de Guilherme Neves (eram oriundos de uma pequena terra, não muito longe dali, e tinham, curiosamente, estreitado laços em Lisboa, um pouco perdidos no início da formação superior): estavam a conversar quando as duas raparigas apareceram. Cabrita passaria uns dias ali.
Cabrita levou o discurso político para aqueles momentos de lazer. E, sob os toldos, nos dias em que se mantinham junto dos mais velhos, os ecos da Primavera de Praga e do Maio de 68, estes sussurrados, chegavam às discretas conversas. Augusta receava aquelas abordagens, não fosse alguém mal-intencionado prejudicá-los com alguma denúncia.
A empatia entre os dois fora quase imediata – no mar onde ela disfarçava o sorriso com a atrapalhação de António a nadar, no banco de pedra, quase no fim do Passeio dos Tristes, Maria Miguel a ler Filosofia e António às voltas com a Mecânica que lhe dificultava a chegada ao fim da licenciatura.
Passeios por aquelas praias, uns passos de dança, o fim das férias; os pais dele que não queriam conhecê-la – alguém lhes dissera que tinha poucos bens materiais – os entes chegados da rapariga quase incrédulos com a nova situação.
O namoro e a família dela por perto; António via uma vila de que só conhecia os fumos, incomodativos, quando ali passava de comboio; homem de aldeia de ares lavados, mal conseguia respirar. Admirava os que viviam no Barreiro; chegara a hora de conhecê-los melhor. Conviveu com a luta dos cidadãos contra a opressão, o associativismo e o desporto (duas manifestações de cultura que lhe eram caras) na comunidade que formava a namorada.
Até vira, entusiasmado, um jogo entre o Barreirense, espécie de tio da rapariga, e o Atlético, clube seu vizinho em Lisboa, em cujo estádio tinha entrada gratuita. Preferia o râguebi, que praticava, mas ficara a simpatizar com o mais querido clube da vila ribeirinha.
A descoberta da intimidade só chegou bem depois, vivida no apartamento dele, em Alcântara, ou em abrigos que inventavam entre as praias dos Pescadoras e da Falésia sempre que voltavam a Albufeira.
Maria Miguel seguiu Letras, meta que o pai lhe traçara desde a infância, e dedicou-se ao estudo literário com afinco; o linguístico era-lhe menos agradável. Tinha pouca disponibilidade para a vida académica porque conseguira uma colocação em Lisboa. A recente licenciatura de António proporcionara-lhe uma actividade bem remunerada e o casal decidiu-se por fazer vida em comum.
A formalização da união foi civil e íntima, apadrinhada por Inês e Guilherme, o filho de ambos com as alianças. Aconteceu num sábado de Setembro, na Gruta das Merendas do Passeio dos Tristes, cujas escadas a rapariga gostava de descer para nadar a partir dali; nunca pudera participar nos Jogos Juvenis do Barreiro e fantasiava, nessas braçadas, uma competição. António dizia, divertido: “ – Se dançasses como nadas!...”
Os progenitores do rapaz – que Maria Miguel só visitara duas vezes – pouco motivados para a união, o pai da jovem já rendido à evidência da paixão que levara a sua menina ao casamento, quatro anos depois de ter conhecido António; a mãe, como era costume, faladora e risonha. A Esplanada do Túnel acolheu o almoço dos seus velhos conhecidos e o pequeno grupo de familiares e amigos.
E chegou Abril, o desejado Abril por que muitos tinham pugnado: a Democracia sabida numa madrugada, a Democracia que devolvia a dignidade a várias Pátrias, a Democracia saudada por Maria Miguel, António, Inês e Guilherme nas ruas de Lisboa no meio da multidão, a tensão e a alegria no Largo do Carmo, em todo o lado.
No Barreiro – iria à sua terra e lembraria, em silêncio, que o pai, outros familiares e tantas pessoas já não tinham podido experimentar a Liberdade –, a manifestação no dia 26, com marcha espontânea até ao Concelho da Moita, daria a Maria Miguel dois irmãos de celebração: António Sousa Pereira e Cabós Gonçalves.
Era Portugal, em solidariedade e numa onda de festa, num dos momentos épicos da Nação. Os bons acontecimentos sucediam-se: a comovente libertação dos presos políticos, a prisão de pides e bufos, as caras assustadas desses cobardes que tanto mal tinham feito, o saudado regresso de resistentes à ditadura, a beleza do Primeiro de Maio livre, os estrangeiros que rumavam a Portugal e que participavam numa ocorrência única.
Foram as manifestações a qualquer hora, a dos SUV talvez a mais vibrante, as pinturas murais, os cânticos nas ruas, gente abraçada, gente reencontrada depois da clandestinidade, lágrimas que uniam gerações, colagem de cartazes em noites longas e inesquecíveis, o miúdo Neves muitas vezes às cavalitas do pai, o sono ao colo de Inês, o trabalho desta, como secretária, penoso depois de noites quase em branco.
A gravidez de Maria Miguel, sabida, em euforia, um dia depois do cerco ao Parlamento, no efémero Governo de Pinheiro de Azevedo, os víveres levados aos operários em greve, os plenários nas fábricas e nas escolas, coloridos pelas ideologias, nem sempre pacíficos, os partidos políticos, o movimento sindical à luz do dia, as escolas sem as fotografias de Salazar e Tomás, as primeiras eleições livres.
– O que resta desses momentos, Inês?
– Só a nossa juventude não, Maria Miguel; quanto aos sonhos, realizámos inúmeros, os filhos continuam o 25 e os netos vão prosseguir aqueles tempos mágicos.
A bebé, de nome Liberdade, em homenagem à nova situação e à filha do corajoso resistente Artílio Batista, foi a nova satisfação de António e Maria Miguel que, pela criança, deixou a actividade remunerada. Foram ajudados pelos avós paternos, encantados com a pequena.
Maria Miguel ensinou à filha Lisboa e a beleza das suas gentes, sítios e luminosidade.
Inês acompanhava-as muitas vezes com Sérgio, o mais novo Neves, a quem Carlos Antunes chamava afilhado devido à escolha do seu antigo pseudónimo político para nome do miúdo. Vários passeios terminaram no Estádio de Alvalade que ele queria ver a toda a hora, o caminho até lá com incontáveis traquinices.
Concluída a licenciatura da mulher quando a filha tinha três anos, António Cabrita foi com a família para a região de Faro; Maria Miguel concorreu, com êxito, a um lugar como professora do Ensino Secundário e António encetou uma etapa profissional através de um projecto inovador na área agrícola.
Os Neves ficariam na capital. Guilherme em longas viagens ou absorvido na criação poética nem sempre matava saudades dos amigos e da região natal com a frequência de Inês e o filho.
Liberdade aprendeu a nadar em Albufeira, a conhecer a História da outrora romana Baltum e depois árabe Al-Buhera. Já adulta, seria no Museu Municipal de Arqueologia o encontro com os saberes que lhe transmitiram a Pré-História. (1)
Na vila e na praia reteve a musicalidade da Língua Inglesa, articulada em pronúncias diversas. Descodificou rochedos até à Praia dos Alemães e chorou em cada despedida da terra que animizara.
Chegariam as dissidências que levaram ao fim da relação conjugal. Pouco depois do divórcio, Maria Miguel regressou ao Barreiro, cidade recente que a acolhia e a Liberdade, – o nome da filha podia ser o da própria terra.
No ressentimento mútuo, ambos tentaram que a menina não sofresse um grande abalo e forçaram a cordialidade quando António visitava a filha ou a levava para as férias. Se Maria Miguel ia buscá-la, era bem acolhida pelos avós paternos de Liberdade.
O tempo passou, os membros do antigo casal refizeram vidas afectivas e constituíram novas famílias; a mulher fez um casamento com cerimónia confessional, de carácter cristão – Zé e Bia Antunes, colegas e amigos, os padrinhos –, e foi mãe de novo; Cabrita não voltaria a ter filhos. Liberdade, quando jovem adulta, foi trabalhar com o pai, colega de profissão, e ambos continuaram a desenvolver o frutuoso e apreciado labor que António iniciara.
Quando a vida deixava o primeiro marido, Maria Miguel ainda tivera tempo de lhe dizer, pela última vez, a importância da delicadeza dele e dos seus pais no crescimento da filha comum.
Liberdade continuara no Algarve, lá casara e fora mãe, e, dias antes, João Miguel tinha ido visitar a irmã com a indispensável companhia da mãe. A agrónoma sensibilizava-se com esse jovem que não podia acompanhar de perto, rapaz especial nos afectos, especial nas atitudes, especial na vida, respeitado, nas suas diferenças, desde pequeno, talvez pela luta tenaz que os progenitores e ele tinham desenvolvido em prol do direito pleno à cidadania. Subiria com ele e os filhos no Elevador do Peneco logo que pudesse.
– Disseste à Liberdade que o Desidério vos acolheu na Câmara?
– Sim. Ela acrescentou que é uma pessoa simpática, de fino trato.
Desidério Jorge Silva, há anos à frente da Câmara Municipal de Albufeira, recebera-os no meio de vários compromissos. Maria Miguel referira o gosto que o rapaz teria em contactar com a personalidade que acompanhava à distância, o computador como guia. Ouvida por elementos do Gabinete de Apoio ao Presidente, afáveis, não demorou muito para que mãe o filho fossem recebidos.
– Gosto muito de Albufeira. Há um ano fiquei ao pé de si, lá em baixo, quando choveu muito e foi dirigir o pessoal por causa daquilo, ai, da inundação.
E com simplicidade natural:
– Tinha dois Presidentes se trabalhasse umas vezes em Albufeira e outras no Barreiro. Aqui também há autocarros para levar o expediente.
– Que amigo tenho no Barreiro! Fico sensibilizado consigo.
Maria Miguel interveio:
– A fotografia de Sir Cliff Richard, em rapaz, com os amigos no barco, ali fora, leva-ma à adolescência; vejo o cantor, ídolo na altura, no correio, com Teresa Paula Brito, a pedir um selo e a falar a nossa Língua. Divulgou Albufeira, continua a prestigiá-la e bem mereceu a homenagem e a condecoração da cidade. Não sou apreciadora de vinho mas vou levar umas garrafas do que ele faz na Guia (2); também provarei um gole; é um dos bons sabores de Albufeira.
Para João Miguel:
– Vamos, filho, o Senhor Desidério tem muito que fazer.
E de novo para o autarca:
– Nem sei como se consegue gerir Albufeira, no Verão, com tanta e tanta gente. Sou do tempo em que era uma pessoa na praia e mais além outra. Até parecia que ninguém se magoava, que ninguém precisava de cuidados médicos, que nada acontecia. Meus Deus, que trabalho têm hoje aqui! Só zelar pela segurança do Concelho é obra, sinceramente!
Desidério Jorge Silva ofereceu ao rapaz, à despedida, um saco com um conjunto de lembranças do Município.
– Vou escolher uma coisa para o meu Presidente do Barreiro; é o Carlos Humberto, conhece? Digo-lhe que me fez esta oferta. Obrigado, obrigado. É porreiro. Antes dele foi o Emídio Xavier. Bom também.
O autarca acompanhou à porta os dois inesperados visitantes, o rapaz bem feliz.
– Inês, Abril também se cumpre neste filho.
Referências
(1) Albufeira: História e Monumentos, Albufeira, Câmara Municipal, p.5, [200-?].
(2) Albufeira: Gastronomia, Albufeira, Câmara Municipal, [p.11], [200?].
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos














