O Natal e o BarreirensePor Manuela Fonseca
BARREIRO

Por Jornal Rostos
O Barreirense, o Futebol Clube Barreirense, agremiação desportiva que ainda não chegara aos quarenta anos quando nasceu; a mais querida da vila operária e, para ela, o Clube – a maior parte da família era adepta da colectividade: havia percursos interessantes, públicos, no seu seio, registados no feminino e no masculino – e tinha vários associados. Aprendeu as grandes emoções, bem como o desportivismo, no Manuel de Melo, os jogos vistos, vividos e aprendidos como os mais belos desde pequena. O comboio proporcionava-lhe desafios fora do Barreiro, se não muito longe (que duelos com o Vitória na capital do Distrito!) que a disponibilidade financeira era escassa.
Quando chegava o tio Abílio, radicado em Angola, espécie de parente pródigo, podia acompanhar confrontos mais longe, como, por exemplo em Évora ou nas Caldas da Rainha, o carro dele cheio, cheio de pessoas e risos. Por onde andavam, também, os principais símbolos desportivos dessas cidades?
Com o Ginásio-Sede e as classes de Ginástica que proporcionou, aprendeu a disciplina, o espírito solidário, de sofrimento e recompensa pelo trabalho que a modalidade gerava, aliás como as outras. Sobretudo quando a sua classe, a infantil, dirigida com elegância e mestria pelo Professor Costa, desenvolvia actividades no Manuel de Melo, o piso, ainda de terra batida, a causar, por vezes, mazelas, que a fortaleciam, joelhos e mãos esfolados, um pouco de embaraço se em exibição. Também esse vencido pela entrega à nobre actividade.
E a beleza dos exercícios, a coordenação motora que nunca fora o seu forte, ajudada e desenvolvida pela insistência do mestre e o trabalho em equipa. Como se fora um ser alado, no início de uma abordagem à Estética que a moldaria para sempre.
As enormes alegrias que o futebol e o basquetebol lhe tinham dado, os atletas recebidos em alegria indescritível quando chegavam ao Barreiro, eufóricos e vencedores! A mesma que vira na inauguração do Ginásio-Sede, lágrimas de orgulho pelo crescimento do Clube. E pelo prémio sentido pelos que, por ele, se tinham privado de horas de lazer, as poucas que as profissões, por vezes fisicamente duras, lhes permitiam.
A construção que envolvera uma vasta comunidade local, ajudada por membros de outras, no entendimento do que representava para a Vila Operária um edifício que era um monumento ao clubismo e ao trabalho.
O tempo passou, fez-se adulta, teve filhos, ambos na primeira metade da década de oitenta, com eles, novos consócios, criou sonhos e desejos, sem saber muito bem porquê, tal a exacerbação do profissionalismo no futebol e no basquetebol, incompatível com a disponibilidade financeira do Clube. (Não são os sonhos e desejos dos grandes alimentos da Vida?)
Com os dois rapazes – que, pequenos, lhe fugiam no Manuel de Melo e iam sentar-se no mais alto degrau da bancada, a aflição de mãe minorada pelos que os resgatavam, sorridentes, os dois marotos e a caminho da banheira mal os jogos acabassem – viu ainda a ascensão à Liga de Honra, um inesquecível jogo com o simpático Louletano, no Estádio do Algarve, a anunciá-la. Talvez das últimas boas emoções. Acompanhadas pelo marido, não adepto do Barreirense mas que nele se filiaria na aventura de novos horizontes. Depressa desfeitos, a queda a pique até à 1.ª Divisão Distrital, a parte central da cidade embelezada e, paradoxo, um horrível deserto onde fora o Manuel de Melo, substituído por nada. Numa situação insustentável, uma Comissão Administrativa de gente dedicada e competente a fazer os impossíveis pela sobrevivência do Clube.
O 100.º aniversário quase a chegar (ainda haveria Barreirense em 11 de Abril de 2011?) e uma infinita tristeza pelo difícil empate conseguido em Grândola, em 20 de Dezembro de 2009. O Menino Jesus já trouxera o oitavo ano ao jornal para que escrevia o conto. Que trouxesse (sim, queria continuar a acreditar Nele) menos desigualdades e sofrimento ao Mundo, mais prosperidade ao País, quase à deriva como o Barreirense.
Que o caminho da agremiação não fosse um triste fim como o da Livraria Buchholz e de tantas organizações. E que o Menino trouxesse um recinto decente para a prática do futebol sénior. Para o Clube voltar à esperança (sim, essa, a que não podia findar, como quase referia o mais célebre poema dedicado ao Barreirense) e, pelo menos, à 2.ª Divisão.
Fechou, com pudor, a porta do escritório. E, o computador apenas por testemunha, beijou o emblema, religiosamente guardado, o da camisa desportiva do fato usado no primeiro sarau de ginástica, cinco décadas passadas. E ficou à espera do Deus Menino.
Manuela Fonseca *
* (Membro associado n.º 675 do Futebol Clube Barreirense)
Colunista do Jornal Rostos














