Saltar para o conteúdo
Quotidianos

A Mulher, o Balde e a EsfregonaPor Manuela Fonseca
BARREIRO

– É verdade; a gente quase nem acredita mas eles vivem à nossa conta como se tivessem poços de petróleo nas quintinhas para aí escondidas!

– As classes médias já não podem gerar empregos, a pobreza aumenta e vai dar à miséria. Já agora, a propósito de quintas: quem manda na maior só aborda, a correr, para não ver bem e não se incomodar, os problemas sociais, tão graves, que estão em todo o lado.

4 min de leitura
A Mulher, o Balde e a Esfregona Por Manuela Fonseca BARREIRO

Por Jornal Rostos

Encontraram-se na porta de saída do prédio onde habitavam.
Uma mulher, ainda jovem, na mão um balde com uma esfregona, dirigiu-se-lhes e perguntou, a Língua Portuguesa articulada com pronúncia brasileira, se conheciam determinada empresa que seria perto dali. Por indicação delas, agradecida, atravessou a estrada para, numa instituição em frente, obter, decerto, melhor informação.

Viram-na, acto contínuo, ar menos hesitante, caminhar, rua fora, de novo no passeio de ambas. Roupa modesta, lá seguia. E observava, cuidadosamente, as portas até parar à frente de uma, a cerca de cem metros. Entrou, pouco depois.

Vinha de longe, na busca de trabalho, essa mulher. Como muitos portugueses de outros tempos. E destes. Como muitos brasileiros, como muitos europeus, como muitos africanos, como muitos asiáticos, como muitos, muitos de vários lados de um Mundo cada vez mais feroz, século vinte e um que deveria indicar outros caminhos. Desapossadas, as pessoas, as famílias, contadas até aos milhões, dos direitos elementares de actividades remuneradas com dignidade. Dos direitos elementares de cidadania.

À frente da pobreza, há muito globalizada, e a rir-se dela, a opulência, serva de uma minoria sem escrúpulos, fruto da trituração de gentes, empresas, bem-estar e futuro.

– Coitada da rapariga! Deve estar um dia aqui e outro mais além para levar uns euros minúsculos para casa. Olhe, Dr.ª Glória, que confusão! Não percebo nada de política mas isto está cada vez pior. Bem gostávamos de aumentar a nossa empregada, lá na loja. A moça merece a nossa simpatia mas levam-nos tudo nos impostos e sem quase nenhuma regalia em troca. Pouco vendemos e não fazemos mais por ela porque não podemos.

– Não será, na minha interpretação, uma situação de simpatia mas de justiça e os senhores não podem oferecer mais à vossa colaboradora. E também estão a ser lesados e a ver os proventos a diminuir em cada mês. Olhe, D. Alice, para haver uns piratas, desculpe a palavra, que ganham milhares por dia…

– É verdade; a gente quase nem acredita mas eles vivem à nossa conta como se tivessem poços de petróleo nas quintinhas para aí escondidas!

– As classes médias já não podem gerar empregos, a pobreza aumenta e vai dar à miséria. Já agora, a propósito de quintas: quem manda na maior só aborda, a correr, para não ver bem e não se incomodar, os problemas sociais, tão graves, que estão em todo o lado.

– Vou ajudar o meu marido a desfazer uns embrulhos. Nossa Senhora! Qualquer dia já não podemos encomendar nada. Até logo.

Glória foi tomar a única bica do dia (cumpria tudo o que a médica lhe indicava e agradecia-lhe, mentalmente, estar melhor e poder sentar-se a saborear o café. Como gostava de fazê-lo com os seus!). Era dia com condições atmosféricas para poder dar uma voltinha até à zona do rio.
Pagou, saiu e nem via um colega bem querido.

– Menina, cada vez mais bonita e, como sempre, distraída. Pensavas?...

(As pessoas eram simpáticas para ela; assim se mostravam solidárias com o grave problema que a atingira. Chamavam-lhe corajosa mas nem sempre conseguia arranjar resistência àquela parte menos feliz de si própria.)

– Que ias dar-me esse piropo…

– O teu rosto preocupado não era por causa do galanteio, pois não?

– António, que é feito dos nossos sonhos e desígnios de Universidade, de início da profissão tão escolhida e amada, do 25 de Abril?

Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção