Perdidos no InteriorPor Manuela Fonseca
BARREIRO
Emocionada, relatou ao conceituado médico, especialista na área da enfermidade da parente, o que se passava. Talvez já fosse tarde mas solicitou-lhe que a visse. Sem quase ter horas para comer ou dormir, votado, exemplarmente, com a equipa que coordenava, aos doentes a que se dedicara para lhes combater e levá-los a combater o mal que os fustigava, inventou tempo para observá-la, bem como o receituário e os exames complementares.

Por Jornal Rostos
(Ao Dr. Jorge Espírito Santo)
Um pequeno negócio (que ainda não dominavam completamente) a sustentá-los – fruto de uma indemnização por anos numa empresa, longe das raízes onde se sentiam bem, com algum significado financeiro porque um gestor que mantivera o vínculo afectivo e político com as pessoas da terra natal tratara do assunto e exigira, junto dos representantes do patronato, o que a lei determinava –, um filho no fim da adolescência, a difícil vida da maioria da população, acrescida, no caso deles, da acessibilidade, complicada, a cuidados de saúde, por razões de distância, física e cultural.
A mulher sentira-se mal, meses antes, e nada dissera. A angústia era dupla: porque começava a aperceber-se da gravidade da situação em que se encontrava, porque sabia que o ganha-pão da família passava por todos: o marido estava no estabelecimento a tempo inteiro, ela ia para lá sempre que as actividades domésticas o permitiam, o rapaz fazia-o fora das horas de escola e estudo, aplicado que era, no sonho, talvez já ultrapassado pela realidade, de chegar a um curso superior que lhe permitisse deixar a pequena vila e encontrar novo modo de vida.
Quando Maria resolveu verbalizar a situação ao companheiro (ainda mais parco em palavras do que ela), dois meses depois de o ter feito apenas a uma amiga – que lhe dera umas tisanas que não tinham produzido qualquer efeito benévolo – e, finalmente, arranjou coragem para a consulta médica, a situação complicava-se.
Tratamentos, regressos a casa. Tratamentos, internamentos hospitalares, regressos a casa. Meses assim, cada vez mais penosos. O homem não tinha descanso, entre o apoio à mulher e o pequeno negócio. Não queria acreditar no que estava à vista de todos. “Vai indo”era a expressão que arranjara quando lhe perguntavam por ela.
Miguel já não ia ter com o progenitor. Compreendia, com tristeza e aflição, que a mãe estava a deixá-los. Ficava sentado ao lado da cama dela sempre que podia e, também reservado, explicara, sucintamente, aos professores o que tanto o apoquentava e a razão de nem sempre levar as lições estudadas e os deveres feitos.
Os vizinhos só viam Maria quando a ambulância ia buscá-la e levá-la; João pedia que não fossem vê-la, que, assim, ela repousava melhor. E andava numa dobadoira: dava-lhe a comida, o banho, vestia-a, confortava-a, arranjava a casa enquanto uma pessoa ou outra ficava a tomar conta da loja.
Todos percebiam o que se passava e, em pequenos grupos, comentavam o problema. Até que Tonico da Elisa, firme, resolveu intervir:
– João, a minha patroa passa a fazer companhia à Bia e a dar uma ajuda ao que fizer falta; quando estás aqui e o moço na escola, ela fica sozinha e a gente não quer isso. E tu não podes dar conta do recado; quando a Ana puder, vai. E a Zulmira, a comadre Francisca e as outras também. E a gente dá-te aqui uma mão; estás muito cansado e não podes deixar isto sem ninguém por causa da ladroagem à solta.
Foram semanas assim. Prestáveis, revezavam-se: os homens recebiam a mercadoria, vendiam-na, faziam a contabilidade do estabelecimento; as mulheres tratavam de Maria, da casa, de Miguel. Uma delas instou João a fazer o que a prima de Lisboa pretendia.
Ele concordou e, em lágrimas, telefonou à irmã de criação que vivia, há vinte anos, desde que casara, perto da capital. Depois de ter insistido, há largas semanas, na importância da observação para se ouvir uma segunda opinião clínica, Conceição, sem eco, tinha deixado de fazê-lo.
Emocionada, relatou ao conceituado médico, especialista na área da enfermidade da parente, o que se passava. Talvez já fosse tarde mas solicitou-lhe que a visse. Sem quase ter horas para comer ou dormir, votado, exemplarmente, com a equipa que coordenava, aos doentes a que se dedicara para lhes combater e levá-los a combater o mal que os fustigava, inventou tempo para observá-la, bem como o receituário e os exames complementares.
Fez tudo o que lhe foi possível, ciente da impossibilidade de êxito: perdida na interioridade de um Portugal ludibriado por uma minoria de aves de rapina que subverteram os direitos que Abril e a sua Constituição de esperança legaram ao País, Maria deixaria a vida pouco dias depois das sábias palavras e acções daquela autoridade médica.
Manuela Fonseca *
* Colunista do jornal Rostos














