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Quotidianos

A FINALISTAPor Florbela Viegas
BARREIRO

Já não controlava as lágrimas. A muito custo conseguiu abrir a porta, precipitando-se em direcção ao quarto, na ânsia de se ver livre daquele vestido e daquela substância viscosa que lhe escorria pelas pernas. Queria livrar-se do nojo e da tristeza. Queria morrer.
Trancou a porta da rua e arrancou o vestido, atirando-o para um canto, como se fosse lixo.

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A FINALISTA Por Florbela Viegas BARREIRO

Por Jornal Rostos

Aquela semana de Maio foi longa e divertida mas, naquele ano, tudo iria ser diferente. O grande dia chegou, finalmente. Era finalista. Como nos anos anteriores, o baile terminara ao romper do dia.
Abriu a porta da rua e tropeçou no tapete. Cambaleando, entrou no elevador. Olhou para os números do painel, tentando recordar-se em que andar morava. A cabeça rodava, os ouvidos zumbiam. Enquanto fixava os números, tentando lembrar-se, via-os desfocados, a bailar, misturando-se em tons de azul, amarelo, vermelho e verde, como um arco-íris.
A pequena bolsa tombou-lhe das mãos, fazendo-a dobrar-se, desajeitadamente, para apanhá-la. Ao reerguer-se, teve a sensação de que tudo à sua volta rodopiava. A cabeça pesava e, mais uma vez, encostou-se à parede do elevador, tentando equilibrar-se.
Abriu e fechou os olhos, repetidas vezes. Subitamente, olhou à sua volta, perplexa, sem entender o porquê de estar ali, sozinha, àquela hora da madrugada.
Sentindo-se agoniada, procurou um sítio onde sentar-se. De repente, reparou que havia um espelho. Reflectia a imagem de uma jovem vestida de cetim claro, que tentava desesperadamente equilibrar-se nuns saltos pontiagudos. O cabelo dourado, comprido, outrora penteado com esmero e elegância, pendia agora em madeixas desgrenhadas, dando-lhe um ar tresloucado e decadente. Os olhos inchados, sombreados de um negro esborratado, destacavam-lhe a palidez do rosto.
O vestido trazido de Paris, pelo Pai, para a ocasião, estava manchado. Reparou que algo vermelho, vinho tinto talvez, maculava a saia longa.
Não se recorda de ter bebido vinho. Ou será que bebeu?
Já não tinha a certeza de nada. Nunca bebera tanto na vida. Admirou-se por ter conseguido dar o endereço ao taxista que a levou a casa.
Uma tontura mais forte fê-la encostar-se, de novo, à parede. Sentiu uma pontada de dor nas nádegas. Com um esgar, tocou no sítio dolorido, constatando que algo de errado se tinha passado. Não tinha roupa interior.
Fechou os olhos. Assaltada pela angústia, procurou concentrar-se. Tinha a certeza de ter vestido roupa interior.
A cena veio-lhe à memória, em turbilhões confusos: a mesa repleta de bebidas, a competição de “shots”, o grupo de colegas e de amigos de sempre, com quem festejou o final do curso. Recorda-se de uma casa de banho e de umas mãos rudes que a apalpavam, comprimindo-a contra uma parede gelada, arregaçando-lhe as saias com urgência. Não se lembrava de conhecer aquele rapaz, nem os outros que apareceram.
Finalmente começava a tomar consciência das suas dores. Sentiu uma revolta no estômago e vomitou no chão do elevador, tossindo e engasgando-se.
Sentindo-se mais lúcida, pôde finalmente distinguir os números no painel. “Sexto”, lembrou-se. Carregou no botão, evitando o olhar daquela jovem embriagada que a fixava chorosa e amarfanhada, do espelho.
Sexto andar. A porta abriu-se e tropeçou, de novo, ao sair. Desesperada, tirou os sapatos e seguiu descalça pelo corredor, tentando descobrir a chave de casa, na pequena bolsa.
Já não controlava as lágrimas. A muito custo conseguiu abrir a porta, precipitando-se em direcção ao quarto, na ânsia de se ver livre daquele vestido e daquela substância viscosa que lhe escorria pelas pernas. Queria livrar-se do nojo e da tristeza. Queria morrer.
Trancou a porta da rua e arrancou o vestido, atirando-o para um canto, como se fosse lixo.
Correu para o chuveiro. Reparou naquele bilhete colado ao espelho. Aproximando-se, leu:- “Princesa, estou muito orgulhoso de ti. Deste-me uma grande alegria. Sempre soube que serias capaz de grandes concretizações. Foste uma estudante exemplar e agora tudo vai depender de ti, da tua vontade e do teu esforço. São as nossas opções que determinam o nosso futuro. Lembra-te sempre disto: serão as tuas escolhas que determinarão tudo aquilo que quiseres fazer da tua vida. Parabéns, minha querida. Tenho a certeza que te divertiste imenso e que a tua festa foi óptima. Beijos do teu Pai que te adora”.
Olha, de novo, para aquela imagem que o espelho reflecte. Tem os olhos rasos de água e um mar de escuridão dentro deles.
Sufocando um grito de dor, ajoelhou-se, sob a água quente, soluçando, arrasada.

Florbela Viegas

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