MARIA DA LUZPor Florbela Viegas
BARREIRO

Por Jornal Rostos
Maria da Luz era uma criança igual a tantas outras. Fruto de uma relação feliz, bem cedo ficaria marcada pela tragédia. A perda do pai, devido a um brutal acidente de viação, determinou o começo de uma vida dura, que a jovem mãe, desempregada, com os seus sonhos e ambições destroçados, teve de prosseguir.
Foram duros os primeiros tempos, após a desgraça. Não havia Seguros, nem outra fonte de rendimento de que pudessem dispôr. A mãe, para sobreviverem, recorreu à ajuda da Segurança Social que, a par daquilo que ia ganhando com pequenos trabalhos de costura e de limpezas, lhes dava para pagar a renda da casa e a parca alimentação.
Maria da Luz assistia, assim, à luta diária de sua mãe que, sendo muito jovem, teve de lutar arduamente, para poderem pagar as contas e levar a vida com dignidade.
Mas a jovem mãe via-se sozinha, com uma filha para criar. O seu maior desejo era poder dar a Maria da Luz e a si própria, a estabilidade emocional e a tranquilidade que o destino cruel se encarregou de lhes retirar. Começou, então, a pensar em constituir uma nova família, casar com um homem bom, que as amparasse e ajudasse.
Maria da Luz, agora com sete anos, também via com bons olhos a ideia de ter uma nova vida e a possibilidade de ter um novo pai.
Quis o destino que a mãe casasse, de novo, com um indivíduo muito mais velho que ela, mas abastado.
A criança começou a ver no padrasto o seu próprio pai. Tratava-a bem, comprava-lhe os melhores brinquedos e as melhores roupas, oferecia-lhe guloseimas. Um dia, começou a acariciá-la de um modo estranho.
Na sua natural inocência, Maria da Luz não percebeu. Até que ele chegou a vias de facto.
Foram anos de terror, com o medo de ser descoberta. Anos de uma vergonha que não deveria ser sua.
Menina e formosa, com pele de veludo e olhar celeste, trazia sempre os cabelos soltos ao vento. Com o seu rosto de maçã, cheio de sorrisos, e um corpo de menina pura, mas com chagas de amargura, bem cedo perdeu o respeito pelo seu próprio corpo que se tornou num instrumento de prazer pérfido, nas mãos rudes e aleivosas, daquele velho tarado.
Tinha treze anos, quando a mãe se suicidou de desgosto, ao descobrir aquilo em que não queria acreditar.
Maria da Luz meteu-se nas drogas. Primeiro as ligeiras, depois as pesadas. Com elas tinha aquela sensação de felicidade que nunca teve. Sentia que o Mundo girava em torno de si e que era a protagonista de uma bela história de amor. A sua mente voava por entre luzes de mil cores e o seu corpo pairava no espaço. Sem saber, Maria da Luz estava a caminho do precipício.
Fugiu de casa do padrasto e começou a vender o corpo que já não era seu. A necessidade de alimentar o vício, a isso a obrigava.
Começou a ser vista em bares de alterne, daqueles que vivem a noite até à exaustão. Alguém colocou uns anos a mais, no seu bilhete de identidade de menina e Maria da Luz lá foi misturando o corpo, com champanhe barato, em troca de dinheiro fácil.
A Primavera tinha chegado e as flores começavam a colorir os jardins da cidade. Maria da Luz tinha apenas dezassete anos, quando fez a sua última viagem.
Foi encontrada com os olhos azuis, virados para o céu, contemplando o infinito. Tinha nos lábios gelados, um sorriso e, nas mãos, uma seringa.
Florbela Viegas














