SALOMÉPor Florbela Viegas
BARREIRO
Como Salomé precisava de praia, para curar os seus males, mas não tinha possibilidades financeiras, ficou combinado que, a expensas do seu amado, iria a banhos juntamente com as crianças pobres do concelho.

Por Jornal Rostos
Recuando no tempo, à longínqua década de 70, parece-me estar a vê-la, formosa e segura, descendo a rua principal daquela pequena e hospitaleira aldeia transmontana.
Com o seu passo ondulante, embrulhada num xaile negro, traçado, que a envolvia numa aura de mistério por desvendar, parecia emanar raios de luar.
Tinha um rosto perfeito e um corpo bem modelado de mulher jovem, de olhos expressivos e cabelo longo, bem tratado, que lhe conferia uma sensualidade e um porte elegante, muito pouco usual para quem trabalhava no campo.
Era a Salomé, como todos a tratavam na altura. Apenas Salomé, nada mais.
É estranho, isto acontecer numa aldeia. Ainda hoje, a mulher é referenciada em função do estatuto social que ocupa nos lugarejos. Sendo solteira, seja jovem ou idosa, terá sempre a especial deferência dos seus vizinhos que a tratam por “menina”, mesmo que tenha cem anos. Se for casada, será sempre a “senhora” ou a “ti” qualquer coisa, tratamento que funciona como demonstração de carinho e de respeito.
As mulheres e os homens, sem estatuto social, têm, também, direito a um epíteto, quase sempre com origem nas suas características físicas ou psicológicas. Foi assim que ouvi falar do “bisconde”, da “landainas”, da “ruça”, da “morena”, do “caganeta” e de muitos outros cujos hipocorísticos não lembra ao diabo.
Acontece que esta mulher não era “menina” nem “senhora” e tão pouco tinha alcunha. Era tratada apenas pelo nome próprio: “ Salomé”.
Mas quem seria, afinal, Salomé? E por que motivo os habitantes da povoação a chamavam apenas pelo nome próprio, num misto de rejeição e de respeito?
Que segredos esconderia aquela beldade?
A Salomé nasceu numa aldeia da Terra Fria Transmontana, no seio de uma família muito humilde, entre cercanias de xisto e de granito e, muito cedo, por necessidade, começou a servir nas casas dos lavradores mais abastados.
Fazia um pouco de tudo. Ora sachava milho, ora arrancava batatas, ou apanhava azeitona e fazia limpezas e cozinhava para os patrões. Como era muito bonita, depressa começou a ser cortejada por todos os moços da aldeia. Apaixonou-se perdidamente por um deles, que lhe viria a fazer dois filhos. Mas quis o destino que este rapaz que lhe coubera em sorte, não correspondesse e preenchesse os anseios desta rapariga sonhadora. E num tempo em que todas as mulheres que parissem, tinham de casar, Salomé preferiu manter-se solteira e sozinha com os dois rebentos a seu cargo. Um escândalo para a época. Mas ela era forte e nunca se importou com aquilo que as pessoas pudessem pensar de si .
Com o tempo, o esforço dispendido no amanho da terra, violento para o seu corpo delicado, fez com que começasse a sofrer da coluna e dos ossos.
Um dia, sentindo-se morrer, foi ao hospital da Vila, a uma consulta com um médico que gozava de grande reputação, por ser muito generoso com os mais carenciados.
Quando Salomé o viu pela primeira vez, deu-se o inesperado. Foi amor à primeira vista. O amor é assim mesmo, um sentimento indomável que a razão não explica. Estava dado o primeiro passo para uma intensa paixão proibida e, logo ali, começou uma relação que só a terra há-de comer e o tempo fará esquecer.
Como Salomé precisava de praia, para curar os seus males, mas não tinha possibilidades financeiras, ficou combinado que, a expensas do seu amado, iria a banhos juntamente com as crianças pobres do concelho.
A partir daquele momento, na aldeia e nas terras em redor, Salomé passou a ser a ponte entre a pobreza e a possibilidade de um maior aconchego de todos os necessitados, junto do bondoso médico apelidado de “pai dos pobres”.
Um dia era o jovem filho do coveiro que precisava de ir trabalhar para um hotel da cidade e não tinha o “Cartão de Sanidade”, essencial para exercer a profissão. No dia seguinte, era a menina que precisava de cuidados médicos mas os pais não tinham dinheiro. Outro dia seria a velha “landainas” que, embriagada, caiu num poço da aldeia, necessitando de internamento hospitalar.
Salomé intercedia por todos eles, junto do médico que, para além de satisfazer todo os seus pedidos, consultava gratuitamente e ainda oferecia os medicamentos.
A casa de Salomé, naquela época, era o porto de abrigo dos necessitados. Um dia, uma mulher do lugar foi bater-lhe à porta, muito preocupada. A filha, ainda adolescente, andava a engordar muito. Para além disso, tinha dado em vomitar. “Será que a Salomé não poderia falar com o Senhor Doutor, a ver se este lhe receitaria alguma coisa para o enjoo?”.
Claro que a mulher de boa-vontade, mesmo sem ser médica, diagnosticou imediatamente a “doença”. E lá foram as três para o hospital, ter com o “Senhor Doutor” que lhe receitou um casamento urgente, para surpresa da pobre mãe que jurava a pés juntos, que a sua menina era virgem e nunca tinha tido nada com ninguém.
O Senhor Doutor nunca dizia que não a ninguém. Era um humanista, com uma grande sensibilidade que se traduzia no seu altruísmo desinteressado.
Salomé sempre o tratou por “Senhor Doutor”. Ele pedira-lhe, em determinada altura, que jamais o tratasse por tu.
Um dia, estava Salomé na sua aldeia, quando recebeu uma visita inesperada. Era alguém enviado pela legítima esposa do velho médico, com uma mensagem. O Senhor Doutor agonizava num leito do hospital. Quereria ela, ir despedir-se dele, nos derradeiros instantes da sua vida?
Salomé não foi.
Naquele gesto sublime daquela mulher atraiçoada, Salomé entendeu a imensa generosidade de um acto impossível de compreender.
Foi uma grande lição que recebeu com sofrimento e que nunca mais esqueceu.
Mas a sua consciência não a acusa de nada.
Porque é o amor quem escolhe por nós e nos apanha desprevenidos.
Florbela Viegas














