O Pai e os FilhosPor Manuela Fonseca
Barreiro

Por Jornal Rostos
O Pai e os Filhos
(Aos bons progenitores)
Lê, na revista portuguesa preferida, um texto de um dos escritores que mais aprecia enquanto escuta a TSF, companhia diária desde que teve que se aposentar por uma inesperada e incomodativa razão.
Atende o telemóvel.
– O pai está aí? Preciso mesmo dele.
Marta vê um bom início de tarde para um passeio a pé. Através da janela que mostra, entre segunda e sexta-feira, tantos e tantos cidadãos à procura de trabalho. Considera que Manuel da Fonseca ainda cá estivesse faria, certamente, nestes dias conturbados, “O Coro dos Desempregados”, em nome dos mais necessitados.
Sente ansiedade no tom de voz do rapaz.
– Estás no trabalho, filho?
– O chefe deixou-me sair para dar um salto ao hospital.
Fica inquieta:
– Passa-se alguma coisa?
Fragilizada, incomoda-se com frequência, sobretudo se algo não corre bem com os “miúdos”.
– Ainda não me passou a dor e, se calhar, tenho que ser visto por um médico. E gostava que o pai me acompanhasse.
– O pai e os manos… O petisco, filho…
António é pouco dado a convívios do género e só tem, anualmente, aquele. Em 2009 pôde ir com os seus três rapazes.
João Miguel, atarefado, até se esquecera disso.
Comenta:
– Pois é… Foram para o almoço.
Ah, como a gente se divertiu no outro! Quando será que o teu artista alinha com a gente?
(O pequeno, dez anos ladinos, ficou com a mãe, nora bem apreciada por Marta, entregue, com entusiasmo, à preparação de um exercício dramático comemorativo do Centenário da República. Terá herdado do avô paterno a aptidão teatral?)
– Se eu conseguir contactá-lo, o pai vai lá comigo, não vai?
Custa a Marta que o companheiro não possa estar sossegado entre os velhos conhecidos, naturais do Lavradio e em convívio numa escola da vila que os viu nascer. Levam os herdeiros, às vezes vindos de longe, em comunhão, divertida, com as recordações dos antecessores.
– E então a clínica de urgência?
– Não dá; posso precisar de algum exame complementar.
João Miguel, os desportos radicais e as lesões. Marta nunca mais consegue dissuadi-lo dessas práticas perigosas que o deliciam. Fica sempre com o coração nas mãos quando o filho pega nos patins.
– Estás tão aflito que não possas deixar passar umas horas, amor?
– Mãe, tu vais quase sempre com ele ao hospital e agora perguntas-me se posso esperar?
Desculpa a conversa!
Marta recupera, lentamente, de um grave problema de saúde.
– Quase nem me lembro disso, acreditas? É bom sinal para mim e para todos nós.
Sabes uma coisa? Ainda havemos de ir à China.
Há um ano o rapaz dissera que estava tentado a experimentar um caminho profissional nesse país asiático, caso a mãe o acompanhasse nos primeiros tempos de mudança de Continente e culturas. António e Marta tinham olhado um para o outro e a mulher comentara:
– As mães são perenes nas representações dos filhos. Às vezes, vinte anos depois de já não ter a minha, ainda me parece quo vamos ambas lanchar. E a tua continua sempre no meu coração e no sofá a comentar as notícias e os jogos do Sporting. Até adivinhava os golos de livre!
E para João Miguel:
– Olha, a China não faz o meu estilo; ditadura para a maioria e oportunidades para alguns incomodam-me.
No momento, antevê mudanças, sempre desejadas:
– Se a China se democratizar, ainda poderá ser um destino. És muito jovem e a tua especialidade está em franco desenvolvimento. Já andaste por tanto lado, seria mais um.
Ainda vou fazer-te uma visita…
O rapaz está impaciente e corta o fio discursivo da mãe:
– Conheço-a bem, senhora… Está a desviar a conversa para eu me esquecer do pai?
Um adolescente pontapeia um recipiente do lixo. Marta relembra, num momento, maldades do seu tempo de rapariga.
– Estás a ouvir-me?
– Sim; fiz um compasso de espera porque há um puto a lutar com um recipiente de plástico e voltei às maldades a caminho do liceu e mesmo lá, principalmente no Carnaval…
– Mãe, chamas o pai ou o Eduardo e pedes a um deles que me dê uma mãozinha?
– Quando encerras o assunto desportos radicais?
Até já; vou tentar falar com um deles.
Revê-se, na idade do filho mais novo, sem temer nenhum perigo.
Como o tempo passa e as pessoas mudam! Como ela se transformou!
Liga a Eduardo que atende:
– Oiço mal.
Há algum azar?
– O João Miguel vai à Urgência e gostava que um de vocês pudesse acompanhá-lo.
(O homem olha para o pátio da escola onde fez o Ciclo Preparatório, agora frequentada pelo filho; para o ano irá já com eles?)
– Marta, e eu que pensava que o recorde tinha sido batido há meses quando, quase ao mesmo tempo, o João Miguel e eu aleijámos o pé em jogos diferentes e fizemos tratamentos em locais diferentes, o pai de um lado para o outro. Afinal…
– Ainda tem que o superar!
Riem-se.
– A gente arranja-se; não te rales muito.
Até logo.
Despedem-se.
Fica tranquila depois da conversa com o enteado, excelente cidadão e bom amigo. Respira fundo, calça os sapatos de ténis; prepara-se para uma caminhada até à marginal.
E para ela própria, como se estivesse a falar com o marido:
– António, nunca mais te “reformas”? É bom sinal.
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos














