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Quotidianos

Caminhos da MemóriaPor Florbela Viegas
Barreiro

Muitas daquelas frases funcionavam como “berros” daqueles que não podiam sequer falar. Actualmente essas frases já desapareceram ou escondem-se na tinta velha de pavilhões em ruínas, de fábricas encerradas e de grafittis de cores berrantes e com formas mais apelativas.

E na sepultura dos livros, cresce agora uma palmeira.

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Caminhos da Memória Por Florbela Viegas Barreiro

Por Jornal Rostos

O passado pode ser, não apenas uma sombra da qual nos vamos afastando, mas também um fantasma cujas marcas dificilmente se diluem no tempo.
Do tempo em que a PIDE levava pessoas, pela calada da noite, e em que se lutava por causas e não por coisas, ficaram muitas histórias por contar.
Histórias com princípio, meio e fim. Histórias de vidas que o tempo se encarregou de apagar, mas que ficaram gravadas, para sempre, nas recordações de quem se lembra de todos aqueles caminhos velhos e lugares comuns, que um dia permaneceram nas relações de cumplicidade, que se estabelecem entre a amizade, o silêncio e a memória colectiva de um povo.

As histórias podem começar por “era uma vez...” e podem ser contadas tanto na primeira pessoa, como na pessoa de um outro qualquer. Será indiferente, porque esta história é, afinal, igual a tantas outras, e os lugares também.

Tudo começou naquela fria madrugada de Dezembro, quando lhes bateram à porta. O Avô tinha-se deitado tarde e não imaginava o motivo por que alguém se daria ao trabalho de o incomodar, àquela hora, logo no momento em que começava a adormecer.

Ela, pequenita e assustada, levantou-se e assomou à janela de um outro quarto que dava para a frente da casa. O Avô estava a falar com dois homens gigantes, mal encarados, vestidos de gabardinas escuras, com um chapéu que lhes escondia as feições. Não percebeu o que diziam, mas ouviu o tom de voz irritado do Avô, a falar muito alto, ao mesmo tempo que fechava a porta com grande estrondo, dizendo que tinha havido engano e que os dois homens, afinal, procuravam um vizinho da casa ao lado.

Estranhou e ficou apreensiva com a sua atitude, porque era um homem muito calmo e educado, que nunca elevava o tom de voz.

Regressou ao quarto e deparou-se com uma das janelas entreaberta e um saco de livros espalhados pelo chão. Dezenas de livros, quase todos forrados com papel de jornal e a cheirar a môfo.

Chamou pelo Avô que, entretanto, se tinha colocado atrás dos cortinados, com as luzes apagadas, a observar o vizinho do lado, que já estava acompanhado pelos dois homens sinistros, a entrar para um carro que arrancou a alta velocidade.

Naquela altura, a pequenita não percebeu o motivo por que o velho Senhor correu a enterrar aqueles livros todos, que não lhes pertenciam, dentro de uma caixa de papelão, no enorme buraco que ele próprio cavou, no quintal da casa, àquela hora tardia da fria madrugada de Dezembro.

O Avô dissera-lhe, sempre, que o Mundo é dos homens e das mulheres de letras, e que, por isso, todos os dias a incentivava a ler e a estimar os livros.

Os livros morreram, pensou ela. Morreram e foram enterrados no quintal. Pobres livros!

- “Avô, os livros também morrem como nós?”, perguntou.

- “ Os livros nunca morrem”, respondeu-lhe o Avô. “Há livros que são considerados, por alguns, a perdição da Humanidade e quem os ler fica automaticamente condenado por aqueles cujo nome não podemos pronunciar, porque podemos morrer também. Foram enterrados, mas não estão mortos. São como sementes. Estão vivos dentro de mim, de ti, de todos aqueles que são livres e podem florir a qualquer momento. É uma morte inventada. Percebeste? Foi o vizinho que os atirou pela janela do teu quarto, para que pudessem sobreviver à maldade dos Homens. Por isso falei tão alto e bati com a porta, para ele se aperceber que vinham buscá-lo.”.

- “E porquê, Avô?”,” Por que vieram buscá-lo?”.
- “Um dia vais compreender. Vai para a cama, que está muito frio. Hoje não, mas um dia o Avô vai explicar-te”.

E os meses foram passando sem que o vizinho desse sinais de vida ou se soubesse do seu paradeiro.

Num daqueles dias em que nada se passa, o vizinho surgiu do nada. Estava mais magro e o seu ar macilento deixava adivinhar que havia passado por maus bocados, naqueles cinco meses de prisão.

A pequenita fotografou-o e atravessou a rua, correndo a abraçá-lo. Ele trazia dúzias de panfletos escondidos dentro do casaco. Eram escritos revolucionários, dizeres inflamados e exemplares do “Militante”, todos muito bem camuflados.

Depois do abraço, os panfletos que ele trazia, cairam ao chão. Baixou-se rapidamente para apanhá-los, mas um dos papeis voou para junto dos pés de um homem que o apanhou do chão. Leu-o, levantou a cabeça e rasgou o papel. O vizinho ainda tentou correr, mas o homem agarrou-o pelos braços.

Era um agente disfarçado. Nada mais poderia ser feito. Graças à pequenita, o vizinho passaria os quinze anos seguintes no Tarrafal.

Além do retrato que dorme desbotado naquele velho sótão, daquele dia, ela ainda traz na memória o que restou do panfleto rasgado pelo PIDE.

Muitas daquelas frases funcionavam como “berros” daqueles que não podiam sequer falar. Actualmente essas frases já desapareceram ou escondem-se na tinta velha de pavilhões em ruínas, de fábricas encerradas e de grafittis de cores berrantes e com formas mais apelativas.

E na sepultura dos livros, cresce agora uma palmeira.

Florbela Viegas

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