O julgamentoPor Jorge Fagundes
Barreiro
Arguido: É verdade, sim, Meritissima. Mas não tinha outra opção.
Juíza: Não tinha?
Arguido: Não, Meritissima. A menina Bela estava na varanda do primeiro andar a regar os malmequeres. Se não levantasse os olhos, como a poderia ver?

Por Jornal Rostos
No longínquo reino da Alburricalândia, encravado entre os montes Himalaias, realizou-se o julgamento de um cidadão acusado de vários crimes de lesa-nobreza.
A única estação de televisão aí existente, bem como o, também único jornal, deram um grande relevo ao assunto, o qual, por vias que se desconhecem, chegou até ao ocidente.
Eis o relato do que se passou.
Oficial de Justiça: Levantem-se todos. Vai entrar na sala a Meritissima Juíza.
Juíza (sentando-se, depois de olhar para todos os cantos da sala, cheia de gente): Podem sentar-se. Levante-se o arguido. Como se chama?
Arguido: Ferdinando Alves Açorda.
Juíza: como se chamam os seus pais? Idade? Estado Civil? Profissão? Morada? E não se esqueça, tem de responder com verdade.
Arguido: Clarimundo Açorda e Hermengarda Alves. Tenho 32 anos, sou solteiro e empregado de armazém. Moro na Rua Torta, nº. 15, rés-do-chão.
Juíza: Consta na acusação que ousou levantar os olhos para a menina Bela de Menezes e Ataíde, menor de 17 anos de idade. É verdade?
Arguido: É verdade, sim, Meritissima. Mas não tinha outra opção.
Juíza: Não tinha?
Arguido: Não, Meritissima. A menina Bela estava na varanda do primeiro andar a regar os malmequeres. Se não levantasse os olhos, como a poderia ver?
Juíza: Adiante, adiante. É verdade que nos Santos Populares, subornando uma empregadita, mandou à menina Bela um vaso de manjericos?
Arguido: É verdade, Meritissima. Mas não subornei a empregadita, ela é que me exigiu um sorvete, dos grandes, e um pacote de bolachas de baunilha.
Juíza: É verdade que, pela mesma empregadita, lhe enviou algumas quadras feitas por si?
Arguido: É verdade, Meritissima. E, sem me gabar, até sairam bem. E ela gostou!
Juíza: Responda apenas às perguntas. Nada de comentários. É verdade que também lhe mandou poemas e contos da sua autoria?
Arguido: É verdade, sim, Meritissima. E, sem querer faltar-lhe ao respeito, ela também gostou. Até guardou tudo numa pastinha com um coração na capa!
Juíza: Não volto a lembrar-lhe que só deve responder às perguntas. Ao cometer todos estes crimes, alguma vez reparou na diferença de idades? Quinze anos!!!!
Arguido; Reparei, sim, Meritissima. Mas sempre ouvi dizer que o amor não escolhe idades.
Juíza: Com essa idade, acha isso? Ou é tonto ou ingénuo. Consultando os autos vê-se que o saldo da sua conta bancária é pequeno. E os bens imóveis pouco valem. Como se atreveu a importunar uma jóvem, ilustre e prendada, da nossa nobreza? Uma Menezes e Ataíde!
Arguido: Atrevi-me, atrevi-me. Quando, pela primeira vez os nossos olhares se cruzaram na Avenida das Cerejeiras em Flor foi, desculpe Vossa Excelência, tiro e queda. Morena, esbelta, olhos castanhos tão lindos! E saiba Vosa Excelência que ela também comigo se impressionou. Mandou a tal empregadita perguntar-me o nome e coisas assim.
Juíza: É uma menor sem experiência de vida. Cá por mim devia usar óculos graduados. As suas testemunhas são abonatórias?
Arguido: São, sim, Meritissima.
Juíza: Senhor Oficial de Justiça, mande entrar a primeira testemunha de acusação.
Advogado (do queixoso e Assistente, D. Segismundo de Ataide, pai da menor): Meritissima, uma vez que o Arguido confessou todos os crimes, dispenso as testemunhas.
Juíza: Senhor Oficial de Justiça, mande entrar as testemunhas de defesa, em conjunto, já que são abonatórias.
Entram as testemunhas( dois sargentos do exército e um vereador da Câmara).
Juíza: As senhoras testemunhas conhecem o Arguido? É pessoa de bem e de boas famílias, mesmo modestas?
Uma testemunha, sargento do exército: Em meu nome pessoal e das restantes testemunhas, a resposta é sim.
Juíza: Muito obrigado. Podem retirar-se. O Tribunal, depois de um pequeno intervalo de meia hora, regressa à sala para leitura da sentença.
Passada a meia hora, e depois do cerimonial respectivo, a Juíza senta-se e diz: Levante-se o Arguido. O Tribunal, dando por provadas todas as acusaçãos, resolveu condená-lo a dois anos de prisão. Mas, por não ter antecedentes criminais, ter confessado de livre e expontânea vontade os crimes, mas embora sem deles mostrar arrependimento, resolveu suspender o cumprimento da pena por dois anos. Mas, na condição de nunca mais importunar a menina Bela de Menezes e Ataíde, de não passar pela rua onde ela mora, nem da menina se aproximar a menos de quinhentos metros de distância. Está encerrada a audiência.
À saída, Ferdinando Açorda é abraçado pelas suas testemunhas e pelos seus colegas de trabalho e uma cachopa de cabelos loiros, a tal empregadita, passa-lhe, à socapa, um papelinho para a mão.
De imediato, Ferdinando enfia o papelito na algibeira e desata a correr para casa. Quando ali chega, esbaforido, abre e fecha a porta, pega no bilhetinho e lê: Querido Ferdinando, não deixes de ser assim. Daqui a um ano já sou maior. Beijocas!
Jorge Fagundes














