O Anjo da GuardaPor Florbela Viegas
Barreiro

Por Jornal Rostos
Há quase cinco anos, “morri” de morte estúpida, quando estava numa fila das Finanças, numa Repartição perto de mim.
Naquele dia de Julho, o calor era abrasador e ainda não tinha almoçado. O ticket, tirado momentos antes, da máquina ordenadora, indicava que o tempo previsto de espera, seria de mais de uma hora, o que queria dizer que teria de “sacrificar” o almoço, em benefício do Ministério das Finanças e em prejuízo da minha pessoa que já começava a ver tudo a girar, de tanta fome que sentia.
Era o último dia para o pagamento da importância devida, correspondente a obrigações fiscais e, nestas coisas de Fisco, não convém protelar, porque é certo e sabido que aqueles “maganões” não perdoam e podem, a qualquer momento, entrar-nos pela porta dentro e levar-nos o cão, o gato, o papagaio, o periquito e deixar-nos a sogra, para mal dos nossos pecados.
Moçoila cumpridora que sou, recusei almoçar com alguns amigos num tasco perto do local de trabalho, para cumprir o meu dever de cidadania e não figurar na famosa lista de relapsos devedores ao Fisco.
Como não havia nada a fazer, para melhor passar o tempo, resolvi entabular conversa com alguns dos meus companheiros de “infortúnio”, com um só funcionário a atender as mais de trinta pessoas, e nem um arzinho condicionado ou uma ventoinhazinha que nos minorasse o sofrimento, ou uma cadeira onde nos pudessemos sentar, já que a temperatura rondava os trinta graus, dentro do edifício.
Mas se fosse hoje, havia de ser diferente. Não me limitaria a ficar ali à espera, pacientemente, naquela sauna, com a barriga a dar horas.
Algo iria contrariar aquilo que eu, apesar de tudo, julgava estar a correr bem. Não costumo tomar nada como certo nesta vida mas, ainda assim, a vida costuma pregar-me algumas partidas.
Estava eu de coração ao alto, quando sou abordada por uma velha cigana romena, que, percorrendo a longa fila, se dirigiu a mim, numa lenga-lenga imperceptível e confusa. Parecia possuída por uma “coisinha má”. Não me assustou mas conseguiu surpreender-me. A mulherzinha tentava, desesperadamente, agarrar-me as mãos. Instintivamente, desviei-me. Não sei o porquê, mas fi-lo.
Acabei por perceber que apenas pretendia ler-me a “sina”. Acedi, numa de passar o tempo e divertir-me, e ela acalmou-se. Foi como se lhe tivesse tirado um peso de cima, porque havia conseguido o que queria.
No meio de tanta gente, porquê eu? E por que motivo a deixei fazê-lo, eu que me considero uma pessoa tão racional e tão pouco dada a “futurismos”?
São perguntas para as quais ainda não encontrei resposta. Julgo que apenas me deixei levar pelo momento, para longe, para muito longe, para lugares onde, eventualmente, nunca terei estado, mas que acabaram por me marcar.
Segurou de uma forma firme, mas delicada, as minhas mãos. Ao primeiro contacto perdi o temor. Fiquei fascinada. As suas mãos ásperas e calejadas inspiraram-me confiança. Falava com uma voz rouca mas perceptível e eu escutava-a. Não com os sentidos, mas com o coração. Por vezes olhava-me nos olhos e eu senti que vagueava pela minha alma. Pensamentos íntimos que agora já não o eram. Segredos que deixavam, a cada segundo, de o ser.
O futuro desenhava-se nas minhas mãos, nos meus olhos, no meu respirar, no meu sorriso nervoso e ela entendia-o.
Eu sorria. Não podia deixar de fazê-lo.
- "Vai ter uma vida muito feliz. Com dois filhos, segundo o que as suas mãos me dizem."
- "Não me diga!... E o pai deles? Consegue ver quem será?"
- "Vai ser difícil encontrá-lo. Mas não se preocupe que encontrará alguém muito especial. Os caminhos serão tortuosos, mas vão ter um final feliz. É um homem muito bonito. E alto. Parece um Anjo. Loiro, muito alto e com os olhos azuis, que vai causar muita inveja às suas amigas."
Era tudo bom demais para ser verdade. Provavelmente, por isso, não o seria. Eu sabia-o.
Mas ela continuou.
- "Os seus objectivos é que parecem atribulados, não é?". Acenei com a cabeça a confirmá-lo.
- "Mas vão tomar o rumo do sucesso, não se preocupe. A menina é mulher de leis e de letras e vai conseguir tudo o que pretende, mais cedo do que pensa. Tenha é mais cuidado consigo, porque a sua saúde não está bem. Um dia vai ficar gravemente doente e, como não tem cuidado, vai ter uma vida curta, até aos 65, que é Deus que assim o quer. E vai ser, quase sempre, muito feliz. Mas com uma vida tão curta, não se feche em si própria. Arrisque mais um pouco que Ele vai protegê-la sempre".
Fiquei surpreendida. A mulher não me conhecia de lado nenhum. Como poderia saber a minha actividade e quais os meus objectivos?
Tão depressa como chegara junto de mim, desapareceu, misteriosamente, por entre os carros e as pessoas que passavam na rua. Nem tive tempo para lhe agradecer ou retribuir monetariamente as suas “previsões”.
Comecei, então, a sentir-me mal, devido ao calor que se fazia sentir e ao facto de não ter almoçado.
“Ela”, aproveitando-se da minha fragilidade, abraçou-me com o seu manto negro.
Tentei resistir-lhe, procurando, na minha bolsa, os meus comprimidos SOS. Não consegui.
Entrei no seu túnel de luz e senti-me leve, tão leve. Rocei a perfeição e finalmente senti-me eu. Finalmente, era eu. Conseguia ver, através das sombras reflectidas nas paredes do túnel, aquela figura imponente que julguei ser Jesus Cristo ou o Diabo. E senti uma tremenda angústia. Permaneci no tempo e na luz. Quis ficar para sempre. Mas o meu Anjo da Guarda não deixou.
Acordei num Hospital, uma semana depois de ter “morrido” e julguei-me no Paraíso. Um Anjo de olhos azuis, como se fossem lagos, estava debruçado sobre mim e falava-me numa língua estranha, que eu julguei ser a dos Anjos.
Soube que foi ele o meu Anjo da Guarda. Aquele trolha ucraniano com uns olhos lindos como o azul do céu, salvou-me de morrer, quando tenho ainda tanto para fazer, tantas coisas para dizer, tanto para dar.
Médico no país que o viu nascer, trolha no país que o acolheu como imigrante, estava na fila das Finanças e teve a percepção que eu apertava na mão esquerda os comprimidos que não consegui colocar debaixo da língua. Prontamente reconheceu os sintomas de um AVC e iniciou uma série de manobras que o INEM, quando chegou, se limitou a completar.
Recordei-me da “profecia” da cigana e interpretei-a à luz da minha Razão: a vida, por vezes, dá-nos segundas oportunidades, chances de fazermos melhor ou de sermos diferentes.
Assim o fiz, assim o quis fazer. Terei todo o tempo do Mundo para decidir fazê-lo. Não exijo muito da vida mas aproveito tudo o que ela me dá, seja bom ou mau, ou assim assim. E não me limito a ficar por aí. Busco sempre mais e nunca olho para trás.
Amo.
Tudo e todos.
Graças a Oleg, o meu Anjo da Guarda ucraniano, o tal Ser especial.
Florbela Viegas














