A República das AvesPor Manuela Fonseca
Barreiro

Por Jornal Rostos
No tempo em que os animais falavam, a República das Aves tivera a ditadura das de Mau-Agoiro que parecera interminável e enchera de sofrimento as frágeis e as que as acompanhavam no desejo de felicidade.
Organizara-se, em segredo, não fossem os Bufos detectá-lo, o Movimento dos Pássaros-Soldados. Estes, armados com as lindas vozes, acabaram, apenas numa noite, com a opressão da maioria que desejava, simplesmente, Democracia.
Milhares e milhares de animais juntaram-se, finalmente sem medo, no apoio àqueles Soldados e à caminhada que faziam, madrugada adentro, logo que o primeiro os viu avançar – organizados e decididos.
Todos compreenderam que iam cair do poleiro os que comiam tudo e nada deixavam, como um Rouxinol contra eles cantara e nem se intimidara com a tentativa de silenciá-lo, sem êxito, na prisão.
(Como tinham ficado aflitos os seus jovens discípulos canoros quando não foi dar-lhes a aula de solfejo por ter sido raptado e levado para a cadeia!)
A ele as Corujas não conseguiram mandar cortar as asas como a outros da sua espécie, cantados, em melodia sentida, pelo Canário-Poeta-da-Arrábida, anos antes.
Cobardes como os que só vivem da brutalidade e nela se escudam, as miseráveis perceberam que os seus espiões e exército caduco já nada podiam contra a população, finalmente corajosa, finalmente feliz.
Deixaram muito estrume, produzido na balbúrdia da debandada, em inúmeros ninhos secretos e luxuosos – transformados, depois, em locais de trabalho e estudo, unidades de saúde, assistência e lazer pelas Aves-em-Alegria.
(Inesquecível o primeiro dia em que puderam escolher o caminho através do Voto Livre, antigo desígnio dos melhores deles, os Mochos-Sábios, honrados, no escrutínio, com as maiores preferências.)
Sóis e luas passados, a nação acabaria por aderir à Organização Continental dos Animais-Civilizados, segundo vontade da maioria.
Tudo parecia correr da melhor maneira possível: a República das Aves esforçar-se-ia, ainda mais, com o apoio dos novos parceiros, milhões e milhões, por avançar e ajudar a grande associação em cada uma das suas terras – todos construíam uma apetecível realidade, todos dela colheriam, mais tarde ou mais cedo, justos benefícios.
Actividades em prol da pertença a um grande território solidário, próspero e educado faziam da República das Aves um local querido das próprias e dos bichos que as visitavam ou ficavam entre elas.
Como “não há bela sem senão”, muito ficara por cumprir – exageros de alguns, manias de grandeza de outros tantos, má gestão de muitos, pouca produtividade dos que não sabiam ou não conseguiam mais qualidade começaram a complicar a vida da República e da Comunidade.
Ambas foram abaladas pelos desvios (cada vez mais escandalosos) dos Rapinantes. Vaidades e privilégios dos Cucos-sem-Juízo, que se tinham feito passar por dignos representantes de todos, também complicariam as coisas.
Além disso, os bens que chegavam de outros lados, muito baratos, deixavam os produtos da Comunidade por vender e trocar e faziam fechar celeiros que não podiam competir com os preços dos que provinham de paragens, antes longínquas, cada vez menos distantes através dos novos caminhos aéreos.
(Aves, antes desconhecidas, de algumas dessas paragens trabalhavam, trabalhavam, impedidas de abrir o bico, não fossem perder a vida, pertença dos Alados-Sem-Escrúpulos que as subjugavam.)
Os grãos que se multiplicariam quase até ao infinito (estranhas e irresponsáveis as contas para isso feitas) e, ao invés, escasseavam, roubados dos troncos de árvores que os tinham guardado mal, causaram grande aflição.
As prestações dos ninhos, outras dívidas aos Bancos dos-Bichos-Iludidos, as dificuldades na obtenção de trabalho complicavam a sobrevivência de cada vez mais aflitos e pobres.
Em alguns lugares, então ainda abastados, as Cegonhas-Migratórias começavam a ser vistas como empecilhos, ladras, causadoras dos males dos Animais-Autóctones.
Uma minoria tinha-se portado mal – pretexto e antigo expediente para a deportação das ordeiras.
Na República das Aves chegou o momento em que, jovens na idade e caducas nas ideias, as netas das totalitárias, afiaram os bicos aduncos para amedrontar, incomodar, destruir as menos resistentes às quais proporcionavam e retiravam trabalho quando, como e se lhes apetecia: tanto se lhes dava que as Frangas Pedreses, as Perdizes e muitas outras pudessem sustentar os filhotes como não.
Se havia, entre aquelas, as que, desesperadas, arrancavam as próprias penas, era-lhes indiferente. Ou talvez esse sofrimento atroz lhes desse gozo.
Passara o tempo em que ouviam os representantes dos Sindicatos dos Músicos-Pássaros, das Galinhas-Poedeiras, das Cantoras-Cotovias, dos Patos-Operários, dos Técnicos-dos-Movimentos-das-Asas. Por exemplo.
Mudadas as circunstâncias, tinham mergulhado na estupidez ancestral que as levava a desprezar e a ameaçar tais organizações de Aves-Geradoras-de-Valor.
Uma das suas porta-vozes, os olhos em fúria, as asas em violentos movimentos, gritara, descontrolada:
– Ainda havemos de mudar muitos mais regulamentos para vocês deixarem de ter direitos e teimosias!
Mais e mais arrogantes, detentoras da economia, do poder financeiro – oculto ou exibido – dos “mercados” (os que punham a cabeça dos pardais em água), nem deram, tontas, pelo cada vez maior Organismo das-Fartas-de-Sofrer que as enxotaram, de uma vez por todas, dos locais onde chafurdavam na ignomínia.
Foram, felizmente, para bem longe.
Soube-se, no andar dos milénios, que meditaram na importância de boas condutas e boas práticas com todos os animais.
(Algumas ainda puderam executá-las.)
A luta pela Democracia Desenvolvida, meta das mais conscientes foi, a partir daí e para sempre, Restabelecida. Para usufruto das Aves e todos os seres que, antes dos humanos, já falavam.
E lhes deixaram esse conto para ser cont(inu)ado. Sempre.
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos














