Sonho de NatalPor Florbela Viegas
Barreiro
Era Natal. Estava no Barreiro, sozinha, desgraçada e sem abrigo, tão longe da sua amada aldeia.

Por Jornal Rostos
Por altura do Natal, todos nós trazemos no coração uma aldeia, um sentido de tribo ou uma necessidade de fogueira, que nos aquece o Ser e nos dá uma sensação de integração. Quem se encontra longe da terra onde nasceu, tem outros mistérios a definir os contornos da alma, como se fosse um vasto horizonte exterior, contido em belos e perfumados jardins interiores, nunca dantes explorados.
E não nos importa que o virtual tenha feito, da nossa aldeia interior, um quintal do Universo, pois é dela o nosso sentir. É com essa reflexão que exercitamos a memória e vagueamos por esse Mundo fora. A nossa aldeia abraça-nos e conforta-nos e é nela que buscamos aquele calor de fogueira ancestral, que acendemos, para aquecer a perenidade dos nossos dias, em todas as gerações.
Toda a fogueira pede reencontro, reconciliação e histórias. Eu conto-as e oiço-as também. Guardo-me e transformo-me em palavras. Invento e conto histórias para não esquecer aquilo que sou e o que virei a ser, depois de as nossas palavras e mitos se perderem no tempo. Depois de mim e de todos os outros, perdurarão apenas muitas histórias e algumas memórias. Nada mais.
Esta é mais uma história triste, passada numa fria Noite de Natal.
- “O que se falou na altura, foi que a filha mais nova da Maria Inácia, o teria visto em Lisboa“ - disse a Rosário, com aquele vagar que caracteriza as gentes da montanha, ao mesmo tempo que se baloiçava na cadeira mandada fazer a preceito, e que já não era assim tão cómoda, como então lhe parecera.
Rosalina, a irmã mais nova, sentada no escano de castanho velho, atiçava o borralho onde assentara a panela de ferro, com o guisado de míscaros e casulas. Momentos depois, observando a espiral de fumo que saía pela chaminé da lareira, foi dizendo, murmurando, como se de uma oração se tratasse:
- “ Foi quando ele fugiu com todo o dinheiro da venda do rebanho das ovelhas e das cabras, que o patrão o mandou ir depositar no banco. Envolveu-se com amores furtivos, proporcionados por mulheres que trabalhavam no novo bar de alterne, da Vila. Desde esse dia, nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima. Ninguém sabe se ele estará vivo ou morto ”.
Rosário, ajeitando o velho xaile que lhe protegia as pernas, do frio gelado de Dezembro, que penetrava pelas frinchas das janelas e das portas, levantou o olhar e, observando a irmã, pensou no tempo que passara, desde o dia em que o tinham visto pela última vez.
Alguém lhe dissera que ele tinha rumado a terras do Barreiro, com intenção de nunca mais ser visto. Mas ela não quis acreditar. Os afectos sobrepunham-se à dor das recordações.
- “ Vá lá, Rosário. Tens de acordar, que o Francisco deve estar a chegar e não deves querer que ele te encontre a dormir”, - pareceu-lhe ouvir a Rosalina dizer, no seu jeito protector.
Esticou as pernas e recordou, com desgosto, o que acontecera naquele malfadado final de Agosto. O Francisco, seu único filho, tentado pelo demónio, fugira, deixando-as na miséria e a braços com dívidas que as obrigaram a vender todo o rebanho e as terras, comprometendo seriamente os seus já tão parcos recursos económicos.
Durante muitos meses, e seguida pelo seu fiel e dedicado cão Farrusco que, desde a partida de Francisco, não mais largara a soleira da porta, Rosário andou por todos os vales, caminhos e carreiros dos montes, na expectativa de o encontrar, vivo ou morto.
Nesse instante, um arrepio de frio trouxe-a de volta ao espaço gelado, entre as quatro paredes de granito. Aconchegando novamente o xaile sobre as pernas, virou a cabeça a tempo de ver a porta da rua a abrir-se e a embater no velho louceiro que fora da sua Avó.
À contraluz, teve uma visão. Um vulto, junto à porta, tinha umas asas feitas da neve que cobria toda a serra, emprestando-lhe a suave e fantástica imponência de um escultural Arcanjo.
Os olhos de Rosário brilharam, quando percebeu a figura de Francisco. Não conteve os soluços e a alegria de rever, finalmente, o filho.
As forças perdidas não a deixaram levantar-se. Foi ele que, receoso, se aproximou. A emoção embargava-lhe a voz, as lágrimas escorriam soltas, enquanto Francisco, esmagado pela angústia, lhe pedia perdão por tê-la abandonado, levando consigo o pequeno pecúlio da família e o dinheiro que subtraíra ao patrão. Arrependido, fugira para o Barreiro onde trabalhou nas obras da construção da nova ponte sobre o Tejo, mas agora regressava, para devolver todo o dinheiro que roubara e, assim, redimir-se de todos os seus pecados.
Quando conseguiu falar, Rosário disse-lhe, com uma alegria infinita:
- “Até pelo Barreiro te procurei, mas a única coisa que de lá trouxe, foi esta incómoda cadeira de baloiço. Não te martirizes mais. O que passou, já lá vai. Sê bem-vindo, meu filho”.
Dizendo isto, e enquanto procurava forças para se levantar, chamou pela irmã, com um largo sorriso que há muito o seu rosto ressequido não via.
- “Rosalina, minha irmã, não fiques aí especada. Vai tratar das filhós e das rabanadas.
Francisco, meu filho, come uma fatia de folar, bebe uma pinga e depois vai matar o mais tenro cordeiro do rebanho, que eu vou buscar uma braçada de azinho, para acendermos o forno. O Natal está, finalmente, de volta à nossa casa e aos nossos corações”.
–“ Vá lá, Rosário. Acorda, mulher! Quantas vezes teremos de te acordar? Acorda, que aqui não vais poder dormir, com este frio danado. Podes morrer gelada.” – Ouviu, angustiada, saindo do doce torpor em que mergulhara.
– “ Vamos levar-te para a estação velha do TGV, que lá ficarás melhor e mais aconchegada. Estão lá as carrinhas da Misericórdia e da Câmara Municipal, a distribuir cobertores, bolo-rei e refeições quentes, nesta Noite de Consoada. E o pessoal do Jornal “Rostos” também lá está, a oferecer luvas, cachecois, gorros e meias de lã, muito quentinhos” – Disseram-lhe os agentes do carro-patrulha, que tão bem conhecia e que tanto a ajudavam.
Rosário precisou de alguns momentos para se recompor. Os seus sonhos pareciam, cada vez mais, realidade. Embora a sua Rosalina já tivesse morrido há muitos anos, desejava, intensamente, que ela estivesse viva e ainda não perdera a esperança de, um dia, poder voltar a abraçar o seu querido filho Francisco.
Era Natal. Estava no Barreiro, sozinha, desgraçada e sem abrigo, tão longe da sua amada aldeia.
Foi com imensa tristeza e uma enorme e silenciosa dor, que, embrulhada no seu velho xaile de lã, saiu debaixo dos plásticos e das caixas de papelão.
Florbela Viegas














