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Quotidianos

Tomem lá os Bombons!Por Manuela Fonseca
Barreiro

Embora Camões tivesse cantado, já há séculos, “O tempo o mesmo tempo”, este ainda não chegara para uma companheira, uma família que ambos constituíssem e, quiçá, aumentassem. Tal situação às vezes abatia-o – dialogava com a mãe acerca da mesma, com mágoa, depressa ultrapassada.

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Tomem lá os Bombons! Por Manuela Fonseca Barreiro

Por Jornal Rostos

Ao Cabós Gonçalves. Meu irmão.

Deixara o ventre materno de forma complicada. Ficar-lhe-iam sequelas – reduzidas devido ao acompanhamento precoce de competentes médicos e terapeutas, numa excelente unidade de saúde.
Ele, bebé, e os pais, na sequência de cuidadosa avaliação após o nascimento, a caminho de Lisboa. Quando a noite e a manhã ainda se cruzavam.
Os bons resultados, lentos mas certos, chegaram precocemente.

Ainda assim, a mãe ficaria traumatizada para o resto dos dias. Trinta anos depois, continuavam a ecoar, no sobressalto, comentários, estúpidos, provenientes de gente de todos os estratos culturais, ignorada a atenção para com os sentimentos dela e do bebé, no Verão em que o Rapaz viera ao Mundo e à crueldade, ao encontrá-los, pela primeira vez, no Parque.

Chegado do trabalho, o pai vira, um dia, a mulher em lágrimas. Por causa de frases levianas, proferidas na bisbilhotice de espreitar o menino “diferente”.

(Que o Tó Cabós, amigo dedicado da família, referiria sempre como extraordinário: na superação de dificuldades diárias – consideradas as limitações psicossociais de muitas pessoas em relação a cidadãos como ele –, no amor ao trabalho, na organização pessoal, na solidariedade para com os idosos, na cooperação com a mãe que, precocemente, teve falta dela.)

Incomodado, o progenitor reagira, na voz alta e teatral que tantos lhe apreciavam no palco:

– Passo a ir uns dias com ele e logo ouvirão o que direi dos mexericos! Ficar-lhes-ão de emenda!

Numa espécie de milagre, desde o dia em que ele e a criança foram para junto dos patos, a maledicência transformara-se em sussurro e, pouco depois, em silêncio. Pesado mas preferível a disparates audíveis.

A saudosa ginecologista, que estivera muito atenta a uma gravidez que se complicara, afirmara sempre à mãe que as consequências do parto ainda teriam sido mais sérias se o mesmo tivesse ocorrido em local menos preparado para o receber. A mãe afirmara sempre à saudosa ginecologista que o filho ficara assim, embora recebido num renomado hospital universitário.

Vivera, a ilustre e humana doutora, o tempo suficiente para observar e presenciar, como amiga, a evolução do moço: cada vez mais rijo, cada vez mais optimista, cada vez mais simpático, cada vez mais feliz.
Numa demonstração da prodigalidade do binómio Deus e Natureza para com os seus filhos.

Respeitador, cumpridor de ordens e indicações recebidas, encontrou, no bom ambiente que, no trabalho, o acolheu e fez desenvolver, nova alegria e motivação.

Embora Camões tivesse cantado, já há séculos, “O tempo o mesmo tempo”, este ainda não chegara para uma companheira, uma família que ambos constituíssem e, quiçá, aumentassem. Tal situação às vezes abatia-o – dialogava com a mãe acerca da mesma, com mágoa, depressa ultrapassada.

(Fossem todos como ele – exclamava a mãe, em diálogo com o autor comum dos dias do jovem – e não havia tanta complicação por aqui e por ali!)

Há uma semana, dissera à confidente – papel em que, no percurso de vida, a preferia –, sentada no escritório onde produzia um texto e ouvia a “Flauta Mágica” de Mozart, uma das paixões da família:

– Sabes, Mocas, lanchei antes de chegar e saio já. Vou fazer uma extravagância.
Volto num instante e faço-te logo companhia.

No regresso, tão rápido que admirou a mãe, trazia duas caixas de chocolate dentro de um saco que lhe mostrou.

– Tu depois embrulhas essas lembranças?

E, em tom confidencial:

– São um segredo só entre nós.

A mãe olhou-o, divertida. Sabia que o mistério era, apenas, por breves momentos.

O Rapaz fez um gesto, largo, as mãos idênticas às dela, e proferiu com pudor:

– A menina que às vezes é minha acompanhante e a senhora que é a dona da casa onde ela trabalha são tão boazinhas!

Baixou os olhos:

– Quando for ter vê-las, dou uma caixa a cada uma.
Olha, é uma lembrança para começarem bem dois mil e onze…
E digo-lhes: “Tomem lá os bombons!”

O pai e os irmãos, de novo em casa, voltavam do terraço. Após o prazer de um cigarro.
Deu-lhes um beijo.

Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos

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