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Quotidianos

O RéveillonPor Florbela Viegas
Barreiro

Avançou um pouco mais e chegou à entrada da casa. A caminho da porta principal, reparou que, no corredor, por cima de uma credência, estava pendurado um velho quadro. Estacou diante dele e deteve o olhar. Ficou estupefacto. Era o retrato de Olga, elegantemente vestida, como naquela noite, com o mesmo vestido comprido, de estilo clássico.

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O Réveillon Por Florbela Viegas Barreiro

Por Jornal Rostos

Tinha emigrado há alguns anos, mas desejava, intensamente, regressar à sua terra natal, que nunca tinha esquecido. Há vários dias que muitos aeroportos estavam fechados pelo mau tempo que se fazia sentir na Europa inteira, e já começava a ver a sua vida a andar para trás, quando a agência de viagens lhe comunicou que, nessa manhã, estava cheio de sorte, porque haveria um vôo especial, que lhe daria direito ao aluguer de um carro no destino, pago pela empresa. Finalmente já poderia sonhar com a festa de fim de ano no Barreiro, cidade onde nascera mas que abandonara, para se recompor, após a morte prematura dos pais.
Aquele dia amanheceu chuvoso e frio, e tinha jurado a si próprio que, naquele ano, não haveria nada neste mundo que impedisse os seus propósitos de viajar para Portugal, para passar essa noite com os familiares mais chegados e os amigos de longa data.
Assim aconteceu. Foi com grande alegria que aterrou no novo Aeroporto Internacional do Poceirão, onde lhe entregaram as chaves de um carro, para rumar ao Barreiro. Era o último dia do ano e aproximava-se o Réveillon, a tal noite especial, em que todos nos enchemos de esperança e desejamos um pouco daquela magia que nos faça felizes e transforme a nossa vida para melhor.
Pelo caminho, foi reparando em como tudo estava tão diferente. A auto-estrada até ao Barreiro, com as várias faixas de rodagem, convidava ao excesso de velocidade, mas conteve-se, para saborear o momento de estar quase a chegar perto da sua cidade e da sua gente. Pensando melhor, até achou um desperdício o facto de lhe terem facultado uma viatura, quando a linha de metro do aeroporto até ao Forum, no centro da cidade, parecia ser muito mais rápida e confortável.
Ao longe, as luzes da cidade brilhavam e o seu coração batia cada vez mais forte, de emoção. Podia ver a nova ponte sobre o Tejo, totalmente iluminada, de onde seria lançado o fogo de artifício, à meia noite em ponto e, à medida que se aproximava do Barreiro, o rio parecia um mar de prata, onde grandes navios de cruzeiro, apinhados de estrangeiros, esperavam ao largo, a sua vez de atracar no terminal fluvial, para a festa que se adivinhava de arromba.
A casa onde nascera, que agora lhe pertencia e que nunca quis vender, ficava ao lado de uma outra. Ambas foram construidas algures no Centro Histórico da cidade, hoje transformado numa Manhattan de edifícios altos e envidraçados, todos eles “inteligentes” e equipados com novas tecnologias. Naquele tempo, eram duas moradias grandes e iluminadas, que mais pareciam dois palácios de conto de fadas, no meio de grandes jardins que rodeavam ambas as casas, com carvalhos imponentes, e salpicados, aqui e ali, de canteiros coloridos e perfumados. À volta desses jardins, havia uns muros altos e espessos e dois velhos e pesados portões, de ferro forjado, a protegê-las dos olhares indiscretos. Por cima das copas das árvores e sobre os telhados das casas, nos fins de tarde, bandos de pardais acrescentavam, ao conjunto, uma sensação de paz e de felicidade. Quando partiu, tinha mandado emparedar as portas e as janelas da sua casa, para evitar que fosse vandalizada.
Aquelas moradias eram as únicas sobreviventes de um passado remoto, no meio de todos aqueles edifícios de vários andares, em condomínios fechados, com segurança privada, vinte e quatro horas por dia.
Não conseguia lembrar-se dos vizinhos que, naquele tempo, habitavam a casa ao lado da sua, mas recorda-se vagamente que alguém morava ali, porque à noite se acendia uma luz solitária. Ora no sótão da casa, ora numa daquelas janelas enormes, que davam para a Rua Aguiar. Por vezes, ouvia-se o som calmo de um piano e esse alguém deixava-se adivinhar na sombra ondulada das cortinas. Quando a casa era motivo de conversa, dizia-se que ali morava uma jovem rica mas solitária. Mas ninguém sabia dizer quem era. Nunca ninguém a vira.
O dia estava a chegar ao fim. O manto escuro e frio da noite, avançava sobre a cidade, quando se enganou no caminho e entrou no velho IC21.
Absorto nos seus pensamentos e preocupado com o facto de já não conhecer a cidade, o seu único desejo era encontrar alguém que lhe indicasse o caminho para uma daquelas torres onde moravam agora os seus parentes mais próximos, com quem iria passar uns dias e festejar o final do ano.
-“ Estranho!” - pensou para si, enquanto repousava o olhar sobre a mulher que caminhava mais à frente, na escuridão, pela berma da auto-estrada, de vestido clássico, comprido, como se fosse para uma festa.
- “Alguém que está maluco, ou a quem faltou a gasolina”, disse para os seus botões.
Abrandou e parou mais adiante, na berma, à espera que a mulher chegasse junto de si, para lhe oferecer os seus préstimos.
Era uma mulher lindíssima, muito jovem e elegantemente vestida. O seu perfume era suave e os seus modos também. Uma princesa, pensou ele.
A rapariga sorriu-lhe. Estendeu-lhe a mão e apresentou-se. Olga era o seu nome. Ele teve a sensação que já a conhecia há muitos anos e que aquele seria um reencontro. Mas não ousou referi-lo.
Estava fascinado pela beleza estonteante que tinha diante de si e achou que seria uma incorrecção da sua parte, perguntar o motivo por que caminhava por ali sozinha, àquela hora da noite, quando todos se preparavam para a festa de fim de ano.
A jovem pareceu ler-lhe o pensamento.
- “Tive um pequeno acidente. O meu carro saiu da estrada e já chamei um reboque para o vir buscar. Só que tenho um compromisso a que não posso faltar e o reboque vai demorar cerca de duas horas a chegar. Até agora não passou vivalma. Se não fosse muita maçada, será que dava para me dar boleia até ao Barreiro? Ficar-lhe-ia imensamente grata, pois sou pianista e esta noite vou dar um concerto numa instituição de solidariedade social da cidade. Rasguei o vestido ao saír do carro e ainda vou ter de passar por casa, para mudar de roupa. Importa-se?”.
O seu coração pulou de alegria. Desejava, muito, ser útil àquela desconhecida tão bela e de modos tão suaves. Abriu a porta do carro e convidou-a a entrar. Não lhe custava nada levá-la a casa, até porque também necessitava urgentemente de alguém que lhe indicasse a melhor maneira de chegar ao sítio onde iria ficar.
A jovem foi-lhe indicando o caminho até que, de rua em rua, ele foi reconhecendo todos os locais. A surpresa tomou conta de si, quando a desconhecida lhe pediu para parar em frente ao velho e pesado portão de ferro forjado, da casa vizinha da sua.
- “Moro aqui. Muito obrigada pela sua boleia. A rua para onde quer ir, fica no terceiro cruzamento, à esquerda. É fácil chegar lá. Boas entradas e seja muito feliz!” - E, dizendo isto, abriu o portão, escapulindo-se para o interior, sem lhe dar qualquer hipótese de resposta.
Ele seguiu o seu caminho. Durante o Réveillon, comentou com os amigos, quem seria Olga, aquela bela desconhecida que morava na velha casa ao lado da sua.
- “Impossível!” – Disseram-lhe eles.
- “ Essa rapariga era a tua vizinha pianista que morreu no IC21, num acidente, há muitos anos, pouco tempo depois de tu teres emparedado a tua casa e de teres emigrado. Deves ter sonhado com ela. Só pode!”.
Não acreditou. Nem se lembrava de ter tido uma vizinha com esse nome. Não, não tinha sonhado. E para tirar as dúvidas, no dia seguinte, logo pela manhã, dirigiu-se à casa, na esperança de a reencontrar.
Fez ressoar a campainha do portão, com vigor, e esperou. As portas e as janelas estavam fechadas e ninguém apareceu. O silêncio era total. Não tardou muito até saltar os dois metros do muro, com a ajuda de um contentor de lixo. Naquele preciso momento pareceu-lhe ver movimento no meio dos arbustos. O receio de cães, percorreu-lhe o corpo, num arrepio. O salto que deu, para o chão, foi amparado pela folhagem do Inverno e o doce aroma que sentiu, trouxe-lhe memórias das brincadeiras de infância.
Aproximou-se da casa e começou a procurar um modo de entrar. Algumas das janelas estavam mesmo pregadas com tábuas de madeira. O muro já estava ultrapassado, faltava agora o pior: entrar dentro da casa. Estava com sorte. Encontrara uma escada pousada mesmo por baixo de uma varanda. Decidido, subiu por ela. Só teve que forçar um pouco a janela para conseguir entrar. Lá dentro estava escuro. Muito escuro. Desceu com cuidado as escadas, em direcção ao piso térreo. Aquele cheiro a humidade parecia conter algo de agradável. Remetia-o para tempos passados. Mas, rapidamente, se adensara e se transformara num bafo irrespirável.
O local estava abandonado. Uma série de retratos, alinhados ao longo de uma parede, e um velho piano de cauda, eram a única prova de que um dia fora habitado.
Avançou um pouco mais e chegou à entrada da casa. A caminho da porta principal, reparou que, no corredor, por cima de uma credência, estava pendurado um velho quadro. Estacou diante dele e deteve o olhar. Ficou estupefacto. Era o retrato de Olga, elegantemente vestida, como naquela noite, com o mesmo vestido comprido, de estilo clássico.
Em cima do móvel, um livro encadernado a pele, com letras douradas, dizia “Diário da Olga”. Nas suas páginas, o dia anterior aparecia relatado, escrito e assinado pela jovem e terminava assim: "Ele chegou, finalmente. É tempo de partir".
Atordoado, quedou-se por instantes, tentando descobrir o significado daquelas palavras.
De repente, lembrou-se!
Mal poderia imaginar que Olga era a sua vizinha, aquele vulto doce de menina, que ele nunca vira, mas que adorava ouvir tocar, empoleirado no muro, nas noites de fim de ano, quando ambos eram crianças.
Desejou poder ouvi-la, novamente.

Como por magia, naquele mesmo instante, o piano começou a tocar.

Florbela Viegas

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