Uma Bela BebéPor Manuela Fonseca
Barreiro
Decidi-me por regressar a casa, não sem antes olhar para o velhinho Campo Manuel de Melo, cuja porta traseira estava aberta e tinha a relva a ser tratada; cheirava a humidade que, sobre ela, a água proporcionava.

Por Jornal Rostos
Rua de Stara Zagora, primeira parte da década de noventa.
Cansada de uma dissertação de Mestrado que me abatia – nasci para professora e estudiosa e não para investigadora de material que (quase) ninguém leria ou terá lido.
Tinha consciência disso e do tempo que, apesar dos cinco meses de paragem, tirava aos discípulos e às aulas, bem como da escassez de conhecimentos que aquele trabalho me dava.
Parei de escrever.
Resolvi sair por uns minutos – os garotos estavam na escola e apanharia um pouco de ar, ou talvez não, que a poluição atmosférica na zona, nesse tempo, era, por vezes, difícil de suportar.
Decidi-me por perguntar, na videoteca, a alguns metros do prédio onde habitava e de que era associada, se tinha um dos meus filmes preferidos, “Voando sobre um ninho de cucos”. Delicada e gentil, a jovem funcionária confundiu-o com algo de bem diferente e informou-me não existir lá esse “Kung Fu”.
Perguntei a mim própria se a falta de formação não era o maior atraso de Portugal, fundamentada em raízes históricas que levariam muito tempo, infelizmente, a dissipar-se e a contribuir para o avanço do País.
Decidi-me por regressar a casa, não sem antes olhar para o velhinho Campo Manuel de Melo, cuja porta traseira estava aberta e tinha a relva a ser tratada; cheirava a humidade que, sobre ela, a água proporcionava.
Havia jogo nesse domingo e já sabia que gente solidária levaria par junto de mim os miúdos que, num esfregar de olhos, fugiam para o último degrau da cabeceira do topo sul – havia meses que se tinham habituado àquela espécie de número de circo que, embora me afligisse, não me impedia a ida aos jogos – todos têm vícios e defeitos; paciência; aquele é dos que sempre assumirei.
Hoje, homens feitos – e em fúria com a divisão distrital, buraco em que o clube, em apuros, caiu –, os rapazes lembram-se bem da “gracinha” e riem-se muito dela; só ficam muito sérios quando olham, objectivamente ou na sensibilidade, para o local, nojento, em que o Manuel de Melo se transformou, depois de tantas negociações e, certamente, promessas feitas.
Num jantar em que abordávamos, de novo, a situação do Barreirense, contei-lhes a razão de ter descido uns minutos que se tinham tornado bem mais longos do que, no elevador, tinha imaginado, eles meninos na escola.
E continuei: ao sair do estabelecimento comercial aonde me tinha dirigido, encontrara uma antiga colega dos tempos do Liceu de Setúbal que não morava muito afastada.
– Que fazes aqui, menina?
– Olha, distraio-me por nunca mais conseguir ter um bebé; já estou cansada desta tristeza!
Sabia que ela tinha andado de especialista para especialista, dinheiro e mais dinheiro gasto, testes e mais testes, e que as opiniões, chegados os mesmos, eram unânimes: não lhe seria possível levar uma gravidez até ao fim; o desgosto do marido – afirmava – ainda superava o dela.
Ciente, havia alguns anos, do problema, tartamudeei quaisquer sons e entendi que seria incorrecto deixá-la de um momento para o outro – aquela era uma das alturas em que necessitava do meu conforto.
Estávamos assim: uma, faladora e a outra, quase calada (caso estranho em mim) quando nos apareceu, vinda de uma esquina próxima, uma amiga minha, idosa, curandeira tão séria que nunca levou um cêntimo às pessoas que, ao longo da vida, a procuraram e bastante ajudou, muito lhe prometeram – passeios, almoços, idas ao cinema, ao Algarve, ao campo – e, quase sempre, não assumiram com a senhora os compromissos, garantidos em situações complicadas.
(Referiu-me isso, numa tarde, desiludida, dizendo que tais atitudes ficavam com quem as tinha feito e que não colidiam, minimamente, “com o que Deus lhe tinha dado” mas que a magoavam.)
Aproveito o ensejo para vos dizer que, testemunha ocasional, de dois casos em que as pessoas confiaram em mim, embora eu nada quisesse ouvir das suas queixas, continuo a entender que teriam sido mecanismos psicológicos e, ou, psicofisiológicos que, apoiados, indiscutivelmente, na bondade e saber diferente da curandeira / vidente, teriam melhorado ou recuperado a força de vontade suficiente para elas esquecerem o que tinham transformado nas situações que mais as preocupariam.
Mostrei a alegria que tinha sempre que encontrava a idosa amiga, cujo nome eu sabia e chamava em criança, quando a conheci, e decidi-me por apresentar as duas e, a última a chegar, perguntou-me, marota e de chofre, como sempre o fazia:
– Tens alguma coisa para me dizer, herege? (Era a frase que utilizava para, mais ou menos, naquilo que sempre achei uma meiguice para comigo, comentar e confirmar a minha descrença nos seus métodos.)
E eu, para não ficar atrás na semi-brincadeira, disse-lhe, num rompante:
– Esta minha querida amiga não consegue ter um bebé.
E, maliciosa, acrescentei:
– Fiquem a falar as duas e, se fizerem a criança, passo a acreditar em ti, curandeira!
E ela:
– Vai-te embora, sim. Mas, já agora, não antes de darmos as mãos para ela depois ir para casa e fazer o bebé com o marido.
Fizemos uma pequena roda enquanto a senhora se pronunciava e que respeitei. Absolutamente. Após a mesma, fiz um comentário brejeiro que aqui não tem cabimento e despedi-me de ambas, não sem lhes dizer, apontando para a futura (sim, futura) mãe:
– Se, daqui por mês e meio, me telefonares a informar-me da gravidez, nunca mais duvido aqui da querida vidente. E para a sénior:
– És isso, não és? Confessa-o lá à gente!
– Logo verás: prepara-te para a surpresa! – Disse a velhota.
Mais ou menos na data que eu tinha referido, a jovem ligou-me e, conhecedora do meu escritório de então; ordenou-me:
– Senta-te na cadeira de braços! Já!
Exclamei, atrapalhada: – Vais dizer-me…!
– Sim, miúda! Que vou ter um bebé; a tua brincadeira acertou em cheio!
Confesso que, com a estupefacção e a habitual falta de jeito, ia caindo do assento ou nele.
Contei a situação à minha saudosa e amiga ginecologista, quando a consultei, uns dias depois; fora a última especialista cujos abalizados conhecimentos a minha amiga ouvira e seguira, atentamente.
Quase não conseguia acreditar na novidade. E exclamou, no maior respeito pelo segredo profissional:
– Manuela, que hei-de dizer-lhe? Talvez apenas isto: o que a Ciência tem, ainda, que andar! Essa senhora que me refere, a idosa, viu, sei lá como, o que os nossos exames não detectaram: o óvulo!
Quantas vezes teremos pensado, ambas, no que a Doutora proferira?
Alguns meses depois, nasceu uma linda menina, que a curandeira / vidente ainda conheceu. É, hoje, uma adolescente tão querida como foi uma bela bebé.
* Manuela Fonseca
* Colunista do Jornal Rostos
PS: devo esta estória à Florbela Viegas, ao seu conto “O Anjo da Guarda”. E à coragem de tê-lo, primorosamente, produzido.














