Os sapatos vermelhos da A.Barreiro

Por Jornal Rostos
Nótula
Gosto muito do pai da X, o Senhor C. D. – antigo funcionário da Companhia União Fabril, gestor comercial, desportista conceituado, medalha de Ouro do nosso Futebol Clube Barreirense – como se fosse da minha família biológica.
Homem bondoso, a suas meninas, M. M. de C. (a mulher), a X, a C. (a neta), a F. (a engraçada e travessa bisneta) como parte da vida que, até hoje, o animou; um pouco perdida com o falecimento da primeira, companheira de mais de sessenta anos, e o avanço da idade.
C. D. aturava todas as coisas que a filha, uma prima, “T.”, as sobrinhas, A. M., A. e “L.” e eu própria fazíamos, na acolhedora casa que era uma espécie de pertença de cada uma, sempre um sorriso nos lábios enquanto “pintávamos a manta”, o que incluía, até, o desaparecimento do leite e do bolo caseiro do seu pequeno-almoço. Obviamente nos nossos gulosos estômagos…
E, no entanto, no fulgor da adolescência, a X encontrava no sempre tão amado progenitor, injustamente, laivos de salazarismo visto que era inflexível em relação ao sutiã da filha: tinha de ter as características que ele entendia.
E quanto a sapatos de salto alto…
(Como as ditaduras marcam as pessoas! Como as gerações passam e as dores, grandes ou pequenas, ficam!)
Manuela Fonseca *
*Colunista do Jornal Rostos
Os sapatos vermelhos da A.
Barreiro, 7 de Julho de 1965
Telefonei à A. para lhe dar os parabéns e ficámos um tempinho a conversar e a rir, sobretudo a recordar este mesmo dia, há três anos atrás, quando, de férias na FNAT (1), a mãe, D. F., lhe ofereceu, mal ela abriu os olhos, uns sapatos de verniz vermelho com um salto de 3 cm, enfeitados com uma fivela dourada, em forma de coração, que tinham sido a nossa loucura desde que os víramos expostos, pela primeira vez, numa montra da Rua dos Ourives (2), em Setúbal.
Às vezes, saíamos do liceu com o tempo apertado para apanhar o comboio e, mesmo assim, em vez de irmos directas à Estação, que nos ficava muito mais próximo, ainda fazíamos um sprint até ao Quebedo (3), só para ter a oportunidade de atravessar a baixa comercial da cidade e dar uma olhadela aos sapatos, sempre sedutores, numa provocação absolutamente devastadora. Eram, na verdade, uma tentação. Também os pedi, vezes sem conta, à minha mãe, mas nunca fui atendida, sem culpas para ela. O problema nem sequer era o preço, custavam 70$00 (setenta escudos) (4), acessível; o problema era e é o meu pai, o desmancha-prazeres de sempre, atafulhado de preconceitos. Ainda hoje continua a dizer que sou muito nova para andar com sapatos de salto, nem sequer contemporiza com os de dois centímetros, que são minúsculos. A minha mãe, um pouco mais liberal, tem tentado bastante demovê-lo, insistindo nuns saltos pequenos, mas não consegue. Quando cisma para um lado, não sai dali, é um autêntico burro teimoso. Critica o Salazar mas é igual. Ditador. Diz que só me dá autorização para calçar saltos altos quando fizer 18 anos, que é a mesma idade em que me vai deixar dançar com rapazes, nos bailes. É um homem cheio de convencionalismos e “bardamerdas”.
A mãe, minha avó P., já lhe tem pregado grandes sermões por causa destes exageros ridículos, mas ele remata sempre com o mesmo imbatível arrazoado – ele é que é o meu pai e ele é que decide, como se a opinião da mãe não contasse para nada. Até parece que foi ele que me fez e me teve sozinho. Incrível. É um machista. As minhas amigas já usam todas saltos, como resultado natural de não terem, pois claro, pais obtusos e tacanhos como eu. Calhou-me a ovelha ranhosa na rifa. Este homem, quando morrer, devia ir para um museu. Não deve haver peça igual. Até para eu usar “soutien”, que é a coisa mais natural do mundo, ele deu uma luta danada, argumentando que não queria que eu andasse com as mamitas empinadas, como se fosse possível travar ou disfarçar a minha feminilidade. Foi preciso a minha mãe zangar-se a sério e afirmar, categoricamente, que ele estava a ser tolo porque o “soutien” não era um adorno mas um acessório essencial a qualquer rapariga.
Até a minha avó A., que não gosta de se meter nas ordens dele, lá lhe foi abrindo os miolos e explicando que o “soutien”, a partir de certa altura, é imprescindível no vestuário das mulheres, como se fizesse parte da nossa pele, não só porque ampara o peito, mas também porque o protege. Com o tempo, e a muito custo, lá se deixou convencer, mas foi logo dizendo que a dita peça tinha que ser simples, discreta, a mais sóbria possível para não me espetar o peito, nada que me faça dar nas vistas, nada que me exalte a aparência. Como nunca me vê nua, não sabe que ter ou não ter “soutien”, em termos de empinanço das mamas, é igual. O “soutien” é apenas para moldar, confortar.
Já percebi que, por vontade dele, eu não crescia, continuava a ser a mesma eterna criança que lhe pulava para o colo e ficava, durante horas a fio, a morder-lhe as orelhas.
Às vezes tenho a impressão de o meu pai não olhar objectivamente para mim; talvez queira poupar-se à dura realidade de constatar que eu cresci, que sou uma mulher, que até já podia ser mãe.
Por sorte, calço o mesmo número da tia M.; logo, quando vou para casa da avó P. passar uns dias de férias, a tia deixa-me usar os sapatos de salto dela, que até são de 4 cm, e sinto-me nas nuvens, feliz, com aquela sensação de me olhar no espelho e ver a imagem de uma mulher completa, da cabeça aos pés, no apogeu da minha natureza.
O tio L., sempre amoroso, critica a impertinência do meu pai e acredita que, um dia destes, ele vai ceder. Pois vai, quando eu for velha. O homem ainda não entendeu que não são os saltos que me fizeram evoluir; a transformação é interna, galguei a fronteira da adolescência e já me sinto no limiar de uma outra vivência, um outro estado de alma que nada tem a ver com a miúda irreverente e traquinas que fui, há uns tempos atrás.
Voltemos ao telefonema de hoje com a A., um tempinho breve, ela está na FNAT (1) e as chamadas são caras, mas que aproveitámos para recordar, entre explosões de risos, aquela bendita manhã do seu décimo quarto aniversário, quando ela, comigo ao lado e perante o olhar festivo dos pais e do irmão, abriu, num desembaraço só visto, o aguardado presente e os sapatos lhe saltaram para as mãos, deixando-nos absolutamente estarrecidas de espanto. Parecia um milagre caído do céu que, durante alguns segundos, nos deixou mudas de surpresa.
A seguir ao pasmo veio a exaltação, a euforia desmedida, os gritos, o arraial, o abraço cúmplice que trocámos e que ficará, tenho a certeza, na nossa memória, para o resto das nossas vidas. Os sapatos eram uma oferta para só ela usar, mas a fantasia era nossa, vivida e dividida a meias, dias a fio, diante da montra da Rua dos Ourives (2), narizes colados no vidro, olhos esbugalhados, corações ao rubro, sonhos em alvoroço.
Naquele dia, a loucura e o frenesim dentro de nós eram de tal modo absorventes que nem quisemos ir perder tempo à praia, como sempre o fazíamos pela manhã, pois nada mais neste mundo, para além dos benditos sapatos, nos atraía o interesse. A prioridade das prioridades era contemplá-los, experimentá-los, usá-los, senti-los, exibi-los.
O arrebatamento dos primeiros instantes foi absoluto, quase etéreo, com as duas deitadas na rede das sestas, os sapatos cuidadosamente colocados entre nós, afagados e mimados como se fossem um animal de estimação. Quem assistisse à cena e me visse tão devota diria, sem a menor dúvida, que os sapatos também me pertenciam. Acho que foram horas de sorrisos, de encantamento, de felicidade, a contemplá-los, a manuseá-los, a poli-los, a cheirá-los. A emoção tomava conta de nós e não tinha tamanho. O sonho de tantos olhares estava ali, nas nossas mãos, palpável, real, pronto a ser desfrutado.
A pressa de os estrear era inimiga do descanso e do bom senso; daí termos saímos com eles, logo a seguir ao almoço, enfrentando um calor tórrido, uma daquelas tardes abrasadoras de Julho que obrigava qualquer ser vivo normal a ficar tranquilo, debaixo de uma boa sombra. A D. F. não parava de nos recomendar que deixássemos passar as horas mais quentes para sair mas os nossos sentidos não funcionavam, nem sequer o calor nos atingia, como se a nossa pele tivesse ficado imune a temperaturas altas; naqueles momentos, só o sonho tinha prioridade e exigia que o cumpríssemos. E foi assim, entre o braseiro da tarde e as nuvens da fantasia, que enfrentámos o rigor do tempo e concretizámos o maior sonho da nossa adolescência.
A estreia dos sapatos coube-lhe, naturalmente, a ela, talvez os primeiros dez minutos, depois vieram para mim, mais cinco minutos, depois de novo para ela, depois de novo para mim e, nesta azáfama, os sapatos ora nos pés dela ora nos meus, atravessámos o salão e fomos galgando, num êxtase jamais experimentado, metros sobre metros, quilómetros e mais quilómetros, até a cegueira desanuviar e nos dar conta de terra à vista.
O devaneio tinha sido de tal forma intenso e inebriante que só descemos ao mundo real quando percebemos que já estávamos na Costa da Caparica. Por ali, não havia viva alma, parecia uma daquelas terras fantasma que às vezes vemos nos filmes de “cowboys”, varridas pelo medo ou por algum furacão. Visível ao olhar, só mesmo o pobre do J. V., irmão gémeo da A., que, por fazer igualmente anos, lá se arrastou, atrás de nós, a deitar os bofes pela boca, rosto afogueado pelo calor, corpo indolente, mas guiado pela esperança de alcançar, na nossa companhia, melhor programa do que ficar no campismo, sozinho, com os pais, perdido de tédio.
Disse-nos que tinha avisado para o facto de nos estarmos a afastar demais e que a maluquice dos sapatos nos estava a distanciar para além da fronteira que nos era permitida, mas nenhuma de nós o ouvira. O nosso único sentido disponível era a visão e essa estava presa àqueles sapatos e a todas as novas emoções que nasciam dentro de nós. Pela primeira vez na vida, tomávamos consciência de as nossas pernas não servirem apenas para andar e nem eram dois troncos que suportavam o corpo. As nossas pernas eram elegantes, lindas, e pareciam ter saído do torno de um oleiro.
A estafa foi amenizada com um belo lanche, no Café St António - pastelinhos de feijão, a especialidade da casa, para os três; refrescos de groselha para mim e para a A. e um pirolito (5) para o J. V. que puxava os galões da sua masculinidade dizendo que refrescos de groselha eram demasiado doces, destinado apenas às mulheres; os machos deviam beber vinho, cerveja ou pirolitos. Custou tudo 20$00 (vinte escudos), uma soma que nos satisfez em pleno pois proporcionava-nos a hipótese de usar o troco dos 25$00 que a D. F. nos tinha dado para o lanche, no emblemático carrossel que, no verão, sempre acampa num terreno baldio, entre St. António e a Costa. Àquela hora não havia ninguém a divertir-se, o calor só dava guarida a doidos, como nós, e por isso tivemos liberdade absoluta para escolher o lugar em que nos apetecia “viajar”.
Eu empoleirei-me num cavalo e eles em duas girafas, mas, a certa altura, enquanto o carrossel ondulava, a cabeça do cavalo, talvez porque o desassossego excedia o aconselhável ou porque o material não estaria nas devidas condições técnicas, deu de si, abanou, abanou e, sem que eu pudesse sustê-lo, caiu no chão, levando-me atrás. A A. e o J. V. desataram a rir às gargalhadas e o dono do carrossel, uma espécie de gorila de circo à solta, veio direito a nós e atribuindo ao nosso alvoroço a culpa do estrago, gesticulou, berrou e correu connosco, presenteando-nos ainda com um arremesso de palavrões, demasiado vernáculos para duas jovens raparigas. Nessa altura, éramos miúdos e fugimos, assustados, mas, se fosse hoje, chamava a GNR para verificar o estado de conservação do carrossel.
Regressámos à FNAT (1) e ao acampamento já com a tarde avançada, cansadinhos, estafadinhos, mas destilando, junto com o calor acumulado, orgulho, alegria, felicidade. O nosso sonho de meninas estava cumprido. Aquele dia ficaria como um marco inesquecível nas nossas vidas.
A seguir ao jantar, preparado com especial cuidado e requinte, atendendo à circunstância de estarmos no campismo, veio a hora do bolo e de soprar as velas, que a A. e o irmão apagaram, de forma elevada e soberana, absolutamente convictos de que aquele aniversário lhes abriria as portas de uma nova existência, mais independente, madura e responsável. Aos 14 anos eles sentiam-se, finalmente, gente crescida. Eu estava quase lá.
E foi também nessa noite, enquanto o J. V. soprava as suas velas que reparei, pela primeira vez, à luz pálida do “Petromax” (6), que uma penugem lhe crescia no buço e que, igualmente pela primeira vez, dava conta de uma especial e apaixonada troca de olhares entre ele e a T., uma miúda de Lisboa. O namoro chegou só no ano seguinte.
Depois do jantar, fomos ao cinema com o nosso grupo de amigos que, aliás, também tinha estado presente na abertura do bolo. Como habitualmente, protagonizámos o esquema que há anos vínhamos pondo, muito secretamente, em prática, isto é, só comprávamos metade dos bilhetes e os outros ficavam por conta do tal esquema. Primeiro entrava quem tinha bilhete, mas tentava passar entre a multidão sem dar o bilhete a cortar ao porteiro. Depois, sentava-se cinco segundos, levantava-se, fazia de conta que precisava de vir cá fora, pedia uma senha que entregava a quem não tinha bilhete e depois entravam dois, um com o bilhete ainda intacto e o outro com senha. Quem não tinha bilhete tinha que se sentar nos lugares da frente, sabendo que ninguém os desejava. Na primeira parte, enquanto eram exibidas as notícias e os desenhos animados, identificávamos as cadeiras que estivessem melhor colocadas e disponíveis e, na segunda parte, exactamente quando começava o filme, sentávamo-nos nelas, sabendo, de antemão, que estavam vazias. Com esta habilidade tínhamos cinema toda a semana pois revezávamo-nos na compra dos ingressos. E, por mais incrível que pareça, isto funcionou anos, sem sermos descobertos, nem pelos porteiros, nem pelos nossos pais. Uma espécie de código secreto. Se a F. B. (7) soubesse disto, desfalecia.
Só falta contar que os nossos maravilhosos sapatos de verniz, lindos, lindos, lindos de morrer, acabaram o dia completamente abocanhados e, pior que tudo…… sem fivelas!
O A. ainda não apareceu na FNAT (1). Fiquei um pouco triste, mas, na realidade, não tinha grandes esperanças. Na verdade, já o sinto tão longínquo, a imagem já está tão desfocada que, provavelmente, também já saiu do meu coração.
X
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Notas:
(1) A instituição antecessora do actual INATEL.
(2 Importante zona comercial setubalense. Por lá pass(e)ávamos, longe do Liceu.
(3) Praça do Quebedo – apeadeiro de Setúbal.
(4) 70$00 (setenta escudos) – cerca dos actuais trinta e cinco cêntimos.
(5) Pirolito – bebida gasosa da nossa infância. No Barreiro, o empresário José Gouveia, criou a sua própria empresa da espécie, em 1927.
http://ruimacdonald.com/wordpress/?p=7367 consultado em 1-7-2011.
(6) “Petromax” – lanterna de origem alemã do início do século XX (1910), o petróleo utilizado como combustível. http://www.petromax.com/OP.htm , consultado na data atrás referida.
A empresa portuguesa «Hipólito» adaptou tal objecto.
http://lisboacity.olx.pt/lanterna-petromax-antigo-muito-estimado-quase-novo-iid-171541228 , também consultado na data referida em (5).
(7) Nossa contemporânea e amiga, já falecida.
(Manuela Fonseca)














