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Quotidianos

O Fantasma do Barreiro Velho (*)Por Florbela Viegas
Barreiro

O Fantasma fez questão de me mostrar o seu Castelo, outrora imponente, e conduziu-me, passo a passo, por todos os recantos dos seus domínios. Era o seu Império e todos os seus súbditos tinham trabalho e casas caiadas de branco amarelo e azul, com jardins floridos e árvores de esperança. Havia crianças, muitas crianças, a brincar nas ruas, felizes.

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O Fantasma do Barreiro Velho (*) Por Florbela Viegas Barreiro

Por Jornal Rostos

Numa destas noites, uma bela e quente noite de luar, resolvi sair um pouco. Queria caminhar pelas redondezas, espairecer as ideias, apreciar o brilho do rio e respirar o ar fresco da noite, com o seu odor a maresia. Alguém me recomendou que não andasse sozinha pelo Centro Histórico. Indaguei o motivo daquele estranho aviso, e disseram-me:
- “Coisas muito estranhas acontecem no labiríntico Barreiro Velho. Dizem que, em noites de lua cheia, aparece por lá uma assombração dançante. Segundo os relatos de quem o viu, o Fantasma surge sorrateiro, e persegue, como uma sombra, quem ouse penetrar nos seus domínios. É a figura alta e luminosa de um homem trajando uma capa escura, de fantasma silencioso e impertinente”.
Como nunca tive medo de fantasmas, nem quando era criança, fui caminhando através do silêncio daquela quase madrugada, ao mesmo tempo que me recordava dos estranhos sonhos que me têm ocorrido ultimamente, geralmente em noites de lua cheia, como aquela.
Mergulhada nas profundezas do meu ser e de todas as minhas recordações, percorri o Barreiro Velho, regressando a casa, algum tempo depois, quedando-me sentada nas escadas, antes de entrar, para descansar um pouco, desfiando velhas lembranças. .
Pareceu-me escutar um brando sussurro, vindo de uma janela próxima, seguido do barulho de uma persiana a fechar rapidamente.
Numa casa em frente, um homem abre uma porta, vem ter comigo, e pergunta-me, visivelmente assustado:
- “Não viu, nem ouviu nada? É noite de lua cheia. O Fantasma já deve andar por aí a fazer das suas. Dizem que é a figura fantasmagórica do Conde do Barreiro Velho, vestido com a sua capa de nobre, que é visto a vaguear pelas ruas desta parte da cidade, em certas noites de luar, a assustar as pessoas, em protesto pela forma como têm sido geridos os seus domínios. Não devia andar por aí sozinha. Se fosse a si, ia já para casa, e trancava-me a sete chaves”.
Dizendo isto, voltou para casa, batendo fortemente com a porta, deixando-me ali especada e curiosa, pois se há coisa que gostaria de ver, pensei eu com os meus botões, era um fantasma verdadeiro, ao vivo e a cores.
Nesse mesmo instante, a lua desapareceu do céu e a noite fez-se escura como breu. A brisa cálida transformou-se em arrepio de frio e uma neblina densa começou a percorrer as ruas, envolvendo toda a cidade, numa espécie de nevoeiro.
Foi então que o vi.
Fiquei paralisada sem saber o que pensar ou o que fazer. Seria por medo? Sinceramente, não sei. Nunca me tinha acontecido semelhante e, por isso, não reagi.
Ele não parecia sisudo, nem agressivo. Simplesmente estava à minha frente, e olhava para mim como se eu não estivesse ali. Olhou-me fixamente, com uma expressão que achei simultaneamente curiosa e divertida. Senti que não o incomodava, mas ele não se manifestou.
Atrás de si, uma luz brilhante conferia-lhe uma aura de Santo, ao mesmo tempo que me estendia a mão onde usava o seu distinto anel de brasão, e me cobria com parte da sua capa de veludo escuro, bordado a ouro, que funcionava como porta de passagem para o passado.
Entrei, pela sua mão, no seio de uma neblina lilás e o meu corpo começou a ficar pesado. A angústia começou a tomar conta de mim e lá fomos de lugar em lugar, até ao passado, passando pela Rua Onze e pela Rua Dezasseis, pelas fábricas da CUF, pelos Penicheiros, pela SFAL, pelos Franceses, numa espécie de bailado interminável, até à Rua Marquez de Pombal.
O Fantasma fez questão de me mostrar o seu Castelo, outrora imponente, e conduziu-me, passo a passo, por todos os recantos dos seus domínios. Era o seu Império e todos os seus súbditos tinham trabalho e casas caiadas de branco, amarelo e azul, com jardins floridos e árvores de esperança. Havia crianças, muitas crianças, a brincar nas ruas, felizes.
Foi então que, do meio do nevoeiro, surgiu uma procissão. Vários penitentes usando túnicas negras, segurando velas acesas e entoando ladainhas tristes sobre o futuro, percorriam o Barreiro Velho. Detive-me a ver passar tão estranho cortejo e, em dado momento, uma daquelas criaturas oferece-me uma vela que o Fantasma não me deixou aceitar.
Disse-me que aquela procissão era um cortejo de mortos, cumprindo a sina de almas penadas que, sem descanso, tinham como missão assombrar os vivos.
Cobrindo-me, de novo, com a sua capa de veludo, fez-me regressar ao presente, sem sequer se despedir de mim.
Estava agora na entrada da minha casa. A lua brilhava, feliz, e a tal sombra dançante já não pairava no ar.

À minha volta, os edifícios degradados confirmam que estou, de novo, no Barreiro Velho.
Mas a cidade dorme, embalada por um Fantasma que a engole por dentro.
Hoje é noite de lua cheia.

O Fantasma vai aparecer, e vai andar por aí, a fazer das suas.

Florbela Viegas

(*) Nota: Texto escrito fora do Acordo Ortográfico, dedicado a Vladimiro Mousinho e a todos aqueles que amam o Barreiro Velho.

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