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Quotidianos

Desejo-vos o suficiente!(*)Florbela Viegas
Barreiro

- «Desejo-lhe Sol suficiente, para aquecer o seu coração e chuva suficiente para dar mais valor ao Sol. Alegria suficiente para manter a sua boa disposição e perdas suficientes para que possa apreciar tudo aquilo que ganhar. Saúde suficiente para poder trabalhar e desejo-lhe também muitos “até breve” para que nunca tenha de dizer “adeus”.

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Desejo-vos o suficiente!(*) Florbela Viegas Barreiro

Por Jornal Rostos

No Aeroporto de Luanda, no regresso de uma das minhas viagens de férias a Angola, assisti, por acaso, à despedida de um pai e de uma filha.
“Desejo-te o suficiente”, disse ele à filha.
Através da instalação sonora, foi anunciado que todos os passageiros se deveriam dirigir à porta de embarque, uma vez que se aproximava a hora do vôo com destino a Lisboa.
A jovem acompanhou o progenitor. Caminhavam os dois, à minha frente, de braço dado, numa fila compacta, que deveria ter à volta de cem pessoas e, dada a proximidade, não pude deixar de ouvir a conversa entre ambos.
A jovem dizia, com um semblante carregado e triste:
- «Papá, a vida que nós os dois vivemos juntos, foi muito mais do que o suficiente. O teu amor é tudo aquilo que eu sempre desejei. Desejo-te o suficiente, também, Papá!».
Beijaram-se e abraçaram-se, com ternura, antes de entrarmos no pequeno autocarro que nos levaria ao avião, e ela foi-se embora, com os olhos rasos de lágrimas, acenando com tristeza.
Fiquei impressionada com a forma corajosa como ambos se desligaram um do outro, e tive a sensação que, naquele instante, algo se quebrou entre aqueles dois seres que ficaram à mercê daquilo a que alguns costumam chamar “destino” .
Entrei no avião e procurei o meu lugar junto à janela. Tentei não pensar mais no assunto e tirei da minha bolsa, um dos livros que não conseguira acabar de ler, durante aquelas curtas férias da Páscoa, passadas em terras de África, o belo Continente que me viu nascer.
O Pai da jovem, pensativo, andava há vários minutos, à procura do lugar que lhe estava destinado. De lugar em lugar veio em direcção ao local onde eu estava sentada e, com um suspiro de alívio, despiu o casaco e tirou a gravata, sentando-se de seguida, no assento ao lado do meu, que tinha o tão procurado número.
Acaso do destino, pensei eu. Mas por que motivo haveria de ser logo no lugar ao lado do meu?
Fiquei a observá-lo, algum tempo, pelo canto do olho. Reparei que ele queria e precisava de chorar e, embora angustiada com a situação, não ousei perturbar a sua privacidade, esperando que ele se acalmasse.
Foi então que ele secou as lágrimas e reparou em mim. Cumprimentou-me, perguntando-me:
- «A Senhora já alguma vez disse “até breve” a alguém, tendo a certeza que seria um “adeus”»?
- «Sim, já», respondi, ao mesmo tempo que me recordava do meu Pai, e de uma das vezes que falei com ele, no seu leito de hospital, quando os médicos me disseram que me ouvia e compreendia perfeitamente, mas que não poderia responder-me jamais. E eu, sabendo que o tempo por vezes é limitado, e nos prega grandes partidas, tenho conseguido dizer-lhe o quanto ele significa para mim, e digo-lhe “até breve” todos os dias, porque sei que , mais dia menos dia, terei de lhe dizer “adeus” .
Compreendi perfeitamente o dilema daquele homem. Perguntei-lhe o motivo por que achava que aquela sua despedida seria um “adeus”.
- «Sou viúvo. Estou a ficar velho e doente. É a minha única filha e vive muito longe de mim. O marido é angolano, têm a vida organizada em Luanda e o mais certo é que o seu regresso a Portugal, seja para assistir ao meu funeral», respondeu-me ele.
-«Desculpe-me a curiosidade e perdoe-me se estou a ofendê-lo, mas não pude deixar de ouvir o que disseram, quando se despediram. Quando a abraçou, ouvi-o dizer-lhe: “desejo-te o suficiente”. Posso perguntar-lhe o que significa isso?».
O meu companheiro de viagem desatou a rir à gargalhada. Finalmente via-o sorridente e bem disposto e fiquei surpreendida.
- «Esse é um desejo que é formulado na minha família há várias gerações. Os meus Avós, os meus Pais, costumavam dizer isso, a todos aqueles que amavam e estimavam: “ Desejo-te o suficiente”. Quando desejamos a alguém o suficiente, esperamos que a vida dessa pessoa seja razoável, plena de coisas suficientes que lhes permita terem uma vida feliz», explicou.
Ele continuou a sua explicação, recitando alguns exemplos de cabeça, ao mesmo tempo que dizia “desejar-me o suficiente”.
- «Desejo-lhe Sol suficiente, para aquecer o seu coração e chuva suficiente para dar mais valor ao Sol. Alegria suficiente para manter a sua boa disposição e perdas suficientes para que possa apreciar tudo aquilo que ganhar. Saúde suficiente para poder trabalhar e desejo-lhe também muitos “até breve” para que nunca tenha de dizer “adeus”.
Dizendo isto, soluçou e foi-se.
Chamei uma hospedeira que avisou o Comandante. Como estavamos a menos de duas horas de vôo, de Luanda, voltámos para trás.
O seu “até breve” tinha-se concretizado, mas acabou no tal “adeus”.
Dei comigo a desejar-lhe o suficiente, para que pudesse descansar em paz, agora mais perto da sua filha querida.

Porque a vida não é medida apenas pelo ritmo com que respiramos, mas também por todos aqueles momentos que nos tiram o fôlego, desejo-vos o suficiente.

Florbela Viegas

(* ) Texto escrito em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico

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