O Passeio RetomadoPor Manuela Fonseca
Barreiro
Hábeis, “Chila” e “Lena” deram o primeiro banho à criança, dois meses depois do nascimento, e, finalmente, puderam vesti-la com as roupas que tinham emendado para a prima ficar bonita.
Tais roupas tinham uma história de que as raparigas se orgulhavam: tinham copiado, discretamente, através de desenhos em papel vegetal, modelos expostos em estabelecimentos de moda infantil da capital, que passariam para os tecidos, comprados com cuidado, trabalhados com esmero.

Por Jornal Rostos
Tinham esperado uma década por ela (quatro crianças, anos antes, dolorosamente perdidas, à nascença; ou poucos dias depois).
A mãe, com os horários irregulares do marido – que tão bem conhecia por causa da mesma profissão do pai e do sogro, a de maquinista –, precisara da ajuda das sobrinhas, cuja infância e adolescência ela já apoiara, na árdua tarefa de criar e educar uma criança que nascera prematura, com os poucos recursos do fim da década de quarenta do século vinte e do início da posterior.
As raparigas talvez tivessem sentido que recompensariam Maria e Cristiano pelo que lhes tinham dado.
Hábeis, tinham criado o novo enxoval para a criança, apenas em algodão em rama, exactamente como recomendara o ilustre Pediatra, Doutor Luís Maria Estêvão Cabrita – amado por gerações de Barreirenses que acompanhara até muitos deles serem adultos. O que aconteceria com a garota que sempre vira nele uma pessoa de família.
Maria Manuela – cujo nome fora uma homenagem aos avós maternos que só conheceria de narrativas dos que a rodeavam, ela, rigorosa, a casa sempre impecável, o avô, excelente homem que, na progressão de carreira até à chefia, defendera, quase sem falar, os seus maquinistas de algum castigo injusto, hábito do fascismo – chegara de forma precoce e atribulada, amparada por uma vizinha da mãe e a avó, Maria da Conceição, até à chegada da D. Joana, a Parteira, e da Doutora Maria Margarida de Brito Bolala, a Ginecologista que também acreditara no êxito de uma gravidez que acompanhara desde o princípio. Terminada a delicada tarefa, chamara logo o citado colega.
(Diria o Pediatra que a sobrevivência da “Lenita” – sempre assim a chamara devido ao nome de uma das primas e madrinhas, Helena –, tão pequena e frágil, fora uma das suas coroas de glória, apresentada em trabalhos de estudo e investigação que efectuara.
Diriam a Ginecologista e a Parteira como fora difícil o início da vida daquela menina; nunca saberia a segunda, mulher de acção, rara na sua época, que nem a guerra colonial tinha amedrontado, que também trouxera ao mundo o que, um dia, seria marido da pequena e decidida sobrevivente.)
Hábeis, “Chila” e “Lena” deram o primeiro banho à criança, dois meses depois do nascimento, e, finalmente, puderam vesti-la com as roupas que tinham emendado para a prima ficar bonita.
Tais roupas tinham uma história de que as raparigas se orgulhavam: tinham copiado, discretamente, através de desenhos em papel vegetal, modelos expostos em estabelecimentos de moda infantil da capital, que passariam para os tecidos, comprados com cuidado, trabalhados com esmero.
Com vinte e um e dezanove anos, respectivamente, passeavam a bebé – que levavam, amiúde, ao Parque, então com o nome do ditador, perto da rua onde viviam, a António José de Almeida, logo que o Inverno passara e ela recuperava, lentamente, do nascimento.
Iam com a tia e a pequena ao Pediatra, corriam à Farmácia Central quando havia necessidade de medicamentos – a Doutora Maria Isilda Martins Pires chegara a preparar, fora de horas, as prescrições do especialista de doenças infantis para que a menina continuasse, com êxito, a luta.
A mais velha das primas diplomar-se-ia em Francês e Inglês (os Institutos da especialidade onde se formara apenas possíveis porque Lisboa estava perto e o passe social que a Companhia dos Caminhos-de-Ferro lhe fornecia por causa do pai, nela electricista, permitia-lhe ir até lá.
Além disso, estudara bastante, as duras tarefas domésticas terminadas, à noite, à luz do candeeiro a petróleo – embora houvesse electricidade em casa, o dinheiro era escasso para pagá-la –, uma pequena colaboração do tio em relação à primeira disciplina).
Concluída a instrução, começara a ministrar a primeira dessas Línguas quando a miúda perfez os quatro anos e incutiu-lhe, para sempre, o amor por tudo o que se relacionasse com a Cultura Francesa, que viria a ser um dos objectos de estudo privilegiado de ambas, bem como origem de vários e frutuosos diálogos.
Também complementara o ensino da natação, iniciado pelo tio, homem de rara erudição e de uma dedicação exemplar à descendente.
A mais jovem iria com o “bijou”, como era referida pela tia paterna, Maria da Conceição, à primeira classe de ginástica infantil do Barreirense, amor de família, no bem recente Ginásio-Sede, hino de amor ao Clube, crença no trabalho voluntário e no progresso da então vila ribeirinha.
Tudo Maria Manuela relembra, hoje, no silêncio do escritório, quebrado pela preferida TSF: o crescimento, a rebeldia de adolescência (ou de uma vida?), divergências, várias, com as madrinhas a partir daí: o tempo tudo levara e relativizara.
Durante o longo e grave período por que – assim o esperava – passara, zangada com a doença “que não merecia”, as primas, já idosas, tinham-na encorajado e nunca o esqueceria.
Relembra, ainda, que elas lhe contavam que Cristiano aguardara, durante uma década, um rapaz, outro futuro maquinista.
Na locomotiva soubera do nascimento; tivera permissão para entregar, na Funcheira, o serviço a um colega e voltar ao Barreiro.
Chegado a casa, ao ver a filha pela primeira vez, lágrimas de felicidade que não paravam, um pequenino rosto no qual logo se revira, esquecera o imaginado herdeiro.
Determinara, certamente influenciado pela vocação de “Chila”, naquele momento solene, esquecido do combate, do tamanho e do peso da filha, que a mesma seria, um dia, professora de Português e Francês.)
Os sonhos tinham-se concretizado para orgulho das primas. Poderia ter trilhado com elas outros caminhos mas a vida é fértil em surpresas; já tinham desaparecido, há muito, os tempos menos agradáveis; retomara, nos encontros com ambas, o passeio que fora interrompido.
Como se ainda estivesse com elas, em criança, na Mina de S. Domingos, no casamento que unira a prima Claudina a José Ribeiro.
Ou em Albufeira, à sombra do Peneco.
(Ia dizer isso ao marido e aos filhos.)
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos














