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Quotidianos

O homem que coleccionava pétalas de rosaPor Florbela Viegas
Barreiro

A Senhora vai escrever esta história, não vai? Deixo-lhe aqui o meu cartão, com o meu nome e morada, para o caso de um dia precisar de mim, ou no caso de querer ir lá pôr-nos umas flores, quando eu me finar”.

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O homem que coleccionava pétalas de rosa Por Florbela Viegas Barreiro

Por Jornal Rostos

Ao longo da vida, por vezes passamos por algumas situações que não queremos, ou não estamos dispostos a recordar, pelo desconforto que nos causam.
Provavelmente, alguns de vós já viveram momentos muito felizes e outros menos felizes, e também conheceram pessoas que, sem que saibam muito bem porquê, acabaram por caír nas profundezas do esquecimento, ou sumiram nos confins da memória, aquela memória que é perene e que emerge, de cada vez que remexemos naquele velho sótão onde temos por hábito guardar todas as nossas recordações, e encaixotar velhas lembranças.
Por isso costumo dizer que o passado não é esquecimento. Num abrir e fechar de olhos, num piscar de alma, por muito que se queira esquecer, ou até relembrar, as boas e más recordações abraçam-nos e sufocam-nos, exactamente quando não estamos preparados, ou quando menos esperamos que tal aconteça.
Há quem, como eu, por efeito da imaginação, dê vida a tantas coisas impossíveis, ou então as escreva, para que as possa colocar, um dia, numa daquelas estantes empoeiradas, daquela biblioteca de recordações, que todos nós possuimos. Somos os tais que ainda vamos cultivando lembranças, como se fossem jardins perfumados, onde colhemos as flores da nossa inspiração, em forma de amores e desamores, alegrias e tristezas, ódios, desejos e paixões e muitos afectos que nos fortalecem a alma e ajudam a viver com serenidade.
O Protagonista desta história é alguém que conheci, por acaso, numa soalheira manhã de Inverno, quando me encontrava a escrever um texto, sentada num dos bancos de um jardim do Barreiro, virado para o rio. Uma lufada de vento, apanhando-me desprevenida, tinha espalhado, pelo chão molhado, as folhas onde eu tentava fazer um esboço de uma história que estava a custar-me transferir para o papel.
Surgido do nada, alto, magro, de cabelos brancos, semblante triste e olhar carregado, alguém prontificou-se a ajudar-me, recolhendo as folhas, uma a uma, juntando-as num maço sujo e amarrotado, que veio entregar-me.
Fiquei embaraçada. Afinal de contas, as folhas eram minhas e foi ele que as apanhou, quase todas, deixando-me ali como espectadora passiva, de uma função que deveria ter sido eu a executar.
- “Muito obrigada. Para que esteve a incomodar-se? O Senhor já não tem idade para se esforçar, assim, dessa maneira, e ainda por cima com este frio. Fez-me sentir uma inútil. Assim não vale. Sinto-me envergonhada”.
Sorriu-me e foi então que reparei que não me era totalmente estranho. Costumava vê-lo a deambular pelo parque da cidade, sozinho, e já o tinha encontrado, por diversas vezes, a comprar flores, no mercado municipal.
- ”Deixe-se disso. Há muito tempo que reparo que costuma vir para aqui, e está sempre muito concentrada na escrita, apesar de o frio. Tenho-a observado de longe e já tenho comentado sobre si, com um amigo meu, pela forma como acaba por rasgar todos os rascunhos das histórias que insiste em reescrever, apesar de já as ter terminado, há muitos anos atrás. Eu sei o que isso é. Não pude deixar de ler uma das folhas que escreveu, enquanto as apanhava. Está a escrever sobre rosas, não é? Eu gosto muito de flores e até faço colecção de pétalas de rosa. Talvez, um dia destes, quem sabe, a Senhora decida escrever uma história sobre rosas e sobre mim”.
Fiquei com a sensação de que o homem deveria ser bruxo, ou qualquer coisa parecida. Como poderia ele saber que eu tentava escrever sobre rosas, se, em nenhuma daquelas folhas, consegui escrever, o que quer que fosse, sobre o assunto?
Sentou-se ao meu lado e começou a contar-me a sua história, uma história povoada de boas recordações e doces lembranças.
- “As rosas vermelhas sempre foram as suas preferidas e a minha mulher também se chamava Rosa. Quando fazia anos, enviava-lhe umas quantas, pelo correio, num envelope almofadado, por brincadeira, atadas com um simples cordel. Outras vezes mandava-lhas, só por mandar, sem nenhuma ocasião especial, apenas e só, para lhe dizer que a amava. Foi o meu primeiro e único amor. Ela corria a metê-las em água, na sua jarra preferida, e elas duravam uma eternidade. Quando murchavam, guardava as pétalas secas, em pequenas caixas de madeira perfumada, que distribuía, alegremente, por todos os móveis e recantos da casa.
Desde o dia em que morreu, quando posso, levo-lhe sempre rosas vermelhas, que ela tanto gostava. Quando murcham, recolho as pétalas secas e guardo-as, como ela fazia, em caixinhas de madeira, que compro nos chineses. Mas como já não tenho espaço em casa, arrumo-as no sótão, junto às caixas de fotografias, cartas, poemas, bilhetes, e tantas outras coisas que escreviamos um ao outro, sobre nós, incluindo as orações que inventei, implorando a Deus que não a levasse tão cedo, da minha companhia.

Agora sinto que está a aproximar-se o fim, porque estou a ficar cansado de viver sem ela, e já não faço cá falta nenhuma. A solidão doi. Está na hora de ficarmos juntos novamente.
Pedi a um grande e fiel amigo que, quando essa hora chegar, nos coloque uma ou duas rosas vermelhas, de vez em quando, no sítio onde ficaremos juntos para sempre. Ele já me prometeu que o fará, enquanto for vivo, e eu confio na sua palavra.
A Senhora vai escrever esta história, não vai? Deixo-lhe aqui o meu cartão, com o meu nome e morada, para o caso de um dia precisar de mim, ou no caso de querer ir lá pôr-nos umas flores, quando eu me finar”.
E riu-se. Achei piada à forma descontraída como aquele homem antevia e encarava a possibilidade de morrer resignado. Dei-lhe dois beijos de despedida, desejando-lhe uma vida longa e feliz. Disse-lhe o meu nome e reparei que ficou surpreendido, pelo facto de me chamar Flor. Aconchegando a gola do sobretudo, lá foi caminhando, vagarosamente, de mãos nos bolsos, sozinho, com o mesmo semblante triste e olhar carregado.
Nunca mais o vi, nem soube nada dele, até ao Inverno seguinte.
Naquela manhã chuvosa e fria, aquele café era o único sítio onde eu queria estar. Tinha vindo passar o Natal, ao Barreiro, e apetecia-me uma daquelas deliciosas bolas de manteiga com leite chocolatado, quente, que nunca encontrei em parte nenhuma, como ali.
Decidi que, naquele dia, iria, finalmente, escrever a história daquele homem que coleccionava pétalas de rosa, e comecei, logo ali, a imaginar um texto.
Sentei-me numa das mesas do fundo, e fiz o meu pedido. Alguém tinha deixado, esquecido, um jornal que aproveitei, para ler as últimas sobre a cidade.
Cheguei a uma página onde vinha uma notícia, com uma pequena foto que reconheci imediatamente. Dizia que um idoso tinha sido colhido mortalmente por um comboio, ao atravessar a linha, num local onde era proíbido fazê-lo. A polícia não encontrou explicação para o sucedido, e admitia a hipótese de suicídio.
Era ele, o homem que eu conhecera, no ano anterior, e que tanto me impressionara.
Morreu e ninguém notou. O Mundo continuava a girar e a vida seguia o seu curso, porque o homem que gostava de flores e coleccionava pétalas de rosa, já não fazia cá falta.
Baixei-me, para apanhar o lápis que entretanto caíra ao chão.
Quando me ergui, quase fiquei sem respiração e as lágrimas inundaram-me os olhos, ao vê-la.
Sobre o meu bloco de rascunho, ainda vazio e em branco, repousava, viçosa, em pleno mês de Dezembro, a mais bela e perfumada rosa vermelha, de Maio.

Florbela Viegas

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