Os Papéis e os Cartões TrocadosPor Manuela Fonseca
Barreiro
Pelo menos no seu país. Pertence a esse grupo, cada vez maior.

Por Jornal Rostos
Tânia – nome dado em homenagem à última mulher amada por Guevara que, com ele e outros companheiros idealistas, tinha sido arrancada à vida, numa aldeia da Bolívia, nesse já tão afastado fim da década de sessenta.
Facto então sussurrado entre os progenitores e os amigos, colegas de Liceu e luta política – a possível – contra o salazarismo.
Tinham a informação, clandestina e suficiente acerca dos assassínios: obra da CIA, em actuação terrorista com os cúmplices, gente do exército daquele país da América Latina, a que capturou e executou os sonhadores.
(Com o tempo, estudo, logística e descaramento para os cercar, encarcerar, matar.)
Quase seis anos depois, o mesmo aconteceria no derrube do regime democrático chileno, que, brutalmente, esmagou o Presidente Salvador Allende, muitos milhares de compatriotas e pessoas de outras terras, naquele Setembro de mil novecentos e setenta e três, o último do regime ditatorial português.
Reuniões – cada vez menos homogéneas, cada vez mais participadas e, inversamente, cada vez menos medrosas – anunciavam o derrube da opressão portuguesa.
Marcadas pelo exemplo de vida e força dos que tinham acreditado na emancipação do Homem.
(Os pais ainda se emocionam com essas bestialidades.
E com a mentira, mítica, de um sistema político do povo para o povo. O fim da “Primava de Praga” marcou-os para sempre.)
Tânia caminha devagar, naquela Avenida (Nova), em Lisboa; gosta da artéria, da arquitectura, das árvores e plantas na ligação com outra.
Atraem-na o espaço e a luminosidade.
Uma mulher pobre, talvez da sua idade, talvez romena, blusa já debotada, saia comprida, chinelos baratos de borracha, aproxima-se:
– Senhora…
Dá-lhe uma moeda como, há minutos, lhe aconteceu com um idoso.
(Pensa nos avós, amigos e simpáticos: apetece-lhe – sempre – brincar com eles, beijá-los e gritar-lhes a alegria que sente pelo razoável nível financeiro que os torna independentes.)
Edifícios bonitos, muitos deles ligados a sectores de serviços prósperos, complementados por automóveis de grande qualidade junto aos locais de trabalho ou residência, homens e mulheres com roupas modernas e caras.
E o contraste que poucos parecem interessados em resolver: os que, por ali perdidos, pedem esmola.
Pertence aos que, muito pequenos no 25 de Abril, andaram com os pais nas manifestações políticas – ao colo, às cavalitas.
Era Pinheiro de Azevedo o Primeiro-Ministro quando trabalhadores da construção civil cercaram o Parlamento, apoiados pelos que acorreram, aos milhares, à parte externa do Palácio de S. Bento e, com eles, partilharam ilusões, cânticos, euforia, alimentos levados em sacas.
Não se lembra desse histórico momento, claro, mas sabe que dormia e chuchava no dedo, encostada ao pai, no meio da multidão.
Quando Eduardo nasceu, Portugal parecia caminhar para uma democracia avançada: a menina e o irmão ouviam dos pais histórias infantis que os repousavam e adormeciam.
Certamente já se diluíra nela, entre outras, a noite do uníssono: “Soldados, libertem o Peralta!”.
(Exigência em relação a um oficial cubano, detido por razões políticas antes da Revolução, por libertar nos primeiros dias da mesma. Seria mandado em paz.)
Tânia nunca culpou os autores dos seus dias pelos seus insólitos primeiros tempos; ama-os, cada vez mais, por serem “malucos”, como alguns familiares os definiam quando levavam a bebé para as saídas extemporâneas.
Parece-se com eles, gosta disso. E ouve, intimamente, o pai:
– Rebuscaram palavras maçadoras no restrito código linguístico; certas vozes, coitadas, não chegam a nenhuma parte.
Pertencem, aliás, à “maioria silenciosa”.
Agradece-lhes terem-na educado assim – a memória de antepassados (maltratados, presos, mortos pela bárbara e ignorante polícia política) exigira-o e fora honrada.
E costuma comentar:
– Lindinhos, meus pais de dez estrelas em cinco; nem se chateiem com o que lá vai!
A mulher comenta para si própria, quase sem dar por isso, ao ver duas jovens que, a bica tomada a correr, voltam para um estabelecimento comercial:
– Ainda há quem tenha trabalho!
Formula desejos, já parada no largo passeio:
– Que estas lojas se aguentem! E todos os que continuam a dar empregos e criar postos de trabalho!
Depois do primeiro levantamento mundial de há dias contra a falta de vergonha que rouba vidas, actividades produtivas, salários, bancos, habitações, estabelecimentos – de saúde, acolhimento aos mais necessitados, escolares –, estará com os indignados, na rua.
Pelo menos no seu país. Pertence a esse grupo, cada vez maior.
Antes de os miúdos e ela irem ter com o João Gabriel, na paragem de Natal.
(Irrita-se, subitamente, por ter o marido no Dubai, em ganha-pão que um engenheiro civil deixou de ter em Portugal.
Elogia, mentalmente, o Bispo D. Januário Torgal, numa excelente utilização do tempo de antena, na RTP, a verberar o roubo, cada vez maior, que se faz às pessoas, através dos “sacrifícios” a que são obrigadas.
Sem o presente em troca.)
Só não levará os filhos porque gosta pouco da Polícia de Intervenção.
Que diabo: vire-se para outros lados (não é ela constituída, maioritariamente, por gente do povo?!) e vá buscar os que, gatunos da população portuguesa, deviam “juntar-se”, na prisão, ao chefe da quadrilha engravatada – que se espalhou, com o seu nojo, no Mundo –, Bernard Madof.
(Nunca mais acabam os papéis trocados neste Palco da Vida?
Mas…
… Como tantas vezes cantou ou disse: “A luta continua!”)
Olha para o prédio de cinco andares onde deve estar o médico que acabou de observá-la.
O Doutor solicitou-lhe, no consultório quase forrado a livros, o cartão da ADSE.
– Minha senhora, este é um documento de outra organização.
Dá-me o que lhe pedi, por favor?
Tinham sorrido os dois por causa do acto falhado: Tânia apresentara ao facultativo o da sua organização sindical…
Pois é ao Sindicato que vai agora.
E pensa no título de um texto, recente, de um colega: “Professor de intervenção!”
Tal como tantos, ela incluída.
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos
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Referências
Manuel Nobre, “Professor de Intervenção”, p. 9, in “Jornal da FENPROF” (n.º 253). Lisboa, Setembro, [de 20]11, 31 pp..














