Os Escolhos e a VitóriaPor Manuela Fonseca
Barreiro
Helena já cantou pelas ruas: “Venceremos!” Pensa, agora: “Vencerão!”

Por Jornal Rostos
Os Escolhos e a Vitória
(À Maria do Céu Mendonça)
Como habitualmente, Ricardo senta-se no sofá da sala para ver “Inspector Max”, interessante série policial portuguesa.
Helena está ao lado do filho, sabedora da alegria com que o jovem acompanha os fenómenos mediáticos
E, neste, os episódios cativam-no, embora em repetição.
Nasceu com dificuldades, várias superadas, através dos anos, com os tratamentos e coragem, como os médicos prognosticaram mais de trinta passados, numa tarde quente de Julho, no hospital onde nasceu.
Estudou enquanto lhe foi possível e, com apoio, chegou cedo à área laboral.
Talvez pelos problemas sociais que afligem o Plante, Portugal, mãe e filho deixam, por momentos, a televisão e entreolham-se, o trabalho como motivo:
– Se fosse hoje, se calhar nem eles eram actores nem eu tinha nada para fazer, metido em casa, aborrecido, cheio de sono, aflito por não ter uma actividade e um salário.
A mulher não se contém:
– Em casa, maroto? Sais pouco, sais…
Sente-se injustiçado:
– E a companhia que te faço não conta?
Helena sabe da importância dos cuidados clínico, familiar, de um restrito grupo de amigos nos últimos quatro anos e meio, tão difíceis de passar, os dois primeiros com os dias contados um a um.
E sempre as atenções, insuperáveis, de Ricardo.
– Como vos agradeço, amor!
Sim, tens estado muito comigo, numa grande ajuda. E ficas cá, ao computador e a ler, o que é óptimo para mim.
A propósito: o livro do Manuel de Oliveira é bom?
– Fala da vida dele, dos que ama. Sabe de futebol que é um espanto, treinou em muitos lados, até em Angola e França. E aquele Prefácio do Fernando Correia é de cinco estrelas!
Já agora: espero que se despachem com mais livros acerca do Jesus.
(Simpático e interessado, a rádio e os auscultadores – os objectos mais modernos atrapalham-no –, centenas de CDs por companhia, após as horas de saída, observador arguto de canais televisivos e jornais, não deixa passar a parolice dos políticos. Faccioso, considera que só os “seus” defendem os interesses da população.)
Helena sente-se feliz por ele, exemplo de companheirismo e cidadania, estimado pela comunidade envolvente.
Quando exercia, sentia desgosto por Ricardo não ser um dos alunos da sua instituição.
– Ainda estás distraída, mãe?
Olha Setúbal!
– Setúbal, cidade das fábricas de conserva no meu tempo, da resistência à ditadura, do Liceu, do comboio e dos amigos desse tempo, a Isaura incluída, famosa pelo amor às flores.
E casou com um Jacinto Rosa, vê a coincidência!
Das praias, onde tanto nadei, sem dar pela água fria.
Setúbal de Bocage, Sebastião da Gama.
– Setúbal do Vitória: belos jogos do Barreirense, no velho Campo dos Arcos, eu uma miúda; as emoções parecem-me de hoje.
Encosta-se ao filho:
– Quero que o Vitória fique na Primeira Liga; é o mais importante clube desportivo do Distrito e a complicada situação dos nossos, aqui no Barreiro, acabou com a tradicional rivalidade.
Setúbal do Teatro:
– Conheci a Maria Simões no Alentejo, na Funcheira, onde o meu pai trabalhou, e ela já criava, sozinha, pequenos exercícios dramáticos; uma grande mulher que nasceu para o palco.
Setúbal da ESE: vinte e dois anos acabados de forma estúpida!
Ricardo traz à colação Mourinho:
– E ainda tens saudades dele no Porto?! Diz lá a verdade…
(Helena evoca, em silêncio, a primeira situação clínica complicada, a recuperação, também ajudada, ao longe, pelo insuperável Futebol Clube do Porto que o arguto treinador depressa construiu, bem como o início de uma carreira como um dos mais brilhantes profissionais da sua especialidade.)
– Quem me diria, quando brincava no recreio, que o descendente, o menino que o grande guarda-redes Mourinho levava ao colo, no Bairro do Liceu, viria a ser um génio?
A minha ESE devia homenagear este ilustre filho de Setúbal!
Voltam ao episódio televisivo e Ricardo fala de Fernando Luís:
– Que classe de actor! Parece de Hollywood! Tudo o que faz é com categoria! Olha, mais um de Setúbal!
Helena corrige:
– Atenção: nasceu em Lisboa.
Não se distraem até ao fim da história policial que lhes mostra, de súbito, o estabelecimento de Ensino Superior traçado com o cuidado e génio de Siza Vieira, para os encontros do trabalho e o lazer, a meditação e a pesquisa, a cor branca e a luz do Sol.
Vêem, de relance, o principal pátio exterior, seguido de salas, numa delas o pequeno cartaz que Helena recebeu, referente ao então Terceiro Concurso Literário da Trofa.
Ainda uma tapeçaria que evoca Cabo Verde, terra da artista que a elaborou, Bela D., entregue o testemunho de criatividade ao saudoso Dr. Raul Fernando de Carvalho, um dos fundadores da Escola onde a pluralidade é lema, Barreirense ilustre, seu familiar, por afinidade.
Quando eram pequenos, Raul chamou-lhe, na praia da Figueirinha, “Pulga da Areia” porque saltitava no terreno mole (hábito que mantém).
E Sebastião da Gama, o Pedagogo, o Professor, o Poeta de eleição, o Amante da Serra da Arrábida, nessa Serra-Mãe, na harmonia de cores de Louro Artur, também, durante muito tempo, companheiro de leccionação, para além de pintor ilustre.
Terminado o filme e atenuadas as saudades, Helena levanta-se e exclama:
– Vou dar o jeito do costume à casa!
– Ainda bem que isso voltou a ser hábito; é porque estás bem!
Vou às compras; já apontei tudo o que dissemos. E trago, ainda, azeite e aqueles iogurtes novos, muito bons.
A mãe sorri e replica:
– Não vás, não, que ainda ficamos todos sem batatas, e alface e vocês sem pasta dentífrica.
Até pago para ver isso…
Ricardo divide, de forma quase sagrada, as compras domésticas com o pai e o irmão mais novo.
(O outro, “o mano grande”, tem a própria família, um filho, quase nos doze anos, miúdo calado e discreto, bem apreciado pelos tios que comentam, vaidosos, que a construção de personagens que, às vezes, faz nas aulas de Português, talvez seja com genes herdados do avô paterno.)
Helena começa a fazer o que se propôs.
O jovem aparece perfumado e com gosto no vestuário, após o duche:
– Mãe, quando estavas ali deitada, o pai e eu ficávamos sempre calados e aborrecidos.
E tu dizias que já não nos fazias companhia! Ainda bem que não tinhas razão!
O imaginário leva-o para férias:
– E em Albufeira, quando nadas com o Pedro, nem quero acreditar no que fazes!
– Estou muito mais estável e feliz, amor. E assim que vejo o mar…
O rapaz sai e leva o carro de compras a que chama “o meu automóvel”.
“E foi na ESE de Setúbal” – à lembrança de Helena chegam acordes do hino não oficial, tantas vezes entoado, obra do colega José Carlos Godinho – que muita gente encontrou caminhos de futuro.
Marta, a sobrinha adoptada, estuda lá. Deseja que um dia venha a ser brilhante jornalista como o pai.
O seu Pedro, licenciado em estabelecimento congénere, anos de trabalho, agora interrompidos devido aos gananciosos e ignorantes que controlam a “Aldeia Global”, também reencontrará o caminho.
Os alunos de agora – crê – da ESE e dos outros locais académicos também lá chegarão. Através das ferramentas de pensamento, coragem, crescimento pessoal e social, práticas que os ajudarão a vencer a “crise” provocada pelos novos bandos de ladrões da Humanidade.
Depois de sacrifícios – sim, de incontáveis sacrifícios – conquistarão o trabalho de qualidade, a remuneração justa, a alegria pela ultrapassagem de escolhos, a dignidade a reconstruir – a indignação pelo que lhes fazem já é visível.
Helena já cantou pelas ruas: “Venceremos!” Pensa, agora: “Vencerão!”
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos














