O Franklin e a «Licas»Por Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos
Estávamos nos anos sessenta, se não erro; vejo-o a andar para trás e para diante, à frente do Mercado Municipal, muito sério, fraque, cartola, camisa branca, imaculada, sapatos negros, cuidados. Perante as gargalhadas do povo, aproximei-me do cavalheiro e olhei-o melhor; comecei a rir-me também ? o ferroviário complementava a sua personagem com um despertador antigo, de corda, colocado no braço esquerdo, que, pela situação insólita, provocava a hilaridade de imediato. Fui a correr chamar a minha mãe que, dentro da Praça, me perguntou e, acto contínuo, respondeu:
? Já anda aí? Sim, começou a paródia?
Naqueles tempos sem graça, com a Guarda Nacional Republicana a passar quando lhe apetecia para aquietar as pessoas pelo medo, o cinzento das chaminés a incomodar-nos, também, o nome do Parque, ali ao pé, a lembrar, sempre, o ditador, a personagem desenhada por aquele homem, com um ar tão natural como se estivesse, no Depósito de Máquinas com o fato de trabalho.
Nessa ganga para a qual Romeu Correia (quem o lembra agora?) deixou inultrapassável expressão verbal em nome de romance, ?Trapo Azul? (1), ? referente às resmas de ??macacos? de ganga? (2), feitos em Almada, trabalho duro para profissões braçais cansativas que moldaram um País. Material e cor do fato emblemáticos de situações sociais, agora, quase desaparecidas, na espera, sofredora e desgastante, de novas identidades.
Que tardam, com Portugal entregue, em mãos incompetentes, de gente, liofilizada, mesquinha, ignorante que nem deve saber o que significa Depósito de Máquinas, fogueiro, cozido à portuguesa, tantas vezes feito nas locomotivas, com o Franklin que gerava alegria e insólito.
Os transeuntes gritavam-lhe, entusiasmados, o nome, ou chamavam-no, ou, em boa disposição, contavam as suas histórias aqui e no Sul, qual delas a mais engraçada.
Retive várias e ainda hoje a galinha ?Licas? poderia ser inspiradora de estudos vários.
O pessoal ferroviário que ia nos comboios (onde estão ambos?) era estimado por essa linha fora ? no Algarve, se uma jovem casava com um deles, ficava muito bem vista pelo ambiente social a que pertencia: ?Ah! Casou com um rapaz / um senhor da CP!?
Até as galinhas, as melhores, se não esperavam ter dentes, almejavam a oferta, em bandeja, no fim da vida, no lazer dos que animavam o Algarve: com os apitos das locomotivas, o seu trabalho de transporte dos veraneantes era altamente apreciado ? bom dinheiro deixavam e ajudavam, pouco a pouco, a modificar a Província.
Quanto às mercadorias, chegadas rápida e facilmente, guardadas na carruagem especial, o furgão, eram saudadas pelos lavradores que, com elas, ficavam com objectos diversos que não tinham na região e mandavam preparar saborosos repastos para os da CP com quem mais conviviam e lhes levavam as novidades, inclusive contra o ditador, contadas com moderação.
Franklin, pelo temperamento folgazão, era conhecido em toda a via e muito convidado a refeições no interior algarvio. Um conhecido lavrador de S. Bartolomeu de Messines tinha uma relação muito afectuosa com ele e um dia permitiu que o fogueiro ? a sua interpretação da resistência à ditadura fez com que não avançasse na carreira por recusar-se a fazer exames para progressão na mesma ? dirigisse, na cozinha, a preparação de belo galináceo, oferecido pelo ferroviário.
? Na próxima vez, as mulheres tratam de tudo e ?marcha? a ?Licas? de que o amigo tanto gosta!
Regresso ao Barreiro, uns dias por aqui e novo embarque para Tunes, com um dia de folga, aproveitado para ida a Messines. O lavrador estava menos jovial, no encontro com o homem do despertador no braço (facécia que, quando lhe fora contada, fizera-o não parar de soltar sonoras gargalhadas) no Carnaval.
? Fica cá e almoça mas hoje será porco; tanto que queria que comêssemos, juntos, a ?Licas? que não vejo há uma data de dias? Até ando incomodado. E em tom misterioso:
? Sabe, pensando melhor; não me diga, Franklin, que algum maroto a levou; se apanho o bandido!...
O fogueiro desarmou, de imediato, o interlocutor:
? Olhe, é fácil; apanhe-o aqui, já! Está à sua frente.
E, perante o ar estarrecido do outro, a boca desmesuradamente aberta e os movimentos da cabeça:
? Vá lá, não se zangue por causa de uma galinha que tão bem preparei e tão bem nos soube!
Depois de uma pequena hesitação do agricultor, lá foram de braço dado ver os preparativos da refeição.
Referências
(1) Romeu Correia, ?Trapo Azul?. Lisboa, Romeu Correia e Editorial Notícias, 1989,180 pp..
(2) Idem, p.59.
Manuela Fonseca














