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Quotidianos

Uma Noite de NatalPor Florbela Viegas

A partir desse dia, mudei radicalmente a minha vida. Sempre que posso, caminho à noite, pelo areal, em busca de um sinal daquele homem que me ajudou a ultrapassar as minhas perdas e a saber viver com elas.
Mas, apesar de tudo, a dúvida subsiste: e se Jesus, afinal, fosse um de nós?

4 min de leitura
Uma Noite de Natal Por Florbela Viegas

Por Jornal Rostos

Uma Noite de Natal

Em todos os Natais haverá sempre muitas histórias para contar, dependendo da forma como são vividas, mas nunca deixará de ser Natal, até mesmo para aqueles que vêem Jesus Cristo como um Ser que limita o livre-arbítrio de cada um de nós.
O Natal será sempre o tempo das angústias, da nostalgia, da saudade, da melancolia, das paixões e até de alguma inspiração, pois é no Natal e no Ano Novo que ganhamos ânimo, traçamos caminhos, fazemos projectos, fechamos ciclos e damos início a novas aspirações.
E como todas as histórias começam por “Era uma vez...”, hoje vou contar uma história, na primeira pessoa.
Naquele dia, eu ia viver aquele Natal, na maior solidão que se possa imaginar. Não somos eternos e fazia um mês que o meu Pai partira.
Embora rodeada dos parentes mais próximos, aquele vazio não deixou de existir dentro de mim e não me saía da cabeça o ano anterior, tão diferente, como um regresso às origens e ao amor do meu Pai com quem dançava e cantava até altas horas da madrugada, nas noites de Natal, para divertimento de todos quantos conviviam connosco.
Naquela noite tudo se transformou para mim. O Natal já não fazia sentido. A casa, no centro histórico da cidade, encontrava-se agora tristemente vazia, fria, sem o seu calor, as suas palavras, o seu sorriso e os seus abraços, que sempre me confortaram e aqueceram o coração.

No meio de tanta angústia, de tanta nostalgia, resolvi escapar-me até junto à Avenida da Praia, local que, em tempos idos, foi o meu porto de abrigo para escrever e reflectir.

Ao chegar à Avenida da Praia, saí do carro, olhei em volta e apenas ouvi o silêncio ensurdecedor daquela noite de Natal. Mesmo assim atrevi-me a ir até à praia. Estava uma noite fria, com um sopro de vento ligeiro, a contrastar com um luar resplandecente e um céu coberto de estrelas brilhantes, que certamente também serviriam de companhia, a todos os solitários como eu.

Caminhei até perto do mar. Olhei, mais uma vez, à minha volta, senti o cheiro forte a maresia e, calmamente, sentei-me.
Subitamente o imenso vazio e a mágoa que me dominavam, explodiram em lágrimas. Sentia-me triste, abandonada, a mais sozinha das mulheres.

Afinal o que era a Vida? Uma mera rotina de procedimentos frugais, de uma sociedade materialista e individualista, em que somos todos cúmplices, até chegar o “nosso dia”?
Para onde irão os sentimentos e os afectos, quando morrermos?

No meio deste conflito interior, surgida do nada, observo uma luz intensa, junto ao mar, mas não senti medo.
Para meu espanto, do meio dessa luz, surgiu homem alto, de cabelos compridos, com um olhar de um azul transparente, misterioso, mas que inspirava confiança, vestido de branco, e envolto numa aura dourada.
À medida que se aproximava de mim, os seus cabelos esvoaçavam ao sabor do vento, a sua túnica branca adejava e os pés, descalços, não deixavam sulcos na areia.
- “Não tenhas medo”, disse-me ele. Sou a tua companhia de Natal. Um presente de Jesus, para que despertes para a vida.

Sentou-se ao meu lado e, carinhosamente, pegou-me na mão. Nesse momento senti um leve torpor e uma energia inexplicável que inundaram todo o meu corpo, proporcionando-me um calor e um bem estar que jamais havia sentido em toda a minha vida.

Por estranho que pareça, senti confiança naquele homem. Passámos toda a noite a conversar, até que acabei por me esquecer dos meus problemas, da minha solidão, e adormeci.

De manhã, quando acordei na praia, pensei que tudo não tinha passado de um sonho. Mas alguém me tinha tapado com um manto rústico, de lã, igual ao que Jesus usava.
E, muito mais do que isso, ao meu lado estava um cristal puro, em forma de coração, um coração vermelho, dentro de uma pequena caixinha de papelão, atada com uma fitinha de papel com flores amarelas, coração esse que já tinha visto igual, à venda nas Lojas Prolar do Barreiro.
A partir desse dia, mudei radicalmente a minha vida. Sempre que posso, caminho à noite, pelo areal, em busca de um sinal daquele homem que me ajudou a ultrapassar as minhas perdas e a saber viver com elas.
Mas, apesar de tudo, a dúvida subsiste: e se Jesus, afinal, fosse um de nós?

Desejo um Bom Natal para todos, na medida do possível.

Florbela Viegas

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