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Quotidianos

o menino da praia dos amendoinsPor Rosalina Carmona
Barreiro

a praia dos amendoins fica mesmo ao lado do porto da cuf. é um minúsculo areal amarelado, continuamente lavado por um sal de sabor desconhecido, que a torna daquela cor.

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o menino da praia dos amendoins Por Rosalina Carmona Barreiro

Por Jornal Rostos

na praia dos amendoins tomava-se banho em qualquer altura do ano. bastava o menino querer. mesmo quando o sol aquecia pouco, ou até nos dias invernosos, quando um vento fininho, de norte, soprava afiado como gumes de facas amoladas, enfiando-se debaixo da pele... ainda assim, em bando ou sozinhos, os rapazes, destemidos, iam ao banho.

sapatos (quem não os tinha era menos esse trabalho), calças, camisolas, cuecas, voavam pelos ares. os corpos franzinos, em pelota, arrepiados. como se todos os grãos de areia da praia tivessem voado, para se colar à pele. desatavam-se todos os nós das pernas e a corrida só terminava quando a água, gelada, roçava a virilha. mergulho rápido e fuga para a areia, de novo.

a praia dos amendoins fica mesmo ao lado do porto da cuf. é um minúsculo areal amarelado, continuamente lavado por um sal de sabor desconhecido, que a torna daquela cor.
em certos dias, a praia dos amendoins fica envolta em bruma cinzenta e tem o cheiro dos ovos podres, quando se partem (como acontece quando o menino os vai buscar à estação do barreiro-a, na pasteleira. os ovos vêm despachados do algarve no comboio correio, envoltos em palha, dentro de cestos de cana… e vendem-se à dona zulmira da boleira do parque, ou nas mercearias, como a do sr. real e outras casas do barreiro)…
e a água fica cor de prata e os corpos prateados, brilham...

às vezes, as sirenes dos barcos dos amendoins acordam o menino mais cedo. salta da cama, vestindo-se à pressa. a mãe já saíra, com os ovos para o mercado, o pai não se sabe quando volta... que uma máquina a vapor tem lá os seus caprichos e se lhe dá para avariar na serra do algarve… não se adivinha quando chegará ao barreiro.

o menino, com asas nos pés, alcança a praia, num ai. é o primeiro a chegar. a praia ainda vazia... da cor que ele mais gosta, toda coberta de amendoins. só para ele.
hoje, a escola conde ferreira bem pode esperar.
no porto, os barcos prosseguem a sua azáfama interminável, na descarga dos amendoins para a fábrica dos óleos.

rosalina carmona

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