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Quotidianos

Uma mecha de cabelo (conto)Por Jorge Fagundes
Barreiro

Os anos foram passando e, no Natal de 1982, ao trocarem, no gabinete de Ana Maria, as tradicionais lembranças e os votos de Boas Festas, uma forte corrente emocional os envolveu e, abraçando-se, beijaram-se longamente.
Apesar de ambos serem casados, o certo é que, nos meses seguintes, se envolveram, como amantes, o mais secretamente possível.

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Uma mecha de cabelo (conto) Por Jorge Fagundes Barreiro

Por Jornal Rostos

Abílio Jorge, reformado, à beira dos oitenta anos, resolveu, há dias, subir ao sótão da sua vivenda, em Cascais, para procurar, numa velha arca, uns papéis antigos que ali guardava.
Aberta a arca, e ao remexer em toda aquela papelada, chamou-lhe a atenção um envelope cor de rosa, lacrado e sem quaisquer dizeres no exterior.
Intrigado, abriu esse envelope e nele encontrou, cuidadosamente embalada em papel apropriado, uma mecha de cabelo castanho.
Perante esse inesperado achado, Abílio Jorge, emocionado, puxou de uma cadeira e nela se sentou.
Como se fosse um relâmpago, dezenas e dezenas de imagens afloraram à sua mente, fazendo-o recuar muitos, mesmo muitos anos no tempo.
Tudo começara em Maio de 1970, quando Abílio Jorge, então quadro superior administrativo numa grande empresa de Lisboa, fora chamado ao gabinete do senhor engenheiro, seu superior hierárquico, a fim de lhe ser apresentada uma recém-admitida funcionária.
“Sr. Abílio Jorge, esta é a D. Ana Maria que vai trabalhar na área social da nossa empresa e que, por esse motivo, vai ter de socorrer-se, sempre que for necessário, dos seus serviços e apoio”.
Ana Maria, assistente social, era uma mulher muito bonita, nas casa dos trinta anos de idade e, ao cumprimentar Abílio Jorge, olhos nos olhos de ambos, não é que ficaram largos segundos de mãos bem apertadas?
Assim, desde logo, entre os dois se estabeleceram laços de muita amizade que, pouco a pouco, se foram cimentando.
Ambos tinham muitos gostos em comum (nos filmes, nas peças de teatro, nos livros de ficção e de poesia)e sobre eles trocavam opiniões intercaladas com as questões meramente profissionais.
Quando aconteceu o 25 de Abril de 1974, e porque também no campo político perfilhavam ideias que essa revolução permitiu expandir, sem receios nem medos de represálias, a sua amizade ganhou um novo alento e resolveram, a partir de então, substituir o você por tu, e o cerimonioso aperto de mão por um beijo nas faces.
Os anos foram passando e, no Natal de 1982, ao trocarem, no gabinete de Ana Maria, as tradicionais lembranças e os votos de Boas Festas, uma forte corrente emocional os envolveu e, abraçando-se, beijaram-se longamente.
Apesar de ambos serem casados, o certo é que, nos meses seguintes, se envolveram, como amantes, o mais secretamente possível.
E foi num, entre muitos outros encontros, que Ana Maria entregou a Abílio Jorge uma madeixa dos seus lindos cabelos castanhos. Que este, amorosamente, guardou num envelope cor de rosa, lacrado e bem escondido na velha arca do sótão da sua residência.
Por uma mera coincidência, correndo o mês de Setembro de 1983, a mulher de Abílio Jorge descobriu o que se passava. Com grande dignidade e sem levantar o mínimo, que fosse, de escândalo, confrontou-o com a situação e colocou-lhe a questão: ou ela ou eu!
Abílio Jorge, depois de longa, triste e chorada conversa com Ana Maria, que neste transe também se comportou com uma extraordinária dignidade, optou por manter o seu casamento.
Ele e Ana Maria nunca mais se viram, nem se falaram.
E, passados, que foram, trinta anos, o achamento, ocasional, daquela madeixa de cabelo, veio despertar, em Abílio Jorge, um conjunto de sentimentos e de recordações que nunca mais julgara vir a ter.
E a sua emoção foi de tal ordem que....”avó, avó, vem depressa cá acima. O avô está caído no chão e não respira”, gritava, aflita, a neta Ana Maria, a quem a avó mandara ao sótão chamar o avô porque eram horas de jantar.

Jorge Fagundes

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