A problemática Linha do SadoEstratégia para matar o sector ferroviário público

Por Jornal Rostos
“Desencadearam-se determinadas situações na Linha do Sado que nos obrigaram, de certa forma, a ter de tomar uma posição mais forte, no sentido de defender os postos de trabalho e esta estrutura ferroviária aqui no sul que colocam em causa vários postos de trabalho” referiu José Encarnação, membro da Sub-Comissão de Trabalhadores da CP.
“Fizemos vários comunicados, tivemos reuniões com os trabalhadores, contactos com a Comissão de Utentes e colocámos a situação aos nossos órgãos superiores e da empresa,
A nossa maior preocupação são os postos de trabalho da CP, e de todos os outros que dependem da linha, da REFER e da EMEF.
Essa tem sido a nossa luta e temos feito denúncias sobre a situação, contactando a Assembleia da República, comunicação social, autarquias, na defesa desta linha.”
Fértagus versus CP
“Soubemos através de um documento divulgado pela Intranet da CP que estava previsto que a partir de Junho de 2005 a CP iria apenas até ao Pinhal Novo e daí até às Praias do Sado, o serviço seria assegurado pela Fertágus. Embora não se tenha realizado esta alteração na data prevista, sabemos que tudo está a ser feito para que tal aconteça, o que vai prejudicar enormemente a população e colocar em causa muitos postos de trabalho.
O Decreto–Lei que aplica a concessão determinou que a Fertágus iria ter a exclusividade de Roma-Areiro até Setúbal, com possibilidades de ir a Faro ou à estação do Oriente, mas a Fertágus continua a não ter exclusividade no que respeita ao trajecto Barreiro-Praias do Sado.
Acontece que a Comissão Executiva da CP Lisboa considera que esta é uma linha deficitária e não rentável, que ficou ainda mais deficitária porque os preços da passagem dos comboios pela linha REFER aumentaram. Mas há outras linhas que não são rentáveis e que continuam a funcionar.
Neste momento assistimos a um favorecimento do sector privado em detrimento da linha da CP, apesar de ser uma linha centenária, que transporta milhares de passageiros há décadas.”
Comissão de Utentes tem feito um enorme trabalho
Frederico Tavares, outro membro da Sub-Comissão de Trabalhadores, referiu também que “a Comissão de Utentes também tem feito um enorme trabalho, chamando a atenção e intervindo neste assunto e o mesmo acontece com o actual executivo da Câmara Municipal do Barreiro, uma vez que o anterior nunca quis saber desta situação. A autarquia da Moita e de Palmela também têm demonstrado muito interesse e preocupação por este assunto e para que este serviço público continue a servir em condições estes concelhos.”
“A Fertágus chegou à meia dúzia de anos e obtém tudo de borla, ao passo que a CP tem de pagar a utilização das estações e da linha e presta um serviço público nas piores condições, porque não temos material à altura, as estações não estão em condições, a linha não está electrificada e a sinalização só está colocada até ao Lavradio, mas ainda não está completa até ao Barreiro, o que leva a que a CP fique para trás, colocando em risco os postos de trabalho.”
Estratégia para matar o sector ferroviário público
Mas a desconfiança da Sub-Comissão tem mais provas: “há outros acontecimentos que consideramos estranhos, como o facto de não saírem daqui comboios para o Alentejo, terem fechado as bilheteiras (quem queira viajar daqui para o Algarve tem de comprar o bilhete através de Multibanco ou adquiri-lo no Pinhal Novo), a falta de ligação entre transportes fluviais fora das horas de ponta ou aos fins-de-semana, o que obriga a tempos de espera que vão até uma hora, o que nos leva a crer que há uma segunda intenção em tudo isto.
Isto fica a dever-se a uma estratégia para matar o sector ferroviário público, beneficiando a Fertágus. A CP pode continuar a fazer um bom trabalho, mas temos de ter condições para isso, e o Estado tem de nos dar as mesmas condições que ao sector privado.”
Faltam 14 quilómetros de electrificação da Linha
Mas há ainda mais aspectos que a Sub-Comissão aponta, segundo Frederico Tavares: “faltam 14 quilómetros de electrificação da Linha, entre o Penteado e o Barreiro, embora todas as infra-estruturas estejam feitas, mas está tudo pendente da secretária de Estado dos Transportes para dar andamento a esta situação.
Sabemos também que há unidades quadruplas, excedentárias na linha de Sintra, que estão disponíveis para vir para cá, mas faltam as infra-estruturas que referi e está tudo dependente do Ministério dos Transportes. Apesar das deficiências que enfrentamos, estamos à frente das restantes linhas da CP em termos de pontualidade e regularidade. Se nos derem as mesmas condições que aos outros, conseguiremos dar um serviço ainda mais eficiente que os passageiros merecem.”
Maria do Carmo Torres














