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Vida

Os homens e o perigo de trabalhar na refinaria de Sines: estudo inédito conquista prémio máximo do ICS

. Prémio A. Sedas Nunes atribuído à obra “Trabalhamos sobre um barril de pólvora”

• Investigador Paulo Granjo passou quase três anos com os trabalhadores da refinaria para desenvolver estudo
• A pressão das chefias sobre os operários para melhorar ou assegurar os níveis de produtividade foi uma das conclusões retiradas da pesquisa

A laboração por turnos e seus efeitos sobre a saúde, o stress resultante das características do trabalho, a falta de recursos humanos, a pressão das chefias para “arriscar” soluções perigosas que antes deram resultado são alguns dos problemas mais comuns na indústria da refinação em Portugal.

4 min de leitura

Por Jornal Rostos

Quem o diz é o investigador social Paulo Granjo que, durante quase três anos, foi presença regular nas instalações da Refinaria de Sines com o objectivo de desenvolver um estudo inédito e aprofundado sobre os homens que trabalham nesta indústria e os perigos que enfrentam diariamente. A pesquisa resultou no livro “Trabalhamos sobre um barril de pólvora”, que acaba de vencer o Prémio A. Sedas Nunes, o maior galardão entregue pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL).

O antropólogo Paulo Granjo – que recebe este prémio ex-aequo com a investigadora Irene Flunser Pimentel com a obra ‘Judeus em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial’ – encontrou na refinaria de Sines uma situação de “subordinação da segurança à produção e à produtividade sendo que se trata de um problema com efeitos muito negativos”. Segundo a sua investigação, as chefias desenvolvem frequentes pressões para que, afim de melhorarem os resultados da produção – mantendo ou aumentando o seu volume, evitando paragens ou acelerando os arranques dos equipamentos – os trabalhadores executem intervenções ou adoptem procedimentos que, embora expeditos, são mais perigosos.

As soluções ‘arriscadas’ ou ‘truques’ inventados pelos trabalhadores são mesmo valorizados pelos dirigentes superiores já que permitem manter os níveis de produção na indústria. Entre as várias características consideradas necessárias para o desempenho de cada um das funções, o que acaba por ser mais destacado na consideração do que é “um bom trabalhador” é a sua capacidade de resolver problemas. “Adiar reparações em algumas unidades ou recorrer a paliativos para não parar o processo de produção tornam-se a norma”, afirma o investigador. No questionário elaborado no decurso desta investigação, 45% dos trabalhadores acreditam mesmo que se recusarem obedecer a essas pressões isso pode ter efeitos negativos na sua carreira ou nos prémios. A solução não passa necessariamente pela adopção de mais legislação sobre esta matéria até porque, para Paulo Granjo, “não se pode legislar sobre os sentimentos dos trabalhadores quando são pressionadas a fazer algo que coloca a sua segurança em risco”.

Prémio é entregue no próximo dia 6, no Instituto de Ciências Sociais

Este estudo revela também que, além dos efeitos negativos da laboração por turnos neste tipo de indústria, os trabalhadores são também prejudicados pela necessidade frequente de ‘dobras’ (substituição de colegas). A lentidão da administração para preencher os postos de trabalho que vão ficando vagos e a sua preocupação em minimizar o número de trabalhadores e a massa salarial fixa resultam num esforço acrescido para o trabalhador, que vê as suas capacidades diminuídas. Entre os trabalhadores inquiridos no decorrer deste estudo, 71% considera que o horário de turnos cria-lhes dificuldades de sono e 69% afirma mesmo que são um factor nocivo para a sua saúde.

Editado pela Imprensa das Ciências Sociais, ‘Trabalhamos sobre um Barril de Pólvora – Homens e Perigo na refinaria de Sines’ inclui-se num lote de várias obras já lançadas por este antropólogo e professor que tem dedicado grande parte da sua carreira a projectos de investigação nas áreas da indústria, práticas curativas e mágicas e processos de aprendizagem ou o direito familiar.

O Prémio A. Sedas Nunes distingue trabalhos de excepcional qualidade na área das Ciências Sociais e que contribuem para o conhecimento da realidade portuguesa. À terceira edição deste prémio candidataram-se 27 obras publicadas entre 2002 e 2006. O júri, constituído por 8 elementos, integrou investigadores provenientes de várias instituições universitárias nacionais e internacionais. Este galardão será entregue aos dois vencedores numa cerimónia a realizar no dia 6 de Dezembro, nas instalações do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

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