Região Sul regista 32% dos acidentes elétricos apurados e Setúbal regista 7%Mais de 90% dos acidentes com origem elétrica provocam incêndios

Por Jornal Rostos
Cerca de 93% dos acidentes com origem elétrica provocaram incêndios no primeiro semestre de 2012, revelam dados da CERTIEL – Associação Certificadora de Instalações Eléctricas. Os dados baseiam-me num estudo que a instituição tem vindo a desenvolver sobre os acidentes com origem elétrica em Portugal, que revela ainda que, dos 82 acidentes com origem elétrica registados de janeiro a junho de 2012 – mais 22,4% dos registados no mesmo período do ano passado -, 39% resultaram em mortos ou feridos. Em apenas seis meses, há a lamentar a morte de 11 pessoas e 29 feridos, dos quais cinco apresentavam queimaduras graves, além de 79 desalojados.
No distrito de Setúbal o estudo da CERTIEL registou seis acidentes elétricos no primeiro semestre de 2012, o que corresponde a cerca de 7% do total. O estudo revela ainda que 17,5% dos municípios portugueses tiveram acidentes com origem elétrica neste período (54 dos 308 concelhos portugueses). A Região Norte é a que mais acidentes elétricos registou, com 43% do total, seguindo-se o Sul com 32% (além de Setúbal, Évora teve dois acidentes registados, Lisboa 13, Beja um, Faro quatro, sendo que Portalegre não teve qualquer registo), o Centro com 21%, e as duas Regiões Autónomas com cerca de 5%. Os municípios de Setúbal onde foram apurados acidentes elétricos são o Barreiro, com uma ocorrência, e Setúbal, com cinco. No “top três” dos distritos com maior número de registos estão Porto, Lisboa e Braga.
O estudo resulta da análise do registo dos acidentes de origem elétrica noticiados na imprensa online durante o primeiro semestre de 2012 e, conforme explica Pedro Caroço, diretor técnico da CERTIEL, «pretende consciencializar a opinião pública para uma situação que existe e que não é suficientemente valorizada, mas que tem consequências humanas e materiais significativas», acrescentando «impõe-se consciencializar as pessoas para a segurança elétrica».
No estudo em causa são apenas considerados acidentes que foram noticiados nos meios de comunicação social online, e em que o texto indica como causa um fenómeno relacionado diretamente com a utilização de eletricidade, como curto-circuito, sobrecarga da instalação elétrica, contactos diretos ou indiretos com a instalação elétrica, avaria de equipamentos e utilização incorreta dos aparelhos elétricos ligados à instalação elétrica (excluem-se os acidentes resultantes do furto de cobre e equipamentos das instalações elétricas). Pedro Caroço esclarece que «temos vindo a desenvolver este estudo há ano e meio, se bem que cada vez mais vamos afinando a pesquisa e analisando mais fontes, para que nos aproximemos o mais possível da realidade».
A utilização deste método – compilação dos casos noticiados pelos média - para elaborar a análise deve-se ao facto de não existir em Portugal nenhum registo dos acidentes relacionados com eletricidade. Este método implica que os resultados apurados representem a realidade por defeito, na medida em que muitos dos acidentes relacionados com eletricidade não são noticiados como tendo origem elétrica, quando essa origem ainda não foi apurada, o que acontece em grande parte das vezes. Por essa razão, a CERTIEL elaborou um relatório complementar que aplica este mesmo método aos incêndios de origem desconhecida em edifícios, para que se possa extrapolar os dados daí apurados, tendo em conta que, internacionalmente, se estima que destes incidentes cerca de 50% se possam também atribuir a problemas elétricos.
Dos dados recolhidos no primeiro semestre de 2012, ocorreram 82 acidentes relacionados com a utilização de energia elétrica, sendo que a grande maioria (76) foi causadora de incêndios ou da chamada dos bombeiros. À semelhança de 2011, por NUT II, a região Norte continua a ser a que acumula um maior número de registos (36,6%), seguindo-se o Centro (20,7%), Lisboa e Vale do Tejo (19,5%), o Alentejo (11%), e o Algarve e as duas Regiões Autónomas (12,2% no total), facto a que não será alheia a distribuição das habitações e respetivas instalações elétricas.
Os primeiros meses do ano foram os que registaram maior incidência de acidentes com origem elétrica. Em janeiro foram registados 18, em fevereiro 20, 17 em março e também em abril, dois em maio e oito em junho. Também em 2011 o padrão foi este: o número de acidentes é mais ou menos equivalente até abril, decresce bastante em maio e volta a subir em junho. O acidente elétrico mais reportado é o curto-circuito (75,6%), e o tipo de local com maior número de acidentes é o parque habitacional (apartamentos e moradias), com 67% do total das ocorrências.
Dos 82 acidentes com origem elétrica detetados, 76 deram origem a incêndios, sendo que destes, 28,9% destruíram totalmente a habitação e 34,2% destruíram-na parcialmente. Dos incêndios registados, 25 reportam-se a não habitação (instalações agrícolas, estabelecimentos recebendo público, indústria, escolas, hospitais, etc.).
CERTIEL regista quase 200 incêndios de origem desconhecida em edifícios
Paralelamente ao estudo dos acidentes com origem elétrica, durante o primeiro semestre de 2012, a CERTIEL efetuou ainda o registo de todos os incêndios de origem desconhecida em edifícios, noticiados nos meios de comunicação online (foram contabilizados os incêndios de origem desconhecida em edifícios, ou seja, que na altura em que foram noticiados a sua causa não tinha ainda sido apurada, podendo ser elétrica ou não). Foram detetados 191 incêndios, maioritariamente em habitações, que provocaram 11 óbitos, 64 feridos e 110 desalojados.
À semelhança do que se passa com a análise aos acidentes com origem elétrica, também os acidentes com origem desconhecida em edifícios têm maior incidência na região Norte (36,1%), seguindo-se o Centro (29,3%), Lisboa e Vale do Tejo (18,8%), as duas Regiões Autónomas (6,3%), o Alentejo (5,2%), e o Algarve (4,2%). Relativamente à distribuição dos incêndios no tempo, janeiro contou com 36 ocorrências, fevereiro 33, março 39, abril 32, maio 23 e junho 28. Os incêndios em habitação são a larga maioria, representando cerca de 60% das ocorrências.
Nas notícias relacionadas com incêndios em edifícios constata-se, na grande maioria das vezes, que a hora do alerta é fornecida, pelo que podemos observar a seguinte distribuição: alerta dado de tarde, 28%, alerta dado de madrugada, 25%, alerta dado de noite, 23%, alerta dado de manhã, 10%, sendo que em 14% dos casos este dado não foi facultado.
Em 72 dos incêndios de causa desconhecida em edifícios verificou-se a destruição total do edifício, sendo que em alguns casos foram ainda noticiados danos em edifícios vizinhos. Há a registar 11 óbitos, 64 feridos, dos quais seis apresentavam queimaduras graves, e 110 desalojados. Acresce um número indeterminado de perda de postos de trabalho e morte de animais, quando se trata de edifícios agrícolas.
Pedro Caroço destaca que, «tendo em conta que as estatísticas internacionais apontam para que 50% dos incêndios em edifícios tenham origem elétrica, poderemos extrapolar estes dados com base nessa percentagem, e dizer que cerca de 100 destes incêndios de origem desconhecida teriam na sua causa, provavelmente, problemas elétricos. Juntando este dado ao que temos como certo da análise aos acidentes com origem elétrica, que detetou 76 incêndios em edificado, alcançamos um número muito preocupante de danos materiais e pessoais todos os anos».
«Segurança elétrica não é um conceito enraizado em Portugal»
Pedro Caroço explica a causa do elevado número de acidentes elétricos em Portugal em 2011 (nesse ano a CERTIEL registou 123 acidentes relacionados com origem elétrica, que resultaram em 103 incêndios, 20 mortos, 47 feridos e 138 desalojados) e 2012, com a não obrigação de fiscalização após a entrada em funcionamento da instalação elétrica, e com o facto de «o conceito de segurança elétrica não estar bem enraizado no nosso País, ou ser mesmo descurado, talvez porque a energia elétrica é um bem de uso comum e não nos apercebemos de que pode, de facto, ser perigosa se não tivermos os cuidados necessários». «Impõe-se por isso alertar, e é isso que a CERTIEL pretende com este estudo».
Um recente estudo do Conselho para a Segurança Elétrica (Reino Unido) detetou que os arrendatários estão mais expostos a acidentes elétricos potencialmente letais e a incêndios em casa, devido aos desentendimentos entre senhorios e arrendatários relativamente às respetivas responsabilidades. O mesmo estudo considera que o aumento do número de arrendatários, consequência da conjuntura actual, pode comprometer a segurança de cada vez mais pessoas, se esta situação se mantiver. O Conselho informa ainda que no Reino Unido a eletricidade é responsável pela morte de pelo menos uma pessoa por semana, em casa, e por quase 1.000 feridos todos os dias, além de cerca de 20.000 fogos por ano; e adverte para a falta – à semelhança do que acontece em Portugal – de uma obrigação legal de realização de verificações regulares à segurança elétrica das habitações, que agrava esta situação.
Relativamente à não obrigação de fiscalização em Portugal, o diretor técnico da Certiel esclarece que «o que pode acontecer (e acontece efetivamente a maioria das vezes) é que uma instalação elétrica funciona durante 20, 30, 40 anos ou mais sem qualquer tipo de intervenção, sendo que, com os anos e com o uso, esta se vai degradando, representando um risco real para os seus utilizadores». «Este é um cenário preocupante mas também revelador da realidade das instalações elétricas no país, uma vez que se estima existirem em Portugal cerca de 3,9 milhões de habitações cujas instalações elétricas são antigas, e que previsivelmente estão degradadas».
A este facto acresce a desadequação das instalações elétricas mais antigas às exigências de conforto atuais: «Na altura da sua construção não foram previstos os elevados consumos de energia atuais, associados à utilização de diferentes eletrodomésticos como forno, arca frigorífica, aparelhos de climatização, máquinas de lavar e secar, etc., que exigem muito da instalação elétrica, pelo que se ela não for concebida de forma adequada, poderá ser insegura e ineficiente». E, conclui, «a inovação exige-nos instalações elétricas capazes e de qualidade».
Para alertar para estas questões a CERTIEL tem em marcha uma campanha de sensibilização para alertar para a questão da segurança e da eficiência elétricas com o mote “Usar bem a energia é um dever de cidadania”, que pretende alertar para a importância da segurança e da eficiência energética nas instalações elétricas das habitações portuguesas. O website da iniciativa (http://www.certiel.pt/usarbemaenergia/) disponibiliza toda a informação sobre a segurança e eficiência elétricas, e um filme que apresenta, de uma forma prática, alguns exemplos de mau uso da energia e situações de insegurança. Todas as novidades são atualizadas na página de Facebook da campanha “Usar bem a energia é um dever de cidadania”.
Este texto foi escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990














