Uma Estranha Interação - Entre a Covid-19 e a Guerra na UcrâniaPor Maria Santos
Barreiro
Os textos/ensaios filosóficos que foram feitos por alunos da Escola Secundária dos Casquilhos devem ser conhecidos e partilhados com a comunidade. Vale a pena ler e reflectir com os pensamentos dos nossos jovens. Hoje editamos o excelente trabalho produzido por Maria Santos.

Por Jornal Rostos
ESCOLA SECUNDÁRIA DE CASQUILHOS
Curso de Línguas e Humanidades
Uma Estranha Interação
Entre a Covid-19 e a Guerra na Ucrânia
Maria Santos, 11ºD, nº18
Disciplina de Filosofia
Professora Maria Emília Santos
Abril 2022
Fazer versos nunca foi para mim uma paixão.
Mas lutando contra o tédio terrível do encarceramento,
Rimando farei mais curtos os dias na prisão
Esperarei que chegue a minha liberdade cantando.
Hô Chí Minh, in Diário da Prisão1
1.
Há algo fascinante no novo coronavírus. Algo para lá da sua capacidade de infeção ou de propagação. Uma característica que diria humana – e consequentemente talvez mais nossa que do vírus. A sua capacidade de influenciar-nos, mais do que de infetar-nos. A sua capacidade de levar-nos a fazer coisas que seriam impensáveis, ou até mesmo impossíveis, antes do início desta interação.
Guerras de décadas conheceram cessar-fogo – pelo menos aparentes – em nome da «saúde».
Cidades como Milão, Paris ou Londres, que dependem do turismo e dos seus contactos internacionais para manter estável a sua economia, fecharam-se como quaisquer outras.
A exuberância das suas ruas foi trocada por uma nova exuberância, a do vazio, onde “(…) raros transeuntes apressados, que apenas pareciam existir como memória da existência de uma espécie humana, a atravessar a rua de olhos baixos perante o surgimento de outro humano.”2
No Panamá, bastou a suspeita de um caso de Covid-19 para que 1700 caminhantes, que se dirigiam à fronteira, fossem confinados.
A Europa suspendeu os acordos de Schengen e reintroduziu o controlo de fronteiras entre todos os seus estados-membros.
Durante dois anos, os media foram o arauto omnipresente da doença e, principalmente, do confinamento.
A abertura de qualquer noticiário – que se tornaram permanentes – em qualquer canal, obedecia a uma liturgia tão mais vibrante e entusiasmada quanto pior pareciam as coisas. Números de infetados, mortos, com sintomas, sem sintomas, internados, com
ventilador, sem ventilador, vagas, projeções matemáticas, compunham as palavras mágicas do rito.
Em primeiro plano, apresentados por «especialistas», ou em rodapé, acompanhando os comentadores, soubemos sempre tudo. Ou não?
Passámos a ansiar as quintas-feiras – dia de Conselho de Ministros – e a apresentação de novas medidas ou a evolução do estado de emergência.
Até que, de um dia para o outro, a guerra na Ucrânia libertou-nos da guerra do novo coronavirus. A interação, contudo, manteve-se. Já não podemos viver de outra forma? Já não podemos viver aquém de um risco iminente?
2.
Há traços do passado neste presente.
Queremos ser salvos. Ansiámos que D. Sebastião nos livrasse da dinastia filipina. Que D. João VI regressasse do Brasil e nos livrasse do domínio francês, primeiro, e do controlo inglês, depois. Ansiámos, de forma mais radical, que Cristo regressasse e nos livrasse da peste.
Bastou-nos agora o mais prosaico Almirante Gouveia e Melo, um militar (que símbolo melhor para combater esse “inimigo” invisível?) que não sabia o que quer que fosse de virologia ou de medicina, que não era um político (pelo que dizia as verdades e fazia o que tinha de ser feito), mas que inspirava confiança, que aparentava saber o que estava a fazer e que prometia um salvamento. Foi o suficiente. Ao ponto de, quando terminou a sua responsabilidade na campanha de vacinação, não se antever outro futuro que não a sua natural ascensão ao cargo de Presidente da República.3
.
Globalmente, esta necessidade de salvamento alargou-se à comunidade científica. Aliás, o pronunciar do nome “comunidade científica” passou a ser o elemento de validação de tudo o que tivesse sido, ou viesse a ser, dito: “(…) aconselhados pela comunidade científica (…)”, “(…) a profissão médica (…)”.
O que é a comunidade científica? Um grupo de pessoas que se senta numa grande mesa-redonda onde se debatem temas científicos de modo a alcançarem a melhor resposta para o bem comum? As farmacêuticas para as quais a saúde é um negócio e que lucram milhões de milhões com a pandemia? Ambas?
Mas não queremos ser apenas salvos. Queremos que a pandemia nos ilumine. Esperamos que a pandemia (a adversidade) nos faça, e ao nosso mundo (até aqui ameaçado pelas alterações climáticas) melhores.
Por isso, devemos agradecer à pandemia a possibilidade de o planeta ter voltado a respirar. Os peixes voltaram aos canais em Veneza, o som dos pássaros voltou a encantar as manhãs, o Evereste voltou a ser visível de muitas cidades na India.
Queremos acreditar que o vírus é uma mensagem sobre o mundo que nos rodeia e os seus problemas. Uma tão longa quanto transitória epifania sobre a falta de compaixão do homem para com todos os seres vivos e para com o planeta. (A peste permitiu uma epifania semelhante sobre a existência de Judeus)
Por último, uma redescoberta de nós próprios. Um “tempo ideal”, ao qual, de outra forma, nunca teríamos acedido. Que séries da Netflix vemos? Que música ouvimos? Que roupa vestimos? Como decoramos a casa? Para estas questões, uma grande resposta: «dia 78 de confinamento #aborrecida». Agora pudemos trabalhar ou ir às aulas em pantufas e robe.
3.
Durante dois anos fechámo-nos em casa e numa redoma de culpa. Morreram tantos e nós não fomos um deles: como nos atrevemos a desrespeitar as regras de confinamento? Achamos normal que a Nigéria, por exemplo, em abril de 2020, contasse 12 mortos por covid e 18 pelas forças armadas por desrespeito ao confinamento. Após décadas e décadas a implorar às crianças que não fiquem em casa, não joguem tanto, não estejam tanto ao computador, foi tão fácil para nós dizer-lhes, subitamente, façam exatamente o oposto.
Revelamos uma capacidade notável para ignorar conscientemente o que se passa atrás dos panos. Os que não têm casa para se confinarem. Os que têm de continuar a trabalhar. Os que não têm acesso, material ou efetivo, a tecnologia. Os que não têm – já não tinham e continuarão a não ter (excluídos do mundo do consumo e agora excluídos da possibilidade transcendental de redescoberta pessoal) – opções dentro do quadro de valores que decidimos decretar como normal.
A continuidade de interações e juízos na transição pandemia-guerra na Ucrânia é patente: a mesma obsessão noticiosa (agora o entusiasmo belicista), a mesma procura de um salvador (Zelenski que, poucos dias antes e à semelhança de Orbán,
Duda, Erdoğan, tinha muito pouco que ver com o projeto europeu), a mesma inadmissibilidade de discursos problematizantes4 , a mesma incapacidade para olhar por detrás do pano (onde veríamos os problemas reais das populações ucranianos e russas, os mais de 62000 homicídios anualmente registados no Brasil5 , a guerra na Somália ou na República Centro Africana, os bombardeamentos na Palestina, as eleições presidenciais em França ou a aprovação esmagadora, em Itália, de um dia de celebração nacional diretamente associado ao regime fascista de Mussolini).
Desvalorizamo-nos mais do que nos redescobrimos. Privamo-nos do direito mais que natural que é o luto. Privamo-nos da despedida. Privamo-nos daqueles que amamos. Uma agência funerária passou a enviar uma fotografia do morto por Whatsapp. Problema resolvido.
Quando Santo Antão (figura do cristianismo primitivo que passou décadas em isolamento no deserto) partiu para os seus tempos de isolamento e reflexão tinha em mente regressar para a sociedade com mais conhecimento do que quando a abandonou. Descartes partiu para o isolamento com o objetivo de entender aquilo que ainda não alcançara, reintegrando-se depois na sociedade. Platão defendia que o
estudo é feito a dois e que o isolamento não foi feito para o Homem. A vida precisa de ser vivida.
Aproveitando a sugestiva imagem de Zygmunt Bauman, parece que nos preparamos para fazê-lo cada um no seu tonel. 6
Maria Santos
NOTAS
1
Tradução minha do poema Primera Página (Primeira Página) a partir de Minh, Hô Chí – Diario de Prisión, Editorial Thê Giói, Hà Nôi, 2008 (pág.6)
2
LÉVY, Bernard-Henri, Este Vírus que nos Enlouquece, Guerra e Paz, Lisboa, julho de 2020
3
Acabou atabalhoadamente nomeado Chefe de Estado Maior da Armada.
4
Noam Chomsky recupera a expressão de Gore Vidal sobre os “Estados Unidos da Amnésia”, identificando-a como característica de todas as grandes potências
5
A taxa (30,3 por 100 mil habitantes) está próxima da de outros países como a Colômbia, o Belize, as Honduras ou El Salvador. SH
SCHWARCZ, Lilia Moritz, Sobre o Autoritarismo Brasileiro – Uma Breve História de Cinco Séculos, Penguin Random House, Lisboa, março de 2020 (pág. 167)
6
Bauman reflete sobre a sociedade atual a partir do conto de Edgar Allan Poe que fala sobre três marinheiros apanhados pelo maelstrom. Dois marinheiros morrem, enquanto o terceiro tendo se enfiado num tonel, sobrevive.
Para o autor (ao contrário de Norbert Elias que analisara a mesma passagem) a mensagem é “cada um por si, que cada um descubra o seu tonel e se esconda lá dentro.”
BIBLIOGRAFIA
BAUMAN, Zygmund, A Vida Fragmentada – Ensaios Sobre a Moral Pós-moderna, Relógio D’água, março de 2007, ISBN 978-972-708-932-1
CHOMSKY, Noam, WATERSTONE, Marv, As Consequências do Capitalismo – Produção de Descontentamento e Resistência, Editorial Presença, Lisboa, abril de 2021, ISBN 978-972-23-6704-2
JAPPE, Anselm et al, Capitalismo em Quarentena – Notas Sobre a Crise Global, Antígona, Lisboa, agosto 2021, ISBN 978-972-608-400-6
LÉVY, Bernard-Henri, Este Vírus que nos Enlouquece, Guerra e Paz, Lisboa, julho de 2020, ISBN 978-989-702-563-1
SCHWARCZ, Lilia Moritz, Sobre o Autoritarismo Brasileiro – Uma Breve História de Cinco Séculos, Penguin Random House, Lisboa, março de 2020, ISBN: 978-989-665-971-4
ZIZEK, Slajov, A Pandemia que Abalou o Mundo, Relógio D´Água, Lisboa, maio de 2020, ISBN 978-989-783-020-4














