Comemorações dos 30 anos do 25 de AbrilAula Aberta com Fernando Rosas na Escola Secundária Augusto Cabrita

Por Cátia Pacheco
Fernando Rosas, anti-fascista, começou por mencionar a todos os presentes que antes do 25 de Abril era impossível “estarmos a ter esta conversa”. Todas as actividades que se faziam, inclusive fora da escola, tinham que ser autorizadas por uma associação. A “simples” iniciativa de organizar uma palestra tinha de ter autorização, e era “completamente impensável” juntar rapazes e raparigas no mesmo recinto. “Havia salas para os alunos, salas para as alunas, recreio para os alunos, recreio para as alunas,” recordou o historiador, o que provocou um riso irónico em todo o auditório, existindo mesmo o burburinho: “como é que era possível”.
“O ensino era ideologicamente orientado para reproduzir o próprio regime”
O ensino praticado na época do Estado Novo, para além da inexistência da liberdade de wxpressão, “era ideologicamente orientado para reproduzir o próprio regime”. Os estudantes eram preparados para serem apoiantes do regime, nada tinha a ver com o currículo que temos hoje em dia.
“Os professores eram politicamente seleccionados”. Para se poder pertencer à função pública, para além de ter o parecer positivo da PIDE, era necessário ser informando que acerca desse senhor nada constava, e fazer-se um juramento anti-comunista, isto desde 1936.
“Esta era uma sociedade onde durante quarenta e oito anos, todos os minutos, todas as horas, todos os dias, existia a censura prévia à imprensa”, tudo o que não podia ser publicado era cortado com o “conhecido” Lápis Azul. Um jornalista, à partida, já sabia que se tinha de censurar a ele próprio, pois “o general” iria ler tudo posteriormente e cortar o que não fosse a favor do regime.
Não era apenas nos jornais que esta censura acontecia. Também no cinema, no teatro e na televisão ela estava presente. Nos filmes, tudo o que fossem cenas mais ousadas eram cortadas. “Imaginem o que é um filme onde a intriga principal roda em volta de um amante de uma mulher, e onde a maior parte das cenas são cortadas”, fez questão de interrogar Fernando Rosas.
No teatro, no dia do ensaio geral, apareciam os censores, onde depois de já estar tudo preparado para a peça estrear eram cortadas as cenas que não fossem aprovadas, acabando por “destruir a peça”.
Na televisão, ao contrário do que acontece hoje em dia, “ninguém tinha prazer em ver televisão, era muito chato, totalmente desinteressante”. Antes do jornal aparecia um senhor que lia “uma espécie” de notas oficiosas prévias ao telejornal, como forma de “explicar” o que se ia ver a seguir. Existia um botão na régie onde se podia cortar automaticamente a emissão.
“A polícia podia fazer tudo o que queria com as pessoas”
Na altura, por toda a “Europa civilizada”, as pessoas não podiam estar nas mãos da polícia mais de quarenta e oito horas. Em Portugal, o povo podia ser preso pela PIDE e estar durante seis meses nas mãos da polícia, sem qualquer tipo de direitos. A polícia tinha o direito de escutar os telefonemas das pessoas, de abrir e apreender as cartas, de seguir as pessoas na rua.
Fernando Rosas relatou um caso de um homem que esteve preso na mesma cadeia do que ele, que o que fazia era prevenir as famílias, para visitar a família, para ir ao médico, etc. Quando a PIDE descobriu, prendeu-o, julgou-o, tendo sido posteriormente absolvido: “quando eu estive com ele, já estava à quatro anos preso, tendo sido absolvido”. A polícia considerou-o perigoso e aplicou-lhe aquilo que se chamava “medidas de segurança”. Também este relato voltou a deixar os presentes, sobretudo os mais novos, estupefactos com tais actos.
O Golpe Militar
O Golpe Militar em Portugal é diferente de todos os outros golpes militares porque é feito por oficiais intermédios, capitães, majores. Quando tomam o poder “decapitam o exército”, a força que “representa a violência legal do estado” ao tomarem o poder “transformam-no num movimento armado revolucionário. Um movimento que já não é uma força repressiva a favor do estado, mas uma força armada que se coloca ao serviço da transformação revolucionária do país”.
O movimento dos capitães ao triunfar, transforma o golpe militar na revolução. O povo compreende que as forças armadas passaram a estar do lado das reivindicações da população, passando assim de espectadores a actores.
Segundo Fernando Rosas a “revolução é a matriz genética da democracia portuguesa. As pessoas conquistaram as liberdades em Portugal, não porque lhes tenham oferecido, mas sim porque conquistaram a liberdade na rua e nas próprias mãos”. “A PIDE acabou porque as pessoas a assaltaram”.
No final da aula, o historiador referiu de forma irónica que “o 25 de Abril foi talvez o momento mais recente da história em que a politica foi mais importante do que o futebol”. Os alunos ficaram curiosos e não quiseram deixar passar a oportunidade, para no final colocarem algumas questões.














