«Os intelectuais e o espetáculo do mundo» em debate no BarreiroIlustre painel de convidados debate a ética, a literatura e o humor

Por Jornal Rostos
“Os intelectuais e o espetáculo do mundo” reuniram, à mesma mesa, este ilustre leque de convidados que, à vez, foram sendo interpelados pelos alunos/organizadores do debate mas também pela assistência interessada que lotava o auditório. A ‘não ficção’ foi o assunto escolhido para debater por estes alunos da área de ciências, a par da reflexão sobre algumas das intervenções públicas de Saramago.
A partir das frases «sábio é aquele que se contenta com o espetáculo do mundo» de Ricardo Reis e de «temos aí o espetáculo do mundo e é uma coisa arrepiante… E enquanto a consciência das pessoas não despertar isto continuará igual», de José Saramago, vários foram os reptos lançados à mesa de oradores.
Enquadrando a realização desta iniciativa no âmbito do Projeto “Oficina Saramago”, os alunos salientaram tratar-se ‘do seu contributo’ para este projeto que celebra, durante um ano, o escritor e o cidadão.
Ao filósofo Nuno Nabais foi perguntado «de que trata a ética? Será que escrever, fazer ciência ou arte nos faz melhores pessoas?». Sobre a professora Elvira Fortunato, os estudantes quiseram saber que trabalho está ela a realizar, para João Ricardo Pedro, as questões incidiram sobre as condições que rodearam a escrita do seu primeiro livro e quiseram saber se, «agora que foi prémio LeYa 2011, se sente com algum dever adicional para com a sociedade».
Para Ricardo Araújo Pereira ficou reservada a questão «o que o levou a fazer humor? E se considera que o humorista tem o dever de intervir na sociedade?».
Coisas comuns em profissões muito diferentes
Na opinião de Nuno Nabais, a ética (utilitarista) entrou em colapso. “Estaremos numa fase de regresso à ética das virtudes (que assenta no exercício da ética dentro de cada um de nós)?”, questionou o filósofo. Remetendo diretamente a Saramago, Nuno Nabais referiu que o escritor “queria fazer uma ética” mas o que fez foi repensar um conjunto de tradições que caíram em colapso. Tal como faz um filósofo. Refira-se que Nuno Nabais é licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mestre em Filosofia Contemporânea, pela FCSH/UNL e doutorado em Filosofia Contemporânea, pela Universidade de Lisboa. É Professor Auxiliar do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa desde 1995.
“Um investigador, um cientista, nunca está satisfeito com os resultados que obtém”, disse Elvira Fortunato, tornando extensível esta sua afirmação a José Saramago, que considerou ser, sempre, uma pessoa “insatisfeita”. “E assim como um cientista tem liberdade para investigar aquilo que considera ser mais importante também o escritor tem liberdade para escrever/transmitir aquilo que acha ser importante”, reforçou.
Esta investigadora concorreu às Advanced Grants (bolsas para Investigador Avançado) do European Research Council (ERC) com um projeto intitulado INVISIBLE ao qual foram atribuídos 2,25 milhões de euros (a maior bolsa concedida a um investigador português), um montante que permitirá, durante cinco anos, desenvolver trabalho na área da microeletrónica transparente, nomeadamente transístores e circuitos integrados transparentes utilizando óxidos semicondutores.
João Ricardo Pedro, vencedor do prémio LeYa 2011, com o seu livro de estreia, chamou a atenção para o facto de, atualmente, só nos preocuparmos com o ‘homem tecnológico’. “E o apelo que faço como cidadão (não me considero escritor por ter escrito um livro) é para que não deixemos de estar atentos a outras coisas que também produzem riqueza”.
Quem se ri da morte (morre na mesma) mas vive melhor
Ricardo Araújo Pereira (RAP), uma das intervenções mais aguardadas pela plateia, havia sido questionado sobre aquilo que o teria levado a fazer humor e não hesitou em responder que “foi a minha avó. Era a pessoa mais séria que conheci até hoje. E eu queria, a todo o custo, fazê-la rir. Investi a minha infância nisso. E à força de tentar, acabei por conseguir”, afirmou.
Sobre se, um humorista tem o dever de intervir na sociedade, RAP foi perentório a responder: “Não. Não tenho o dever de intervir. O dever de um humorista é fazer rir as pessoas e não fazer pensar”.
De acordo com a sua explicação, nós somos o único animal que ri porque “somos o único animal que sabe que vai morrer”.
E no processo que dista entre a vida e a morte, Ricardo Araújo Pereira confessou ser ótimo saber que, no âmbito da sua profissão, pode fazer algo ‘pelas pessoas’. “Trata-se de uma atividade absurda, de rir a caminho da cova. Mas todos o fazemos no nosso processo de vida. Aliás, considero que todas as últimas palavras ou epitáfios são humorísticas. Lembre-se o caso da pedra tumular de Raul Solnado que diz: «Aqui jaz Raul Solnado muito contra a sua vontade». Recorde-se São Lourenço, o Santo padroeiro dos chefes de cozinha, e dos churrascos, que morreu grelhado e reza a história que ele se terá voltado para os carrascos e dito «este lado já está, virem» ”.
Apesar do riso, ninguém deixa de morrer, disse o humorista. “Os que se riem da morte e os que a temem, morrem na mesma mas, quem se ri da morte, vive melhor. Portanto, contribuir para isso é um ato de generosidade. Mas para que não fiquem a pensar que sou muito generoso, digo aqui que faço isso, porque me pagam”.
“Levantado do Chão de José Saramago: os heróis esquecidos da História”, por Graciete Besse, professora catedrática da Universidade da Sorbonne
No âmbito da ‘Oficina Saramago’, a comissão coordenadora, constituída pela Câmara Municipal do Barreiro, Câmara Municipal da Moita, Cooperativa Cultural Popular Barreirense e Escola Secundária de Santo André, vai realizar a quinta conferência do Projeto na sexta-feira, 1 de junho, pelas 17h30, no auditório da Escola Secundária de Santo André.
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