Por António Matias LopesA cidade sustentável para quem a pode pagar
Barreiro
Antes de abrir esta janela, uma palavra que é devida. O Rostos cumpre vinte e cinco anos. Ao António Sousa Pereira e à sua família deixo os meus parabéns e, mais do que parabéns, a minha gratidão.

Por Jornal Rostos
Um quarto de século de imprensa regional na margem sul, sem se deixar capturar por partidos, por câmaras ou por interesses, é obra rara num país onde tantos títulos locais desapareceram ou se renderam ao silêncio confortável. O Rostos manteve uma linha editorial digna e não tendenciosa, abriu as suas páginas a vozes que nem sempre concordam entre si e fez disso uma forma de serviço público. Numa época em que a informação se fabrica à medida de quem a paga, esta independência vale mais do que parece. É por isso que escrever aqui é um privilégio, e não um favor. Que venham mais vinte e cinco anos, com a mesma teimosia.
E é justamente de serviço público que quero falar hoje, a propósito das cidades que andamos a construir em nome da sustentabilidade.
O paradoxo da sustentabilidade
Há mais de sessenta anos, em 1964, a socióloga Ruth Glass cunhou em Londres a palavra "gentrificação" para descrever a chegada da classe média a bairros operários e a saída silenciosa de quem lá vivia. O fenómeno não é novo. O que é novo é a roupagem com que hoje se apresenta.
Nas últimas duas décadas, a sustentabilidade passou de preocupação ambiental a argumento de venda. Um bairro antigo recebe um parque, uma ciclovia, eléctricos limpos, edifícios reabilitados com eficiência energética, ruas devolvidas ao peão. Tudo isto é bom, e ninguém de bom senso a recusa. O problema está no que acontece a seguir: o valor do solo dispara, as rendas acompanham, e quem lá vivia deixa de ter meios para lá continuar a viver.
A literatura urbana deu nome a este fenómeno: gentrificação verde. Kenneth Gould e Tammy Lewis estudaram-no em Nova Iorque; a equipa de Isabelle Anguelovski, em Barcelona, tem-no documentado em dezenas de cidades europeias e americanas. O exemplo mais citado é o High Line, em Manhattan: uma antiga linha férrea elevada transformada num dos parques mais admirados do mundo, que fez subir de tal forma o valor dos prédios à volta que boa parte dos antigos moradores e comerciantes do bairro deixou de caber nele. O parque ficou; a comunidade foi-se.
O mecanismo é simples. O investimento público em qualidade ambiental valoriza o solo privado que o rodeia. Se nada captar e redistribuir essa valorização, ela é apropriada por quem é dono do solo ou tem capital para o comprar. Os habitantes originários, das classes baixa e média-baixa, são empurrados pelo preço da habitação e pelo custo de vida. A cidade dita sustentável acaba por se destinar a quem tem capital: investidores imobiliários, elites financeiras, nómadas digitais com salários de outras latitudes. O verde, que devia ser um bem comum, transforma-se num activo de luxo. E há aqui uma ironia cruel: quem é expulso para longe dos parques e dos transportes limpos é precisamente quem mais precisava deles.
Lisboa conhece bem esta história, ainda que por outras vias. A combinação entre turismo, alojamento local, vistos gold e fundos de investimento transformou em poucos anos bairros como a Mouraria, Alfama ou o Intendente. A reabilitação era necessária e trouxe vida a edifícios em ruína. Mas o resultado, para muitos residentes, foi a carta de despejo ou a renda impossível. O Porto seguiu caminho semelhante na Baixa e na Ribeira. Na investigação que venho fazendo sobre a erosão e a transformação dos centros das cidades, esta é talvez a lição mais clara: requalificar sem proteger quem lá vive é trocar uma população por outra, e chamar a isso regeneração.
A pandemia acrescentou uma camada nova. O trabalho remoto trouxe para as cidades do sul da Europa uma população que ganha em Londres, Berlim ou São Francisco e gasta em Lisboa, no Porto ou no Algarve. Não há nada de errado em receber quem vem de fora; as cidades sempre viveram de quem chega. O problema é quando o mercado de habitação passa a ser regulado pelos salários de outro país, e o professor, a enfermeira ou o polícia que servem a cidade deixam de poder morar nela. Uma cidade que depende de trabalhadores que já não pode alojar está a construir, sem dar por isso, a sua própria fragilidade.
A exclusão das gerações
Esta nova geografia urbana não expulsa apenas classes sociais. Expulsa gerações, e fragmenta o tecido social de uma forma que as estatísticas de preços não mostram.
Os mais velhos saem dos bairros históricos onde construíram a vida inteira. Não os expulsa só a renda; expulsa-os também o desaparecimento da mercearia, do sapateiro, da farmácia de bairro, da taberna, de todo o comércio de proximidade que era a sua rede de apoio. Quando a loja da esquina dá lugar a mais um espaço de brunch ou a uma loja de recordações, o idoso perde muito mais do que um sítio onde comprar pão. Perde o vizinho que o conhecia pelo nome, o dono do café que dava pela sua falta, a rotina que lhe organizava os dias. A solidão dos mais velhos nas nossas cidades não é só um problema de saúde pública. É também um problema de urbanismo.
Os mais novos enfrentam o problema ao contrário. Não conseguem comprar nem arrendar casa nos centros, nem sequer nas novas centralidades planeadas, onde os preços nascem já inflacionados. São empurrados para periferias com poucos equipamentos, transportes fracos e emprego distante. Adiam a saída de casa dos pais, adiam os filhos, adiam a vida. Quando finalmente saem, é para longe, e passam horas por dia em deslocações, muitas vezes de automóvel porque o transporte público não chega lá com frequência que se veja.
Uma cidade que se diz sustentável e obriga os seus jovens a viver longe e a conduzir todos os dias contradiz-se a si própria. A sustentabilidade ambiental do centro paga-se com a insustentabilidade social e ambiental da periferia. As emissões que se poupam na ciclovia do bairro renovado gastam-se, multiplicadas, nas filas da auto-estrada às oito da manhã.
E há uma consequência menos visível: quando avós, pais e filhos deixam de poder viver perto uns dos outros, desfaz-se a rede de entreajuda familiar que sempre sustentou as cidades portuguesas. Quem fica com as crianças quando a avó mora a quarenta quilómetros? Quem acompanha o pai idoso quando o filho só o pode visitar ao fim-de-semana? A cidade que separa as gerações está a transferir para o Estado, e para os bolsos de cada família, custos que antes eram resolvidos pela proximidade.
Afinal, onde está a economia criativa?
A economia criativa, feita de capital intelectual, cultura, arte, inovação e tecnologia, devia ser o motor de inclusão destas cidades. Foi essa a grande promessa do início do século, quando Richard Florida popularizou a ideia de uma "classe criativa" capaz de regenerar cidades inteiras. O próprio Florida viria, anos mais tarde, a reconhecer o reverso da medalha num livro com um título eloquente: a nova crise urbana. As cidades que melhor atraíram os criativos tornaram-se também as mais desiguais e as mais caras.
Hoje a economia criativa encontra-se numa encruzilhada, e vale a pena olhar para ela sem ilusões.
O ciclo é conhecido desde que Sharon Zukin descreveu, no início dos anos oitenta, os lofts de artistas no SoHo, em Nova Iorque. Os criativos instalam-se em zonas degradadas e baratas, porque é só aí que podem pagar um atelier. Dão-lhes vida, carácter, aquilo a que o mercado chama "charme". Abrem galerias, oficinas, pequenos bares, associações culturais. O bairro torna-se atractivo, aparece nas revistas, e o investimento imobiliário chega. Constrói habitação de luxo e expulsa os mesmos artistas e pequenos empreendedores que criaram esse valor. A cultura funciona como isca, e quem a produziu raramente fica com o que ela gerou. É uma forma de extracção de valor que raramente se nomeia com esta franqueza.
Nos centros já gentrificados, sobra uma versão corporativa e higienizada da economia criativa: coworks de luxo, galerias comerciais, cafés de especialidade e lojas de conceito para um utilizador com carteira robusta. Tem a estética da criatividade, os tijolos à vista, as lâmpadas de filamento, os murais encomendados, mas perdeu a sua função original, que era a emancipação social, a experimentação, a mistura de gente diferente. É criatividade como cenário, não como processo.
A economia criativa verdadeira, comunitária e orgânica, está a mudar-se para as periferias e para redes híbridas, meio digitais, meio físicas, descentralizadas. Sobrevive em antigos armazéns, em associações de bairro, em colectividades, em fábricas desactivadas, em plataformas que ligam criadores sem passar pelo centro. Sobrevive onde há espaço para errar e experimentar, e onde o preço do metro quadrado não sufoca a inovação.
Isto devia fazer-nos pensar. As periferias que tantas vezes olhamos como problema podem ser, afinal, o lugar onde a cidade criativa ainda respira. A questão é saber se as vamos proteger, ou se vamos repetir nelas, daqui a dez anos, o mesmo ciclo de valorização e expulsão.
O que outros já fizeram
Seria injusto dizer que não há alternativas. Há, e estão estudadas.
Viena é o caso clássico. A cidade trata a habitação como infraestrutura, e não apenas como mercadoria, há mais de um século. Uma parte muito significativa dos vienenses vive em habitação municipal ou em cooperativas apoiadas pelo município, com rendas controladas e bairros socialmente misturados. O resultado é uma das capitais com melhor qualidade de vida da Europa, sem que isso tenha significado expulsar os seus habitantes.
Na Alemanha, onde vivo parte do ano, várias cidades usam instrumentos de protecção do meio social dos bairros, os chamados regulamentos de preservação, que limitam obras de luxo e conversões especulativas em zonas sob pressão. Munique aplica-os em muitos dos seus bairros. Não resolvem tudo, mas travam o mais grave. Berlim foi mais longe e tentou congelar as rendas; a medida acabou anulada pelo Tribunal Constitucional, mas abriu um debate europeu que ainda não se fechou.
Em Barcelona, as "superilhas" que devolvem ruas aos peões são hoje estudadas tanto pelos seus benefícios ambientais como pelo risco de valorização que trazem, e a discussão sobre como as acompanhar com habitação acessível faz parte do próprio projecto. É esse o ponto: a política ambiental e a política de habitação têm de andar juntas desde o primeiro dia, não uma atrás da outra.
Portugal também tem memória nesta matéria. Depois de 1974, as cooperativas de habitação construíram dezenas de milhares de casas para famílias de rendimentos médios e baixos, muitas delas na margem sul. Foi um modelo que funcionou e que deixámos esmorecer. A Lei de Bases da Habitação, de 2019, reconhece a habitação como direito e não apenas como negócio; falta passar do papel ao território.
Uma lição para a margem sul
Não escrevo isto em abstrato. O Barreiro e todo o Arco Ribeirinho Sul estão à beira de uma transformação profunda, com a Terceira Travessia do Tejo e o novo aeroporto no horizonte. Os antigos terrenos industriais, as frentes ribeirinhas, os bairros operários vão atrair investimento, atenção e, inevitavelmente, especulação. Isso é uma oportunidade que o Barreiro espera há décadas, e é também um risco que não pode ser ignorado.
Se não houver políticas que protejam quem cá vive, a regeneração da margem sul pode repetir o que já vimos em bairros históricos de Lisboa: melhorar o território e perder a comunidade. O Barreiro tem uma identidade forte, operária, associativa, cultural. Essa identidade é, ela própria, o seu maior ativo. Seria um erro trocá-la por um cenário bonito habitado por outros.
A margem sul tem, aliás, uma vantagem que Lisboa já perdeu: ainda tem espaço. Os grandes terrenos da antiga CUF, hoje sob gestão pública, os armazéns e as naves industriais junto ao rio podem acolher ateliers, oficinas, escolas de artes e ofícios, empresas criativas nascentes, a rendas que não as matem à nascença. A tradição associativa do Barreiro, das coletividades às bandas filarmónicas e aos grupos de teatro amador, é uma economia criativa “avant la lettre”,que nunca precisou de coworks de luxo para existir. A candidatura do Barreiro a Capital Portuguesa da Cultura mostrou que há ambição. O passo seguinte é garantir que a cultura que se promove é a que cá se faz, e não uma cultura importada para valorizar lotes.
Três sustentabilidades, e não uma
Talvez o erro de fundo esteja na própria palavra. Falamos de sustentabilidade como se fosse apenas ambiental: carbono, energia, verde urbano. Mas uma cidade só é sustentável se o for em três dimensões ao mesmo tempo. Ambiental, sim. Económica, também, porque uma cidade que expulsa os seus trabalhadores para longe acaba por não os ter quando precisa deles, nos hospitais, nas escolas, nos transportes, nos cafés. E social, porque uma cidade sem mistura de idades, de rendimentos e de origens perde a capacidade de se renovar por dentro.
Quando uma destas dimensões é sacrificada às outras, a cidade não fica mais sustentável; fica apenas mais bonita para menos gente. O desafio dos urbanistas, dos autarcas e dos investidores, e falo também como alguém que passou a vida a desenvolver projetos imobiliários, é aceitar que o valor de um território não se mede só pelo preço do metro quadrado, mas pela vida que ele consegue manter.
O desafio
Para que uma cidade seja de facto sustentável, a economia criativa e o planeamento urbano precisam de estar protegidos por políticas públicas firmes. Enumero as que me parecem essenciais:
· Habitação acessível e de renda controlada, integrada nos novos projetos e não remetida para bairros à parte.
· Cooperativas de habitação e modelos de propriedade coletiva do solo, que retiram casas do mercado especulativo de forma duradoura.
· Proteção do comércio local e dos espaços culturais de base, com rendas estáveis e contratos longos, para que o sapateiro e o atelier não sejam os primeiros a sair.
· Captação pública de uma parte das mais-valias criadas pela requalificação, devolvida a quem lá vive sob a forma de habitação, equipamentos e transporte.
· Transporte público de qualidade nas periferias, para que viver mais longe não signifique viver pior.
Nada disto é utópico. Tudo isto existe algures, em cidades que não são mais ricas do que as nossas, apenas mais decididas.
Sem justiça social, a cidade sustentável torna-se apenas um produto de marketing verde para quem o pode pagar. E uma cidade que só serve a quem pode pagar deixa, a pouco e pouco, de ser uma cidade. Passa a ser um condomínio.
António Matias Lopes – Investigador Urbano. FEUC/CES
Setembro 2026













