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Colunistas

Por Carlos Alberto CorreiaVergonha e Indignação
Barreiro

Escrevo hoje com sentimentos que, desde há muito tempo, não sentia tão veementes. Tudo porque, ontem, domingo e primeiro dia de novembro, ao ligar o televisor me entraram pela casa as cenas de extrema violência praticadas pela polícia de choque (sim, este é o nome que já ganharam) contra manifestantes pacíficos e dentro da discutível legalidade que este (desgoverno) quer impor.

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Por Carlos Alberto Correia Vergonha e Indignação Barreiro

Por Jornal Rostos

Antes de avançar mais com a indignação provocada pelas imagens que abriram o meu domingo, quero, em jeito de parábola, contar-vos uma história de ainda ganapo a dar o salto para a ebulição da puberdade.

Morava num largo da cidade. Todos os dias um rapaz, talvez um pouco mais velho que eu, transitava calmamente pela zona que eu considerava meu domínio. Um dia em que estaria mais perturbado, sem que dele viesse qualquer provocação, corri desentranhado e agrediu-o com violência. Para meu grande espanto, embora fosse maior e mais forte que eu, não reagiu à agressão, encolheu-se, chorou e fugiu sem ripostar. O que o meu orgulho de machinho reverberou nesse dia nem ouso contar-vos. Achava-me o maior, o mais forte e valente e o Senhor com direitos a permitir ou não a passagem e permanência no largo. Durante muito tempo, sempre que o jovem por ali passava sabia que eu arrancaria contra ele e por isso, quando podia evitar o recontro fugia. Já muito certo da minha superioridade aconteceu um dia um facto surpreendente. À desabrida carga sobre ele, (espanto!), não fugiu como era costume. Especou virado para mim e, antes de conseguir dar-lhe o primeiro soco, levei uma lambada que me deitou ao chão. Foi a última vez que, galarote, tentei impedir-lhe a passagem pelo largo. Pode mesmo dizer-se que se inverteram os papéis. Quando ele aparecia eu recolhia prudentemente a casa.


Não sei se foram evidentes as similaridades entre este acontecimento dos meus verdes anos e o que, desde há três semanas se passa – e poderá vir a passar-se - no nosso País, com especial referência a Lisboa e ao Porto.

Cidadão pacíficos fartos de promessas nunca cumpridas sobre direitos à habitação (aqui podia incluir os versos de Sérgio Godinho: A paz, o pão, educação, saúde, habitação, todas com muito para contar, mas atenho-me à questão da habitação, porque é o que nestes dias mais tem andado nos tempos de noticiários, governo e parlamento e nos desencontrados comentários de muitos analistas das nossas TV, com uma maioria, mesmo de direita, mas com honestidade intelectual, a reverberarem os comportamentos de parlamentares, governo, polícia e mesmo do Presidente da República. Também é preciso não querer ver para não se aperceberem de como este problema se expandiu não só pelo nosso território, mas também por muitos países da Europa.


Portanto o problema existe é reconhecido, estão feitos todos os diagnósticos, sabem-se as soluções, porém para grande surpresa de todos nós, quem de direito não avança para a sua resolução e, num jogo de passa culpas, afirma o que já se sabe: o problema é velho, já passou por governos anteriores, ninguém fez nada e nós havemos de fazer, só não sabemos quando, porque a resolução é difícil e andamos muito ocupados com outros problemas, para nós, de muito maior urgência. Esperem!

É aí que está o busílis!

Já toda a gente está farta de esperar e está de paciência perdida.


Mas não há casas, afirma o Governo. Há sim senhor! Responde o vulgo. Há-as devolutas, há-as para reconstruir e adaptar, há-as por construir a preços acessíveis. Isso não é connosco e não é fácil, responde o Governo. É o mercado! Alto lá com isso! Afinal quem foi eleito para governar o País? Vocês ou o mercado? Engasgados com a resposta que, pelo que conhecemos, só lhes pode criar problemas com os “investidores”, acham mais fácil tripudiar sobre Constituição e Direitos Humanos e, não só permitindo, como se aproveitam e apropriam da transformação de um direito em ocasião para chorudos negócios. Querem que continue por aqui? Não é necessário, pois não? Todos conhecemos as razões transparentes, que se querem ocultas, que levam a este miserável estado de coisas.


Sem outro remédio o Povo vem para a rua. No seu direito constitucional de manifestação. Sabe que não é ouvido, mas quer fazer-se ouvir. Ocupa praças onde só existem escritórios e locandas semelhantes, de onde a população, que ainda conseguiu arranjar morada, foi há muito corrida para as várias periferias - chama-se a este fenómeno Gentrificação - e usam, com lamentáveis subterfúgios, normas escolhidas a propósito, para atenuarem, se não for possível evitar, o incómodo de ouvir as reivindicações que lhes trazem à memória as suas incapacidades ou relutâncias. Por isso espartilham horas e modos para a organização de manifestações, consideram tendas (acampadas) como opróbrio público e ”ultimatam”: ou tiram as tendas ou há porrada, ultrapassando os limites das suas atribuições. É assim que vemos cargas policiais sobre gente pacata, destruição dos humildes símbolos constituídos pelas tendas, que lhes batem no focinho como lembranças de direitos negados e de forçados castigos esperando que os manifestantes, face à injusta violência das suas cargas, percam a cabeça, ripostem para assim justificarem o seu brutal comportamento. Parece pois, que alguém, incapaz de fazer face aos problemas, por inação ou interesses, pretende forçar as massas a responder à violência com violência. Eles bem sabem que a uma ação segue sempre uma reação.


Por isso me indigno e começo a ouvir, já com alguma ressonância os passos de botas cardada de velhos totalitarismos a ganharem fôlego na nossa terra. Os Poderes são coniventes. Quando não apoiam, permitem! Isto porque a ânsia por mais e maior poder não é estranha às Democracias. É uma praga contínua que tem de ser combatida através do conhecimento, dos meios de comunicação e dos tribunais. Hoje a Democracia não precisa de golpes de estado. Destrói-se por dentro por ganância ou cobardia dos seus guardiões.

Por isso trago, aqui, por este modo de resistência, a minha indignação por tudo quanto se está a passar, pelo aproveitamento que das dificuldades não resolvidas é feita pelos saudosos do antanho. Tenho vergonha de ver quão mal representados estamos nos órgãos que têm a obrigação de nos defender e se vão tornando paulatinamente perigosos adversários. Sinto-o nos comportamentos, vejo-o na ação, percebo-o nos discursos causticantes. Ou, naqueles que deviam ser simples, vigorosos e claros, de alguém em quem votei por necessidade, sabendo que me viria a arrepender e que tardia e timidamente vem à praça com discursos tíbios e ambíguos. Ganhe força homem! Hoje é o dia! “As abstenções violentas” nunca mudaram um centímetro aos caminhos iníquos.


E já agora, embora sem saudades, mas com pasmo, por anda o nosso Primeiro Montenegro? Maior responsável pelo desencaminhamento do País, quase se eclipsou. Nós sabemos! Tudo o que está mal é culpa dos governos do PS. Os seus dois anos de mandato nem ainda deram para abrir os dossiês e a preocupação com o Lobo Mau, filho da Troika, amigo do Chega, nem lhe dá sossego nem permite concentrar-se na resolução de coisas menos urgentes. E, vamos lá, quem é que quer que a discussão se concentre na lei dos arrendamentos que, pelos vistos, parece dar algum jeitinho a quem, ao que se diz, tem muitas casas para alugar?

Ah! Ainda tenho esperança que o que aqui vim postar não me torne um meliante digno de qualquer visita conspícua, por uma destas madrugadas, de alguma força da “Ordem”.

Lembram-se da canção: “Era de noite e levaram…”


Carlos Alberto Correia

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