Por António Matias LopesA espuma dos dias e a saudade da nossa cidade
Barreiro
Escrevo de Munique, onde vivo há mais de uma década, numa semana em que a cidade fechou dois dos seus maiores acontecimentos do ano. Escrevo com a saudade de quem nunca deixou de pertencer ao Barreiro.

Por Jornal Rostos
Esclareço desde já, para evitar equívocos, que não quero que o Barreiro seja igual a Munique. As escalas são outras, tal como a história, a economia e o país. Há, no entanto, comparações que não servem para humilhar. Servem para inquietar, e é dessa inquietação que nasce este texto.
Uma cidade que trabalha sem se exibir
Uma das coisas que mais me impressionam em Munique é quase uma ausência. Vive-se aqui e raramente se vê o Oberbürgermeister, Dominik Krause, dos Verdes (Aliança 90/Os Verdes), nos jornais, nas redes ou nas inaugurações. Vê-se, em contrapartida, o resultado do seu trabalho. Há uma dedicação ao serviço público discreta, técnica e persistente, que ajudou a fazer desta cidade uma das mais pujantes economias da Europa. O mérito não é só de quem governa, mas muito se deve ao empenho de quem gere a cidade. A gestão é feita para que as coisas funcionem, e não para que se veja quem as faz funcionar.
O Oktoberfest deste ano foi a prova disso. Começou a 19 de Setembro, terminou a 4 de Outubro e recebeu 7,4 milhões de visitantes, que deixaram na economia da cidade cerca de 1597 milhões de euros e consumiram 6,7 milhões de canecas, as famosas Mass. Estes números representam um aumento de 2,7% face a 2025. Durante mais de duas semanas, milhões de pessoas passaram por uma cidade que não perdeu o pé. Não houve grandes tumultos nem aparato securitário ostensivo. Houve uma segurança quase invisível, sempre pronta a intervir.
Mal se desmontavam as tendas da Theresienwiese, Munique abriu as portas a outro mundo, o da EXPO REAL. É uma das maiores feiras de imobiliário e investimento do planeta. Nela se cruzam cidades europeias, promotores, fundos e investidores, e ali se desenham os próximos anos do retalho, do turismo, da hotelaria, da logística e dos negócios sustentáveis. Saem dali muitos milhões de euros de investimento, decididos em conversas que começam num stand e acabam num contrato. Tudo isto acontece com hotéis cheios, restaurantes fully booked e transportes a funcionar. É uma cidade que serve os seus visitantes ao mais alto nível porque sabe que é disso que vive.
Some-se a isto a ambição olímpica de sediar os respectivos jogos de Verão em 2036,2040 ou 2044 Munique foi a escolha oficializada pela Confederação Alemã dos Desportos Olimpicos (DOSB) em Setembro de 2026 e acrescenta, assim, ao seu capital económico um enorme capital simbólico. Pierre Bourdieu ensinou-nos que este capital não é acessório. É o que permite a uma cidade converter reputação em investimento e investimento em futuro.
E o Barreiro?
É precisamente perante estes ambientes que me assalta a inquietação. Olho daqui para a letargia do Barreiro e pergunto-me o que nos falta.
Falta-nos muito do que Munique tem, e não vale a pena fingir o contrário. Não temos dimensão. Não temos o peso de um país que aposte em nós. Pior do que isso, parece faltar-nos ambição. A pergunta torna-se então inevitável: se não temos isso, o que temos?
Temos potencial, e esta não é uma frase de circunstância. Temos o rio, a frente ribeirinha e um património industrial singular. Temos território disponível como poucas cidades da Área Metropolitana. Temos uma posição geográfica que a futura Terceira Travessia do Tejo e o novo aeroporto podem transformar radicalmente. Temos uma memória operária e associativa que é, ela própria, um activo cultural.
Falta-nos quem ponha esse potencial em movimento. Faltam agentes que promovam a ação, gente capaz de transformar um território expectante num projeto de cidade. O Barreiro tornou-se uma cidade que espera. Espera pela ponte, pelo aeroporto, pelo Arco Ribeirinho Sul e pelos fundos que hão-de vir. Espera, sobretudo, por decisões que não lhe pertencem e que não tem capacidade para tomar. Uma cidade que se limita a esperar acaba por se habituar a não decidir.
A espuma e o fundo
A política local vive demasiado da espuma dos dias: a fotografia na inauguração, a publicação nas redes, a obra de fachada que rende likes mas não rende futuro. Munique mostra-me todos os dias o contrário. As cidades que avançam são as que trabalham o fundo, com planeamento, gestão técnica, continuidade e capacidade de atrair quem investe.
Não há aqui nenhuma receita alemã para importar. A lição é mais simples e, por isso, mais exigente. Uma cidade não precisa de ser grande para ser ambiciosa. Precisa de saber o que quer ser, de ter quem a represente com competência onde se decidem os investimentos e de deixar de confundir comunicação com governação. Na EXPO REAL estavam cidades europeias da dimensão do Barreiro, e algumas mais pequenas, a apresentar projetos e a disputar capital. Não estavam ali por terem tamanho. Estavam porque tinham um plano e alguém disposto a defendê-lo.
O Barreiro não tem de ser Munique. Tem de deixar de ser apenas a cidade que espera.
António Matias Lopes,
doutorando em Sociologia de Cidades e Culturas Urbanas (FEUC/CES, Universidade de Coimbra).
Outubro de 2026.













