Saltar para o conteúdo
Colunistas

Por António Matias LopesHá outra forma de ver o Barreiro?

Há perguntas que parecem ingénuas e que, precisamente por isso, quase ninguém faz. Esta é uma delas: existe outra forma de ver o Barreiro? Não falo da forma como o Barreiro se vê ao espelho das suas memórias. Essa conhecemo-la bem, contámo-la muitas vezes, e não é dela que quero tratar hoje.

14 min de leitura
Por António Matias Lopes Há outra forma de ver o Barreiro?

Por Jornal Rostos

Falo da forma como olhamos para a cidade quando pensamos no que ela pode ser daqui a vinte anos. Quando uma criança que hoje entra na escola primária tiver idade para escolher onde viver, que razões terá para ficar? Quando uma empresa procurar onde instalar-se na Área Metropolitana de Lisboa, que motivos encontrará para atravessar o rio? Quando um reformado olhar pela janela, que cidade verá?

Escrevo esta coluna sem responsabilidades políticas e sem qualquer desejo de as ter. Há quem veja nisso uma fraqueza: quem não governa, dir-se-á, não sabe do que fala. Prefiro ver nisso uma liberdade. A liberdade de fazer perguntas sem ter de defender respostas já dadas, e a de olhar para a cidade sem a obrigação de a achar sempre bem. Não é uma liberdade contra ninguém. É, simplesmente, o lugar de onde escreve um cidadão que conhece outras cidades e que gosta desta.

Ao longo de mais de três décadas trabalhei em cidades muito diferentes, de Munique ao Rio de Janeiro, do Cairo a Banguecoque, de Doha a Tóquio. Em todas aprendi a mesma coisa: as cidades não mudam porque alguém as critica nem porque alguém as elogia. Mudam quando alguém consegue vê-las de outra forma e transformar essa visão num método, com etapas, recursos, prazos e responsáveis. O resto é ruído. Por vezes bem fotografado, mas ruído.

Proponho, por isso, ao leitor um exercício. Durante as próximas linhas, esqueçamos as polémicas da semana, as inaugurações e as publicações nas redes sociais. Imaginemos que o Barreiro é uma página em branco com muitos recursos anotados à margem. E perguntemos: se o víssemos hoje pela primeira vez, sem paixões nem ressentimentos, o que veríamos?

Ver a partir do centro, não da margem

Durante décadas habituámo-nos a definir o Barreiro pelo que ele não é. Somos a «outra banda», a «margem sul», o lado de lá. A própria linguagem coloca-nos fora do mapa, como se a cidade existisse apenas em relação a Lisboa. E quem se habitua a ver-se como margem acaba por se comportar como margem: espera que as decisões venham de fora, que os investimentos venham de fora, que até a sua imagem seja desenhada por outros.

Experimentemos inverter o mapa. Coloquemos o compasso no Barreiro e tracemos um círculo de trinta quilómetros. Dentro dele cabem Lisboa, Almada, o Seixal, o Montijo, Alcochete, Palmela, Setúbal e o local escolhido para o novo aeroporto. Visto assim, o Barreiro não é periferia de coisa nenhuma. É um ponto de charneira no meio de um dos maiores estuários da Europa, com comboio para sul, barco para Lisboa em poucos minutos e uma futura travessia rodoferroviária em discussão há anos.

Não se trata de geografia sentimental. Há cidades europeias que viveram exatamente esta passagem da margem para o centro. Em Roterdão, o Kop van Zuid, na margem sul do rio, era uma zona portuária operária, vista do outro lado como o bairro dos que ficavam para trás. Uma ponte, um plano de longo prazo e uma gestão paciente transformaram-no num novo centro da cidade, com habitação, escritórios, cultura e espaço público. Não aconteceu num mandato. Aconteceu em mais de duas décadas, com o mesmo rumo mantido por sucessivas maiorias.

Convém, no entanto, não confundir posição com destino. A centralidade geográfica é uma oportunidade, não uma garantia. Uma ponte pode trazer pessoas e emprego, mas também pode levar os consumidores, os serviços e os jovens para o outro lado. Uma cidade bem ligada pode tornar-se um lugar onde se dorme e de onde se sai todas as manhãs. Na investigação que tenho vindo a fazer sobre os centros das cidades, chamo a este fenómeno uma centralidade que se separa do lugar: o movimento passa por ali, mas a vida da cidade acontece noutro sítio.

A pergunta, portanto, não é se o Barreiro está bem posicionado. Está. A pergunta é se a cidade quer ser um ponto de passagem ou um ponto de chegada. E essa escolha não depende do Governo, nem de Lisboa, nem dos investidores. Depende, antes de mais, da forma como o próprio Barreiro decide olhar para si.

O que temos e não contamos

Quando um investidor estuda uma cidade, a primeira coisa que faz é um inventário. Não das suas queixas, mas dos seus ativos. Façamos o mesmo exercício, com olhos de quem chega.

O Barreiro tem território. Poucas cidades da primeira coroa metropolitana dispõem de áreas tão extensas, junto à água, que já foram industriais e que estão, em grande parte, em mãos públicas ou semipúblicos. Em Lisboa, um hectare livre junto ao rio é uma raridade disputada. Aqui, há dezenas deles à espera de um destino.

O Barreiro tem ligações. Comboio para o sul do País, barco para o coração de Lisboa, uma rede viária que liga a toda a península. Muitas cidades europeias pagariam caro por esta combinação.

O Barreiro tem natureza à porta de casa: a Mata da Machada, os sapais do Coina, os moinhos de maré, uma frente de rio com um pôr-do-sol que nenhuma campanha publicitária consegue inventar. São ativos ambientais que hoje valem mais do que nunca, numa época em que as famílias escolhem onde viver também pela qualidade do ar e pela proximidade da natureza.

O Barreiro tem conhecimento. Uma escola superior de tecnologia, escolas profissionais, uma cultura de trabalho técnico que atravessa gerações. Tem também um tecido associativo raro: coletividades, clubes, bandas, grupos de teatro e uma cena musical independente reconhecida bem para lá do concelho.

E o Barreiro tem preço. A habitação continua mais acessível do que na outra margem, o que já está a trazer jovens casais, profissionais criativos e famílias que Lisboa empurrou para fora. Isto é uma oportunidade e um risco ao mesmo tempo, e voltarei a ele.

O problema não está na falta de ativos. Está no facto de serem tratados como peças soltas. O território é assunto de uma entidade, os transportes de outra, a cultura de um pelouro, a natureza de outro, a escola de ninguém em particular. Não existe, que eu conheça, um inventário público destes recursos com um plano para cada um e uma visão que os ligue. Um centro comercial com as melhores lojas do mundo, mas sem ninguém a pensar o conjunto, falha. Uma cidade também.

Entre a aspiração e o projeto

Há três coisas que, na vida pública, se confundem com frequência: a aspiração, o anúncio e o projeto. A aspiração é aquilo que desejamos. O anúncio é aquilo que dizemos. O projeto é aquilo com que nos comprometemos, com método e com contas. As três são legítimas, mas só a terceira muda uma cidade.

Esta confusão não é um defeito do Barreiro, nem de um partido, nem de uma pessoa. É uma tendência da política contemporânea em quase toda a Europa. O ciclo eleitoral dura quatro anos; o ciclo de uma cidade dura vinte ou trinta. As redes sociais premeiam a imagem do dia, a fita cortada, a fotografia ao pôr-do-sol. Comunicar não é errado; uma cidade que não comunica não atrai ninguém. Mas a imagem sem projeto por trás é uma fachada, e as fachadas, mais cedo ou mais tarde, deixam ver o que está atrás.

Proponho ao leitor um pequeno teste, que qualquer cidadão pode aplicar a qualquer proposta, venha ela de quem vier. Bastam seis perguntas:

1.     O quê, exactamente?

2.     Onde, com morada e área?

3.     Quanto custa e quem paga?

4.     Quando começa e quando acaba?

5.     Quem é o responsável?

6.     Como saberemos se resultou?

Se uma proposta não responde a três destas perguntas, é uma aspiração. Pode ser bonita, pode até ser necessária, mas ainda não é um projeto. E uma cidade que vive de aspirações acaba por viver de expectativas adiadas.

Vimos há pouco um exemplo que ilustra bem esta diferença, e que cito sem nomes, porque o que importa não é a pessoa, é a lição. Num conceituado programa de economia da televisão pública, foi apresentada como revolucionária uma ideia para resolver o problema da habitação. A intenção era boa e o tema não podia ser mais urgente. Mas quem a apresentava, na qualidade de presidente de uma associação, não levava plano de negócio nem modelo financeiro, e não soube responder a quanto custava, quem pagava, em que prazo e com que retorno. Num programa onde essas perguntas são a regra, a ideia não resistiu aos primeiros minutos.

O pior não foi a ideia ter falhado. Foi a imagem que ficou. Quem fala num canal nacional não se representa só a si próprio: representa uma cidade, uma causa e, de certo modo, todos os projetos sérios que virão depois. Um investidor, um decisor ou um simples espectador que assiste a uma proposta sem números não pensa «esta pessoa não preparou o trabalho»; pensa «aquele território não está preparado». E essa impressão demora anos a desfazer. Levar uma aspiração a um programa onde se esperam projetos não é ousadia; é desperdiçar uma oportunidade que pode não voltar. Antes de anunciar ao País uma revolução, convém ter feito o trabalho de casa.

O teste vale para quem governa e para quem se opõe. Criticar o que falta não substitui propor o que se faria. Vale também, evidentemente, para este cronista, e é por isso que as propostas que se seguem tentam responder, tanto quanto uma coluna de jornal permite, a essas seis perguntas. Não são as únicas possíveis, nem pretendem ser as melhores. São um convite a discutir o Barreiro com o mesmo rigor com que se discute um investimento: com números, prazos e responsáveis.

Seis propostas para vinte anos

Primeira: uma estrutura de missão para a frente ribeirinha. Os grandes terrenos junto ao rio não se transformam com decisões avulsas. Precisam de uma entidade única, de capitais públicos, com o município, o Estado e os atuais proprietários à mesma mesa, uma direção técnica estável e um mandato de vinte anos protegido dos ciclos eleitorais. Em Hamburgo, a HafenCity é gerida há mais de duas décadas por uma sociedade pública criada para esse fim. Financia-se pela valorização do próprio solo: vende ou cede em direito de superfície, por fases, e reinveste em espaço público e infraestruturas. O primeiro passo custa pouco: um plano diretor único, com calendário público.

Segunda: habitação acessível em terreno público. Se o Barreiro atrai famílias pelo preço, tem de proteger essa vantagem antes que desapareça. Proponho que uma parte fixa, por exemplo um terço, de toda a habitação nova construída em solo público seja de renda acessível, entregue em direito de superfície a cooperativas e promotores com rendas limitadas por contrato. Viena faz isto há um século e continua a ser uma das cidades mais habitáveis do mundo. O solo público é o maior instrumento de política de habitação que uma câmara tem; vendê-lo ao melhor preço é perdê-lo para sempre.

Terceira: gerir o centro como um todo. Passei a vida profissional em centros comerciais e aprendi lá aquilo que as ruas comerciais raramente têm: alguém que pense no conjunto. Um gestor do centro urbano, financiado pela câmara e pelos comerciantes, que conheça cada loja vazia, negocie rendas temporárias para novos negócios, coordene horários, eventos e limpeza, e meça a afluência. Na Alemanha e no Reino Unido estas parcerias existem por lei e com resultados medidos. Custa o salário de uma pequena equipa. O retorno é um centro que deixa de competir sozinho contra as grandes superfícies.

Quarta: o Barreiro voltar a fazer coisas. Nem todo o território industrial deve tornar-se habitação ou lazer. Uma parte pode acolher um campus de indústria leve e limpa: oficinas, fabricação, energias renováveis, economia circular, logística urbana. Ligado à escola superior de tecnologia e ao ensino profissional, daria emprego qualificado a quem vive cá e razões a quem estuda para não sair. Uma cidade onde só se mora e não se trabalha fica refém do que acontece do outro lado do rio.

Quinta: o rio como avenida. O Tejo pode ser a principal rua do Barreiro. Reforçar e diversificar o transporte fluvial, com ligações ao Seixal e ao Montijo e não apenas a Lisboa. Criar um percurso ribeirinho contínuo, pedonal e ciclável, de ponta a ponta do concelho. Proteger os sapais e a Mata da Machada como parque natural metropolitano, com gestão própria e acesso público. A natureza não é um custo; é o que tornará a cidade desejada daqui a vinte anos.

Sexta: um observatório da cidade. O que não se mede não se governa. Proponho um conjunto de indicadores públicos, atualizados todos os anos e disponíveis na internet: população por idade, lojas vazias no centro, rendas médias, emprego local, tempos de deslocação, qualidade do espaço público. Discutidos numa sessão pública anual, com universidades e associações. Não serve para atacar nem para defender ninguém. Serve para que todos, governo e oposição incluídos, discutam a mesma realidade.

Um laboratório à espera de método

Disse que não insistiria na história, e cumpro. Basta uma frase: o Barreiro é uma das poucas cidades portuguesas que já foi inventada uma vez, quase do nada, à volta de uma ideia de futuro. Quem duvida de que a cidade é capaz de se reinventar esquece que ela nasceu precisamente disso.

Hoje, o Barreiro é outra vez um laboratório. Não de química, mas de sociedade. Aqui se pode observar, antes de muitas outras cidades portuguesas, o que acontece a uma cidade média pós-industrial quando a metrópole lhe bate à porta. Chegam novos moradores à procura de casas que Lisboa já não lhes oferece. Os mais velhos ficam, por vezes sozinhos, em bairros que mudam à sua volta. O comércio tradicional perde clientes para as grandes superfícies e para o comércio eletrónico. Os jovens qualificados hesitam entre ficar e partir. E as grandes obras anunciadas, a travessia, o aeroporto, a frente ribeirinha, prometem mudar tudo, sem que se saiba ainda bem para quem.

É aqui que volto ao risco de que falei. O preço acessível que hoje atrai famílias é o mesmo que amanhã atrairá especuladores, se nada for feito. Muitas cidades descobriram tarde demais que a sua renovação expulsou precisamente as pessoas que lhe davam alma. Melhorar uma cidade sem a substituir por outra é o desafio mais difícil do urbanismo contemporâneo. O Barreiro ainda está a tempo de o enfrentar com antecedência, em vez de o lamentar depois.

Um laboratório, no entanto, não vive de experiências soltas. Vive de hipóteses claras, de método, de medição e de paciência. Formula-se uma pergunta, testa-se uma resposta, mede-se o resultado, corrige-se o caminho. Uma cidade governada assim não precisa de acertar sempre; precisa de aprender sempre. E aprende melhor quando os seus cidadãos, as suas escolas, as suas associações e as suas empresas são chamados a pensar com ela, e não apenas a assistir.

Não tenho a pretensão de saber o que é melhor para o Barreiro. Tenho a convicção de que há outra forma de o ver: como centro e não como margem, como soma de ativos e não como soma de problemas, como projeto de vinte anos e não como sucessão de anúncios. Essa forma de ver não pertence a nenhum partido nem a nenhum executivo. Pertence a quem cá vive e a quem cá viverá.

Deixo, por isso, a pergunta ao leitor, que é afinal quem tem a última palavra sobre a cidade: se pudesse escolher uma única coisa para o Barreiro conseguir até 2046, qual seria? E que seis resposta daria a quem lhe perguntasse como fazê-la?

Há outra forma de ver o Barreiro. Só a veremos, porém, quando deixarmos de olhar para ele apenas pelo retrovisor, ou pelo ecrã do telemóvel, e começarmos a olhá-lo pela janela, de frente, com tempo e com método.

António Matias Lopes


Doutorando em Sociologia – Cidades e Culturas Urbanas na FEUC/CES da Universidade de Coimbra

Outubro de 2026

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção